E se fosse com você?

LatuffE se fosse com você? Se fosse na sua família? Reagiria com a mesma pena desses bandidos?

E se você passasse a sua vida inteira levando esculacho de PM e vivendo em meio ao fogo cruzado em uma favela?

E se você não pudesse ir à escola porque falta muito professor e você não conseguiu se alimentar direito e teve problemas com isso durante a fase de crescimento?

E se sua comunidade já estivesse na décima segunda chacina, e até agora ninguém foi julgado?

E se, só por ser negro e pobre, você tivesse três vezes mais chances de morrer de uma causa violenta?

E se durante toda a sua vida você se esforçasse na escola, mesmo em meio a toda a precariedade, mas tivesse que escolher um curso que não quer fazer na universidade porque todas as vagas dos brancos já foram reservadas pelos cursinhos de 2 mil reais ao mês?

E se seu pai tivesse morrido entre os 15 e 24 anos por causas violentas?

E se sua mãe tivesse morrido por conta de um aborto inseguro?

E se três primos e quatro amigos seus tivessem sido executados por policiais que queriam se vingar da morte de um colega durante uma operação?

E se, depois de tudo isso, viesse um branquinho da zona rica da cidade e te dissesse que você tem toda a liberdade do mundo para escolher teu caminho, o que você diria para ele?

E se, mesmo com todo o abandono, te dissessem que a única solução é pôr todo mundo da sua comunidade — aquela mesma que tem apenas três escolas para 400 mil pessoas — na cadeia, para que todos apodreçam no inferno?

Você? Você fica calmo. E continua lutando por justiça e por mais educação, mais saúde, mais segurança. Mais dignidade humana, enfim. Apesar de toda a maldade que promoveram contra pessoas como você, desviando os recursos públicos do seu bairro para projetos faraônicos, projetos estes lucrativos apenas para os que já têm grana — apesar disso, você respira fundo e segue buscando igualdade.

É impressionante que você consiga. Não sei se eu conseguiria.

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Qual a novidade no crime da Lagoa Rodrigo de Freitas? Infelizmente nenhuma

1. Os adolescentes infratores são as maiores vítimas de homicídios no Brasil, de longe, não há qualquer dúvida sobre isso. Vítimas igualmente da negligência social. Quanta cobertura temos sobre isso? Quase zero.

2. Já para as mortes violentas nas áreas ricas, tanto a polícia quanto a mídia fazem um esforço homérico para relatar os acontecimentos. Detalha-se tudo. Faz-se o acompanhamento minucioso. Em muitos casos, a mídia consegue inclusive, ao forçar o microfone na cara das autoridades, rápida punição.

3. Acreditamos que todos devem estar seguros, seja qual for o lugar. Certo? No entanto, alguém tem dúvidas sobre a seletividade da ação midiática e do poder público? Com a palavra, o secretário de Segurança do Rio: “Um lugar como a Lagoa Rodrigo de Freitas não pode de maneira nenhuma ser alvo desse tipo de atitude. É um lugar onde nós frequentamos, onde nós gostamos de ir, de frequentar. Não podemos admitir que ações dessa natureza aconteça” (leia aqui)

4. Sabe quem frequenta a Lagoa Rodrigo de Freitas? “Nós.” Entendeu agora?

5. Não devemos, em hipótese alguma, relativizar as mortes. E é sobre isso que estamos falando: parem de relativizar as mortes! Vamos falar sobre o genocídio da juventude negra das periferias, porque isso diz respeito também a quem frequenta, metaforicamente, a Lagoa Rodrigo de Freitas.

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Considerações gerais (e antigas) sobre a violência no Rio

1. Não estamos pedindo tratamento diferenciado para ninguém. A questão é, justamente, não individualizar. Imagina o maluco que diz que na comunidade 100% das pessoas são ruins, gente má. O diabo em pessoa, cada um deles. Como exemplo, eu usaria os chefes do tráfico, e dessa forma afirmaria que todos são coniventes (não são poucos os que dizem isso). Ora, o exemplo é péssimo.

É o que fazem agora: os piores crimes de adolescentes, os mais violentos, são tomados como a prática recorrente. Como fazem isso? Jogando a câmera em cima e repetindo exaustivamente. Só que esse crime é minoria, uma minoria irrisória, com mil câmeras filmando. Muitos são os chamados crimes de menor potencial ofensivo. E a esmagadora maioria são os crimes de responsabilidade administrativa: a falta de assistência social que os locais mais pobres possuem, historicamente e atualmente. Onde estão as manchetes? Cadê os recursos? Poucos reclamam. Não mobiliza. Parte das pessoas, sem qualquer compromisso político com a realidade e com o povo, ainda sugerem que a culpa de um hospital estadual ou das creches (que são municipais) não funcionarem direito é do governo federal. Nessa representação deturpada, a arma é a única forma, na nossa sociedade, em que a “comunidade” se “expressa”. O que não tem nada a ver com quem mora “lá” ou com a realidade.

