Em busca do eu-criança: mais um passo

fotoHoje prossegui com a leitura do livro de Nathaniel Branden, Auto-estima, como aprender a gostar de si mesmo. A partir do momento em que comecei a ler este livro, comecei a sentir que havia alguém à minha espera. Não era a criança que fui, tal como a imagino, ou tal como ela está na minha lembrança. Era eu mesmo, criança.

Não sei se isto pode ficar claro para quem possa estar lendo isto. Apenas trato de ser fiel à minha experiência. Não estou tentando validar as opiniões de alguém, dar razão a alguém, mas apenas testemunhar esta viagem em direção à totalidade do meu ser, a través do re-encontro com a criança que fui.

Hoje à tarde, experimentei uma sensação que tive na minha adolescência e juventude, talvez nos anos 1965, 1967, 1970, não sei bem. Foram tempos de muita estimulação. O mundo em volta movimentado por grandes movimentos sociais. As lutas dos operários e dos estudantes na cidade argentina em que nasci e morava, Mendoza.

Também em Córdoba, Rosario. O Movimiento de Sacerdotes para el Tercer Mundo, que eu admirava, juntando cristianismo e revolução. Revolução era a palavra de ordem. Os Beatles, os hippies, o guru Maharaj Ji. Maharishi Mahesh Yogi. E por aí vai. Mas agora o que estou tentando transmitir, é a sensação que tive agora há pouco.

Tive o sentimento de que eu não precisava validar as razões de ninguém. Esta frase me veio várias vezes. Eu não preciso validar as razões de ninguém. Senti uma sensação de um prazer e uma quietude estupendas. Essa sensação era daquele tempo impreciso que estou tentando descrever em poucas linhas.

Obviamente, eu estava imerso nesse turbilhão, como adolescente e jovem que tentava encontrar o seu lugar no mundo. Eu não preciso validar as razões de ninguém. Apenas ser eu mesmo. Apenas ser. Agora que escrevo estas coisas, percebo que passei muitos anos da minha vida fora de mim mesmo, tentando agradar, tentando ser aceito.

Isto criou uma dissociação. Era eu, e o eu que eu precisava representar. Acredito que isto ocorra com muitas pessoas. É um fenômeno social. Para isto serve a sociologia, para a gente saber que o que nos ocorre, ocorre a muitas outras pessoas pelo mundo afora. E a Terapia Comunitária Integrativa também convalida este fenômeno.

Agora estou aqui na frente desta página, tentando escrever coisas que vivo hoje, como diz a canção de Voz Dei. Coisas que vivo hoje. Ir ao encontro da criança que fui, recuperar o meu eu-criança. Os exercícios do livro de Nathaniel Branden, Auto-estima, como aprender a gostar de si mesmo, que venho fazendo desde já faz três jornadas, são de uma simplicidade extraordinária.

Hoje de manhã, quando percebi que tinha um momento para mim, um momento para voltar a tentar encontrar a criança que fui, me alegrei. Sim, senti que era um momento para mim. Foram alguns minutos, apenas. Mas contou muito ter me dedicado esses minutos a voltar a minha atenção e os meus esforços a tentar recuperar o contato com meu eu-criança.

O foco do autor é a recuperação da auto-estima, como um conceito positivo de si mesmo, uma confiança nas próprias capacidades, uma possibilidade da pessoa vir a se aceitar tal como é, o que não significa que ela goste de todos os aspectos da sua personalidade. Você pode não gostar de algumas coisas suas, mas ao invés de fazer de conta que essas coisas não estão ali, você olha para elas, as vê. Sabe que elas fazem parte da sua personalidade.

Você pode tentar mudar essas coisas, a partir de aceitar que elas estão ali. O autor vai nos conduzindo a uma compreensão do ser que somos, mediante um diálogo sincero conosco mesmos. A gente aprende a se ver no contexto, a compreender ao invés de condenar. Compreender não é desculpar, é perceber que uma ação foi realizada ou praticada porque foi considerada a melhor opção em um dado momento, mesmo que hoje não mais a vejamos assim.

Na medida em que fui me introduzindo na leitura deste livro simples e profundo, fui percebendo, e continuo a perceber, que existe um lugar maior dentro de mim mesmo: é o meu próprio ser, é o ser que sou. Eu não preciso viver tentando agradar os demais, nem tampouco tentando desagradar ou confrontar.

Posso viver desde mim mesmo, sem tanto condicionamento, ou sem condicionamento algum. Isto é o que penso que possa ser viver em liberdade, penso que isto pode ser a libertação. Partilho estas anotações na expectativa de que possa surgir um diálogo com quem leia estas linhas. Isto poderá nos fazer crescer mais, e fortalecer ainda mais a rede ou as redes que nos contém e nos sustentam.

Não se trata de validar as razões de ninguém. Se trata apenas (o que já é muito) de respirarmos juntos, de nos permitirmos ser o ser que somos. Nada mais nem nada menos. Já pensei que eu fosse muitas coisas, coisas que fazia ou faço. Hoje me parece que o eixo da minha identidade não passa tanto pelas coisas que faço, mas, sim, pelos espaços que vou reconhecendo da minha própria vida, na relação com tudo em volta.

Esta tarde de novembro em que escrevo estas coisas, vem uma sensação antiga e nova. Essa sensação de juventude atemporal, esse ser que mora dentro de cada um de nós, que não tem tempo, não um tempo cronológico. Um ser que confia, que sabe, que crê, que espera, que tem esperança e é esperança. Mas que é jogo também, felicidade e divertimento, brincadeira.

(04-08-2014)

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