É pura inveja branca

Inveja branca

No início dos anos 90, durante o governo Collor, ocorreu o chamado “confisco”. 80% de todos os depósitos de ‘overnight’, de contas correntes ou de cadernetas de poupança que excedessem a 50 mil cruzados novos foram congelados por 18 meses, recebendo durante esse período uma rentabilidade equivalente à taxa de inflação mais 6% ao ano, em suma.

Isso quebrou boa parte das pessoas, incluindo algumas dezenas de pessoas da classe média que tinham algum trocado. Anos de trabalho perdidos.

Pouco mais de 20 anos depois, um sujeito que possui cerca de 250 mil reais poderia comprar um bom apartamento de dois quartos num bairro nobre, como a Tijuca. Daí pra baixo a regra é parecida — com 90 mil, um dois quartos com vaga em boa parte da zona norte e do subúrbio.

Aí veio a especulação imobiliária. A desregulamentação proposital do mercado quebrou os EUA, provocando um tsunami no mundo. No Brasil, o mesmo processo duplicou e, em alguns casos, triplicou o preço dos apartamentos em um espaço de dois anos.

Quem tinha tem ainda mais. Quem não tinha provavelmente nunca vai ter, a não ser que decida diminuir severamente seu padrão anterior — isso se chama ‘empobrecimento’ de boa parte da população, e não ‘humildade’. O ‘gap’ da desigualdade só aumenta, e em toda a América Latina e Caribe, aliviado apenas pelas políticas de transferência de rendas dirigidas ao andar debaixo e que, quase nunca, mexem na estrutura jurídica e política da sociedade.

Qual a diferença entre os dois processos, no bolso do cidadão médio?

O primeiro foi feito de forma atabalhoada. Deu no que deu. Já o segundo possui “segurança jurídica” — foi previamente pensado e, como não poderia deixar de ser, devidamente apoiado por gente como Eike Batista.

A direita de hoje é muito mais sofisticada do que a dos anos 1990 — e é isso o que os conservadores mais odeiam nos socialdemocratas. Pura inveja branca.

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