Entre a apatia e a baderna

Muito se fala sobre uma suposta apatia do povo brasileiro, que não teria o hábito de ir às ruas para protestar contra os absurdos vistos diariamente país afora, sejam eles casos de corrupção ou de desrespeito aos direitos básicos da população, como falta de acesso à saúde, educação e até mesmo à água e alimentos – sim, no “país de todos”, que se gaba por já ter emprestado dinheiro ao FMI, muitos ainda passam fome.

Curiosamente, se muitas manifestações públicas sequer são pautadas pela mídia, tantas outras, ao se tornarem tema de reportagens, são majoritariamente tratadas como um transtorno social. Via de regra, matérias sobre protestos nas ruas se preocupam em destacar o caos que causam ao trânsito, bem como os embates entre manifestantes e policiais, que costumam usar de força desproporcional para intimidá-los.

Dois casos recentes são significativos a esse respeito. Trata-se das manifestações contrárias à desocupação do Museu do Índio, no entorno do Maracanã, e do processo de licitação do Complexo Esportivo do estádio, que ocorreram, respectivamente, em março e abril, no Rio de Janeiro. Em ambas as situações, os principais portais online ressaltaram em seus lides os problemas causados ao trânsito, a briga entre estudantes e PMs e até mesmo o atraso causado à abertura dos envelopes da concorrência.

Como quase sempre acontece nessas reportagens, as motivações para os protestos ficam em segundo plano, são abordadas superficialmente ou nem ao menos são mencionadas, o que, fatalmente, contribui para o empobrecimento de debates que poderiam se dar em torno de questões importantes para a sociedade.

Nesses dois casos em específico, está-se falando da privatização de um espaço público, que ficará nas mãos de um concessionário por mais de 30 anos. Ainda assim, os veículos de comunicação parecem não se preocupar em informar aos leitores as consequências associadas a essa mudança para os frequentadores da região do Maracanã e à população em geral.

Como de costume, a imagem que fica é a de que os manifestantes são desocupados, baderneiros que não tem mais o que fazer além de atrapalhar os planos dos “homens de bem” que trabalham em prol do desenvolvimento econômico – diferentemente do que ocorre quando o protesto conta com o apoio das autoridades.

As passeatas contra a “tunga” dos royalties, realizadas no Rio de Janeiro nos últimos dois anos, levaram ao centro da cidade mais de cem mil pessoas e fecharam uma das principais vias da região, a Avenida Rio Branco. Apesar disso, as reportagens não falaram em “confusão” e “nó no trânsito” e não registraram casos de policiais jogando spray de pimenta nos manifestantes.

Os grandes grupos de comunicação são os primeiros a defender a democracia e um de seus mais valorosos princípios, a liberdade de expressão. Contudo, o modo como se dá sua cobertura sobre manifestações públicas em nada contribui para o devido respeito que as autoridades devem ter por elas, e tampouco estimula os “apáticos” cidadãos a tomarem parte de tais iniciativas.

  • Muito bem colocada a sua opinião, Montenegro.
    É bom ver as pessoas usarem o protesto online apenas como suporte e
    logo partir para o protesto ao vivo, porque o povo, quando sofre,
    sofre ao vivo. Baderneiros sempre existiram, até durante a ditadura militar. Policiais, soldados descontrolados, também. O importante é
    o recado que a maioria está mandando: “Não dá mais para aguentar tudo
    o que vem de cima, a não ser a chuva.”

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