Educação e atualidade brasileira

A contribuição da Educação Popular aos processos de mudança, na atualidade brasileira

O tema proposto para este I Seminário é, como se percebe, consideravelmente vasto. E não menos fecundo, na medida em que permite um amplo leque de possibilidades de abordagem, como, alas, convém à natureza mesma do evento – campo de semeadura.

Propicia tratar, seja no campo da educação, seja no campo da realidade atual da sociedade brasileira, aspectos múltiplos: desde enfoques teórico-conceituais relativos à educação às experiências educacionais em curso, no atual cenário brasileiro; desde as políticas de educação em vigor às práticas pedagógicas do cotidiano escolar ou nos espaços não-formais de Educação, seja no âmbito dos diferentes sistemas de ensino, nas distintas esferas de poder, nos vários níveis e modalidades, da Educação Infantil à EJA e à EducaçãoEspecial, e assim por diante.

A despeito dessa vasta gama de possibilidades de abordagem que o tema enseja, cumpre, porém, observar um traço comum a perpassar todas essas formas de abordagem. Referimo-nos à perspectiva, à ótica freireana, como traço de unidade a costurar os mais distintos recortes.

É, por conseguinte, a partir desse “mirante” epistemológico (Luxemburgo, Lukács, Löwy) que nos dispomos aqui a a ensaiar uma reflexão acerca da contribuição da Educação Popular aos processos de mudança da realidade brasileira.

E já me apresso em tornar explícito o que aqui vem designado por Educação Popular.

Em que pese admitirmos que, sob algum aspecto, dada sua carga coletiva, a Educação está ligada a uma dimensão popular – do que, neste caso, resulta algo redundante falar-se em Educação Popular -, insisto, porém, no emprego dessa mesma expressão, em razão semelhante ao que se passa em relação à expressão Movimentos Sociais Populares. Assim como nem todo Movimento Social é necessariamente popular, na acepção classista de seus protagonistas, de modo similar entendo que Educação Popular tem seu embasamento identitário firmado em características e condições tais como:

– quanto ao caráter teleológico de sua ação – A Educação Popular persegue um modelo alternativo de sociedade, inspirado em valores tais como a justiça social, a solidariedade, a partilha, o caráter emancipatório de seus protagonistas, entre outros aspectos. Modelo que se contrapõe frontalmente ao modelo capitalista de sociabilidade ou de qualquer organização societal fundada na dominação de classe, em suas mais variadas manifestações;

– quanto aos protagonistas – diferentemente de um propósito que tem por alvo ou destinatário segmentos da camada popular, a Educação Popular só se realiza lá onde segmentos das classes populares se fazem protagonistas decisivos, acompanhando e debatendo, desde as bases, acerca de todos os passos do processo: da concepção aos resultados, do planejamento à avaliação;

– quanto à gestão de suas relações – a Educação Popular cultiva as práticas de autogestão, fecunda experiência cujos protagonistas tratam de organizar por meio dos conselhos (ou que outro nome tenham), cujos membros escolhem, em rodízio, seus animadores e animadoras, sem abrir mão, porém, do princípio da revocabilidade: em casos graves, quem é eleito também é destituído.

– quanto ao caráter da formação – a Educação Popular, tomada na acepção que aqui sustento, aposta no incessante cultivo da formação omnilateral de seus protagonistas, no cotidiano das relações humanas e sociais. Trata-se, pois, de uma formação continuada cujo caráter de omnilateralidade bem se aproxima do que Marx contempla em seus Manuscritos Econômico-Filosóficos e do que a Pedagogia Socialista, tão bem representada pela contribuição gramsciana (entre outros teóricos), propõe.