2. Veja o caso do nosso governador. Ele se comporta como se fosse secretário de Segurança: ele diz que a polícia tem feito a parte dela. O próprio secretário de Segurança dele, numa prática de governo esquizofrênica, demite o comandante da região, apesar de o governador ter dito que fez a parte dele. Ele não se comporta como governador: não diz, por exemplo, que vai construir mais centros de assistência social, quadras de esporte (destacadamente um ressocializador universal), mais escolas e um melhor salário pros professores, mais postos de saúde e hospitais melhor equipados. Ele trata das crianças e adolescentes da periferia como caso de polícia. Aliás, existe uma nota de imprensa enviada para nós, jornalistas, pela Secretaria de Assistência Social da Prefeitura categoricamente tratando esses adolescentes como caso de polícia, no caso dos incidentes da Avenida Rio Branco. E se fosse um menor infrator da zona sul? Permanece sempre e sempre a questão.

3. Acho o debate de morar/não morar na favela um falso debate. Claro que tem gente que não tem a menor ideia do que é uma favela (eu tenho colegas de jornalismo que não cruzaram o túnel enquanto na universidade). E é claro que quem vive a realidade de uma favela tem uma experiência totalmente diferente e intensa. Mas eu, por exemplo, dou aula há dez anos em favela (e cada uma é diferente) e exercito, portanto, a escuta. E essa escuta é o que tá faltando, sobretudo para os formuladores de políticas públicas. Vide o caso do “muro” da Maré; acho que vale ver:

4. Este texto está em meio a muita coisa: está em meio a facadas na Lagoa e em meio ao genocídio da população negra e pobre das periferias (acesse aqui). Está no meio do extermínio do pobre.

5. O mecanismo de sedução do jovem para o tráfico já foi tema de diversas falas durante aulas que dei. Em suma, existe (entre outras muitas coisas) uma mídia que te diz que ser rico é o que há, e que se você não consumir você morre. Ele olha pra mãe e pro pai, que ganham, quando muito, alguns salários mínimos. Quando tem pai e mãe. E olha para o tráfico, que paga 300 reais por mês no cargo pior remunerado. Já dá, na primeira semana, pra comprar o tênis Nike. O exemplo dos pais, por melhor que seja, não tem o mesmo valor que a própria mídia passa diariamente: pra comprar mais e ser uma pessoa superior, tem que ter dinheiro. Esse jovem tenta. Olha pro lado e não vê a quadra de esportes. Pro outro lado a escola foi fechada por causa do tiroteio. Quantos juízes saem daí? Quantos médicos?

6. A “prova” de que a honestidade compensa está apenas na mídia, que adora esses casos. Pega, diria um editor hipotético, o cara mais fodido que você encontrar e que tenha virado engenheiro, médico. Vamos levá-lo para a televisão para provar que a meritocracia é o que há de mais moderno. (sobre meritocracia, meu amigo Renato Kress pode falar melhor que eu).

7. Não entendo a relação do PT nessa história. A saúde é municipal, estadual e federal, com mais de 80% das instalações públicas sendo das duas primeiras. A verba é alta, repassada devidamente, mesmo com os recentes cortes. A segurança é estadual. A educação básica é municipal e a fundamental é estadual. Então teria que citar, se formos falar de partidos, todos os que passaram pelos governos. No Rio, e em especial na área de segurança, eu começaria pelo PMDB, que governo o Estado desde os anos 1990…

8. Não tenho a menor dúvida de que esse jovem infrator, que assassinou o médico, deve ser punido e ressocializado. Infelizmente o desejo da sociedade, que é realizado e realizável, é enviá-lo diretamente para o “inferno”, seja lá o que isso for nos nossos tempos.

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Marcia Amil, ex-esposa do médico assassinado na Lagoa:

“Nem sei se foram menores, mas sei que Jaime foi vítima de vítimas, que são vítimas de vítimas. Enquanto nosso país não priorizar saúde, educação e seguranças, vão ter cada vez mais médicos sendo mortos no cartão postal do país. E não só médicos, afinal, morrem cidadãos todos os dias em toda a cidade, não só na Zona Sul.” (matéria na íntegra aqui)

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