Entre a cegueira e a lucidez, no processo de (des)humanização

Considerações em torno da busca de se fazer uso libertário dos sentidos, em tempos de obscurantismo

“Têm boca, mas não falam; olhos têm, mas não vêem.
Têm ouvidos, mas não ouvem; narizes têm, mas não cheiram.
Têm mãos, mas não apalpam; pés têm, mas não andam; nem som algum sai da sua garganta.” (Salmo 115, 5-7)

As linhas que seguem, têm o propósito de realimentar a reflexão crítica sobre o bom ou mau uso que fazemos dos nossos sentidos, aqui focando com especial ênfase os significados e o alcance da visão ou da cegueira, em tempos de obscurantismo. Comecemos por uma obviedade: ao longo de nossa história e da história de vida de cada uma e de cada um de nós, coabitam bem e mal, tal como acontece alternância entre noite e dia, luz e trevas, quente e frio… Eis uma característica de todo ser inacabado, e, por isto mesmo, historicamente vocacionado à Liberdade e, por conseguinte, a ir superando seus próprios limites, a partir do despertar e do contínuo exercício de suas potencialidades.

Nesse sentido ao revisitarmos a história recente ou menos recente damo-nos conta da alternância ou da convivência de nossas qualidades e dos nossos defeitos.

O fato de nos sentirmos historicamente chamados a desenvolver nossas potencialidades (pessoais e coletivas) não apaga, por si, o permanente risco de estarmos sujeitos a sucumbir a condições portadoras, não de humanização, mas de desumanização. Além das condições históricas e conjunturais, que constituem importante fator concorrente, convém lembrar também o concurso de fatores internos, na medida em que, para além dos fatores externos, aí também incidem fatores subjetivos, estes últimos especialmente associados ao nosso processo de formação contínua.

Por este processo de formação contínua passam diferentes elementos formativos, um dos quais tem a ver com o desenvolvimento de nossa capacidade perceptiva: ver melhor o que antes não percebíamos, ou mal percebíamos; ouvir falas e sons a que antes vivíamos surdos; sentir coisas, fatos, acontecimentos que antes nos passavam despercebidos… Cada um destes sentidos (e de outros mais), só se desenvolve dentro de um processo contínuo de formação, cujo os protagonistas e ambiência são nossas organizações de base, atuando como principais forças motrizes de nossa sociedade, partindo de uma atenção especial do desenvolvimento também das qualidades pessoais, e sempre num “continuum”.

Tal processo formativo, não se faz à parte do contexto histórico, mas profundamente inserido nos entrechoques da história, razão por que conjunturas há favoráveis, e outras desfavoráveis ou mesmo adversas, como esta em que nos encontramos.

Querendo ou não, como seres inacabados, temos que conviver com a oscilação que nos tem acompanhado, ao longo da história, entre sensibilidade e insensibilidade: entre cegueira e lucidez; entre apurada audição e surdez; entre sabores e dissabores; entre a pronúncia de nossa palavra e sucumbir ao silenciamento.

Aqui me sinto encorajado a dizer algo sobre várias formas de cegueira e de insensibilidade frente à nossa realidade.

Mesmo tratando-se de cegueira interior, a trajetória histórica da humanidade, seja no âmbito pessoal, seja no âmbito coletivo, se acha marcada, de fatos e acontecimentos trágicos, em diferentes tempos e lugares. No contexto atual, em escala internacional ou local, sentimo-nos rodeados de sinais espantosos, a este respeito: o discernimento ou a lucidez não parece ser uma de nossas características dominantes, na atualidade, para dizer o mínimo… isto afeta gravemente nosso processo de humanização, sob vários aspectos. As redes sociais, saudadas com entusiasmo, como uma das maravilhas tecnológicas do nosso tempo, ao tempo em que nos embriagam pelas suas potencialidades, também nos anestesiam, afetando em uma imensa massa de usuários, sua criticidade. Só para mencionarmos 2 casos emblemáticos, pensemos nos profundos estragos recentes causados pelo uso acrítico das redes sociais, nos episódios eleitorais dos Estados Unidos e do Brasil, antes, durante e depois do processo eleitoral. Entendemos que tais efeitos se devem mais à extrema vulnerabilidade da massa de usuários, do que aos seus manipuladores. Com efeito, as famigeradas “Fake News” produzem consequência quase nula na vida de cidadãs e cidadãos que não cessem de exercitar seu senso crítico.

O processo de humanização, se, quando e onde posto em prática, implica necessariamente, o exercício contínuo da crítica e da autocrítica. Estas se manifestam como condição essencial ao processo de humanização, inclusive na capacidade dos sujeitos cognoscentes lerem, interpretarem e interferirem adequadamente em sua realidade. A realidade social, é, como se sabe, profundamente complexa e extensa. Em vão, se busca compreendê-la, sem dotar-se continuamente de lentes adequadas a sua leitura e interpretação. A realidade social, se acha em movimento incessante, de tal modo que um acompanhamento eficaz de seus desdobramentos também requer que os sujeitos cognoscentes também se ponham em movimento. Isto não se dá espontaneamente, mas é obra de um longo e permanente processo formativo, sem o qual todas as condições se dão para monstruosos equívocos de repercussão gravíssima. Uma destas consequências aponta para o alto grau de reducionismo a que ficam sujeitos seus pretensos analistas, na medida em que, não tomando em conta inúmeras variáveis deste processo, acabam contentando-se com o que parece acontecer em determinado momento, e logo apressando-se em assumir como verdade, sem se atentar para tantos outros ângulos componentes desta mesma realidade. Tais pessoas se comportam como quem conclui, de forma apressada, o desfecho de um filme, baseando-se apenas em uma única cena de uma longa série… gravíssimo reducionismo se comete, aí, ao pretender-se enquadrar a realidade, que é um filme, que é dinâmica, apenas numa foto.

E, por força do hábito, tal proceder vai se estendendo às mais distintas situações do dia-a-dia, sendo reforçado pelos mecanismos de inércia, isto é, pela ausência de critérios consistentes. Basta conferir as redes sociais que também veiculam mensagens de pessoas da mesma corrente ou da parte de amigos ou parentes que se inter-alimentam, permanentemente. É assim que se vão formando as tais “convicções”, nos mais diferentes campos da vida: da política ao futebol; da religião às condições de trabalho, etc., etc.  Tais são as convicções, que viram dogmas: nenhuma chance para dúvidas. Aí já não tem lugar o saudável dito proverbial, segundo qual “De omnius dubtandum” (“deve-se duvidar de tudo”).

João Pessoa, 28 de novembro de 2018

Alder Júlio Ferreira Calado, sociólogo e educador popular.

Seções: Cultura, Educação.

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