Como se percebe pelo que acima vem esboçado, mais do que mera categoria acadêmica – que também é -, a Educação Popular é por nós tomada como uma densa e experiência de incessante humanização dos Humanos, em suas relações subjetivas, entre si, com a Mãe-Natureza e com o Sagrado. A Educação Popular é aqui tratada

– como uma visão alternativa de mundo, de ser humano e de sociedade;

– como um caminho alternativo de contínua humanização;

– como uma postura, uma atitude, um modo alternativo de se portar, desde os gestos moleculares às atitudes tomadas nos espaços das macro-relações. Aposta-se, aqui, em que, assim como o todo contém a parte e esta, por sua vez, comporta elementos moleculares do todo, de modo semelhante, os gestos minúsculos, pouco perceptíveis ao olhar convencional, carregam sementes ou elementos dos marcro-espaços, de tal modo que quem aspira a uma sociedade alternativa, sente-se no dever de emitir sinais convincentes dessa Utopia nos mais elementares gestos das relações do cotidiano, ou em vão declara lutar por uma nova sociedade.

Ao tentarmos explicitar os sentidos aqui trabalhados de Educação Popular, observamos, seguidas vezes, uma íntima associação entre Educação Popular e alternatividade. Mas, alternatividade em relação a quê?

Alternatividade em relação ao modo dominante de se portar, de sentir, de pensar, de querer… Na intricada rede de relações que tecemos em nosso dia-a-dia, seja ao interno de nós próprios, na família, na escola, no trabalho, nos espaços políticos, culturais, religiosos, em breve: na “Oikía” e na “Polis”, sabemos prevalecerem ampla e profundamente os valores da sociedade dominante. Como já alertava Marx, em meados do século XIX, em toda sociedade de classes – e a nossa não é diferente… -, as idéias dominantes são as idéias da classe dominante. E isso também vale para nós, educadores e educadoras, que nos dizemos contrários aos interesses das forças dominantes e nos declaramos comprometidos com a construção de um mundo alternativo. E, com espantosa freqüência, estamos sendo flagrados em atitudes em nada condizentes com o universo de valores de que pretendemos ser portadores. Não raro, como as “Safiras” das novelas, nos flagramos em situações explícitas de esquizofrenia individual e coletiva: a sentir uma coisa, a pensar uma segunda, a querer uma terceira e a fazer uma quarta…

Dizemos, por exemplo, defender a escola pública, na qual pro vezes trabalhamos, mas na rede particular é que se acham matriculados nossos filhos. Denunciamos, a justo título, o sucateamento dos serviços públicos essenciais como o de saúde, mas em vez de somarmos forças, inclusive por meio das instâncias sindicais, em defesa do SUS, sucumbimos ao atalho dos planos de saúde, fortalecendo objetivamente a privatização da saúde. Boas intenções e justificativas não nos faltam, mas objetivamente…

Indignados, associamo-nos, com razão, ao coro contra os “políticos ladrões e corruptos”, enquanto nem sempre nos indignamos, como deveríamos, em relação às situações de corrupção, anonimamente enraizadas no cotidiano de nossas relações, assumindo múltiplas formas:

– ora sonegando informações à família sobre nossos reais vencimentos;

– ora fazendo vistas grossas às situações trabalhistas domésticas;

– outras vezes, sendo adeptos da famigerada “lei do Gerson”, no dia-a-dia do trânsito, das filas de bancos, etc.

Os exemplos podem ser multiplicados à saciedade. O que pretendemos mesmo ressaltar é a freqüência com que podemos estar sucumbindo à grade de valores e às atitudes próprias do sistema que dizemos combater. E aqui não vale justificarmos com o pretexto de que se trata de “coisas miúdas”, pelas razões já assinaladas: “Quem faz um cesto, faz uma centena…”

Lembramos aqui o sempre reverenciado, a justo título, Amílcar Cabral: “Não basta que seja pura e justa a nossa causa, é necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós.”

O propósito central desta reflexão é examinar de que modo a Educação Popular pode contribuir com os processos de mudança, na atual realidade brasileira. Pelo que já esboçamos até aqui, a Educação Popular, na acepção aqui trabalhada, apresenta-se como um espaço multi-referencial de possibilidades efetivas, algumas já em curso.

(25-05-2006)