É um dia triste


Noêmia é minha mãe. Não a que me pariu, mas uma dessas que a gente têm pela vida. Tenho três, devo ter mais que não sei (porque mãe é assim, ama sem dizer). Noêmia é uma delas.

Mulher tipicamente portuguesa no que diz respeito à sua força como mulher, como mãe, como dona de seu destino e, ao mesmo tempo, esposa amável. Sorte a sua se encontrar uma Noêmia por aí. Não é todo século que se consegue.

A fraqueza inerente ao ser humano é, com ela, enfrentada na mesma moeda: a (também) inerente persistência humana em viver e ser feliz. Reside aí o desprendimento maior do ser humano: desejar ao próximo o que deseja a si mesmo – mas se não for possível a si mesmo, que seja pela humanidade, pelos amigos, pelos semelhantes que estão em volta. Não só se faz isso pela humanidade sociológica das superestruturas, mas pelo que há de humano no rosto daqueles que anseiam por amor e precisam de conforto, à sua volta.

Conforto, aqui, não é meramente “consolação”. É também “o que fortalece, revigora” ou ainda “experiência agradável; sensação de prazer, de plenitude, de bem-estar espiritual” (Houaiss). No Hospital Naval Marcílio Dias, sofrendo de um problema no coração decorrente de uma complicação ainda quando criança, Noêmia passeava pelos leitos e confortava as pessoas, segundo me relatam. E ressurgia vida em cada palavra.

Seus últimos dias não acompanhei, por estar na era da velocidade e sob
influência do produtivismo exacerbado do século XXI – totalmente improdutivo para o ser humano, que pouco a pouco se destrói em sua busca insana por não se sabe bem o quê. Mas não é difícil imaginar Noêmia: a generosidade é concreta quando a força da ação humana se une à força das idéias generosas. Não sei se revolução é a ruptura de um modelo obsoleto por outro que contenha uma nova e vigorosa ética humana. Por vezes, me parece revolucionário tentar reunir a ação, o pensamento e o sentimento, mantendo o ritmo coerente e homeopaticamente.

É certo que não sabemos lidar com a morte. Terá Noêmia cumprido sua missão e, portanto, pôde nos deixar? Estará em outra dimensão que ignoramos? Se sim, em quais condições? Para mim, ainda é Noêmia. O cotidiano trata de aliviar a saudade que o próprio cotidiano (contado em alguns domingos, na verdade) criou. Mas fica alguma coisa de grande, de sublime, que temos dificuldade de explicar.

Está presente Noêmia, pelo que deixou de simbólico – e todas as sociedades sabem, implícita ou explicitamente, o poder dos símbolos, dos exemplos em vida que permanecem em cada um dos que conviveram, neste caso, com Noêmia.

A mãe de Noêmia não conseguirá achar teorias para explicar o que está acontecendo: sua filha a deixa de forma inesperada, pois não se espera nada parecido, nunca. E todos os doutores e mestres se renderão ao estudo de caso que não pode ser explicado.

Para sua mãe, para seus dois filhos e para seu marido, só resta mesmo acreditar que Deus sabe o que faz, pegar o legado simbólico deixado por Noêmia e levantar a cabeça. Eu é que, honestamente, não sei o que fazer quando o intraduzível acontece e imobiliza.

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Maria, Maria…

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