É preciso educar Sérgio Cabral

“Sem resolvermos a questão da segurança, reconquistando territórios e reduzindo os índices de criminalidade a níveis aceitáveis, não é possível melhorarmos a educação do nosso povo e obtermos desenvolvimento econômico, mediante a atração de investimentos e a criação de empregos para a população. A paz é sinônimo de liberdade e desenvolvimento. Sem ela, tudo o mais perde o sentido.” – Sérgio Cabral Filho, em artigo para a Folha de S. Paulo, 28 de setembro de 2010  (disponível aqui)

O artigo do Governador Sérgio Cabral intitulado ‘A paz traz liberdade e desenvolvimento’, publicado pela Folha de S.Paulo, precisa ser comentado. Em todo o texto, escrito a convite do próprio jornal (estendido apenas ao candidato do PV, Fernando Gabeira), Cabral fala de duas questões que considera prioritárias no mandato que passou e no que provavelmente virá: segurança e educação.

É muito claro para qualquer morador do Rio de Janeiro que a questão da segurança de fato foi uma prioridade dos últimos quatro anos do governo estadual. A campanha midiática sobre as UPP’s não poderia ser ignorada por ninguém, tamanho foi o apoio dos setores ricos da sociedade – e seus jornais – ao novo modelo de combate ao crime. No entanto, é preciso sempre duvidar do que a grande mídia divulga, e nesse caso, pensando por outro lado a questão da violência e a sua atual forma de combate, é possível vislumbrar uma certa inversão de valores e condutas.

As Unidades de Polícia Pacificadora possuem em sua essência uma clara contradição – a necessidade da arma para manter a ordem (e não a paz, como se costuma dizer). A paz é justamente uma situação que não requer a presença de armas, que não requer a dominação de uns por outros, onde não há brecha para o terror. Não preciso perguntar ao Policial Pacificador se ele tem medo de uma invasão de traficantes e nem à população de favelas ocupadas se ela tem medo do policial. Afinal de contas, o que representa a polícia para essa população? Aliás, o que representa o Estado para essa população? São a mesma coisa, visto que é a violência a única manifestação da presença estatal em suas vidas.

As UPP’s estão aí para mudar esse paradigma e ‘trazer a República para a favela’, segundo o próprio Secretário de Segurança Pública, Mariano Beltrame – a quem o presidente da Firjan, Eduardo Eugênio Gouvêa, chamou de ‘um menino de Deus’. Que lindo seria se fosse verdade. A atuação do Estado na retomada das áreas onde se desenvolveu o tráfico (é diferente dizer que elas estão ‘tomadas pelo tráfico’, como sugere a mídia e os governantes) é obviamente uma iniciativa de remoção da pobreza. Basta, para comprová-lo, constatar que as favelas que já receberam as UPP’s estão em áreas ricas ou estratégicas do território estadual (visando os espetáculos da Copa e das Olimpíadas). Basta olhar para o lado na Linha Vermelha – trajeto do aeroporto internacional para a zona sul – e ver ‘muros de isolamento acústico’, ao invés de pobreza. Ou então escutar os moradores de favelas ‘não-pacificadas’, que reclamam que a redução do número de traficantes nas zonas nobres da cidade e arredores aumenta o número deles nas zonas pobres – migração já admitida inclusive pelo próprio governo. É também uma iniciativa de expansão do capital, bastando, para comprová-lo, avaliar o interesse direto das suas instâncias maiores nas UPP’s: Coca-Cola, Xerox, Rede Globo, Fundação Roberto Marinho, Light, Banco Mundial – todos tiveram representação na cerimônia de lançamento da UPP Social (nome e roupa nova para a mesma política), em agosto.

Beltrame, o 'Menino de Deus', em cerimônia de lançamento da UPP Social

Beltrame, o 'Menino de Deus', em cerimônia de lançamento da UPP Social

Mas o pior de tudo é o meio como se faz essa remoção: através da violência. Através da violência contra o pobre. Cabe aqui perguntar: quem inaugura a violência? O pobre, historicamente oprimido, privado de direitos básicos, desenvolvido no berço da discriminação social, política e econômica, convivendo com toda a sorte de atrocidades? Ou o Estado, historicamente ausente por opção político-econômica, discriminatório por determinação social e violento por necessitar de sua ordem burguesa? É aceitável que se puna o pobre por sua própria miséria? Aliás, essa miséria é só dele, como levianamente  sugeriu o Arnaldo Jabor em recente artigo publicado no Estadão e republicado na Veja – demonstrando aliás a essência de sua diferença para um verdadeiro indivíduo de esquerda? Ou será que a miséria do meu semelhante, numa transferência catártica simples de se fazer, é também minha? Por último, quem é o verdadeiro traficante, o garoto da favela que é morto pela polícia ou os barões da droga, vizinhos de porta do Governador? O fato é que, independentemente da resposta, os ‘meninos de Deus’, armados com seus caveirões da paz, invadem as casas, revistam suspeitos, interrogam cidadãos com seus métodos religiosos, matam quem tiverem que matar – paladinos da justiça que são – e tomam de assalto o território alheio. Em resumo, violentam a população pobre das favelas.

Agora, apesar de toda a violência que já praticamos contra as populações pobres, elegemos o maior símbolo dela (de nós para eles e, a reação óbvia, deles para nós) como o réu último dessa conjuntura que se impõe na nossa realidade. Invade, mata, e bota na conta do Papa, é faca na caveira – e aplausos da classe média! A meu ver há aí, sim, uma grande inversão.

Não bastasse toda essa conjuntura desigual por execelência, o Governador vem a público dizer que sem controlar a violência (da maneira que ele entende que deve ser controlada) é impossível melhorar a educação do nosso povo. Pelo amor de Deus, não é possível que seja necessário dizer que esta é a maior das inversões que se pode cometer no âmbito da Educação. O Governador que vai se reeleger está enganado, está errado em uma questão onde não cabe mais o erro. É justamente o contrário disso, e todo e qualquer educador, pedagogo, filósofo da educação, até mesmo os mais reacionários sabem: o instrumento mais eficaz, mais racional, mais verdadeiramente efetivo na promoção da paz (da verdadeira paz) é o desenvolvimento da educação de qualidade, emancipadora e crítica e de acesso universal. Essa é uma inversão de valores que, fruto de aspirações políticas ou de ignorância, não se pode admitir de um Governador de nenhum Estado do Brasil ou do mundo.

Ao Sr. Governador é preciso mostrar que a paz se conquista não com armas, não com violência, não com criminalização do pobre. A paz se conquista com Justiça Social, conceito que este representante – afundado em seu compromisso com os interesses da burguesia – jamais entenderá. Chamar menino de favela de otário, bajular de maneira asquerosa o presidente, viver em cobertura de luxo e com carro blindado, isso tudo é muito fácil. O difícil é abrir o espaço de seu governo para o diálogo, para a diferença e finalmente, para o injustiçado. Isso ele não faria nem se quisesse.

Comentários

comentários

  • Essa é uma das inversões mais danosas possíveis. O gustavo levantou em sala hoje uma ideia que eu acho que nos ajuda a pensar a violência e as dinâmicas que ela gera: países ricos como Noruega e Dinamarca tem níveis de violência similares às nações mais pobres do mundo. Porque? ambos são ilhas de igualdade social, extremos da cadeia. A desigualdade é motor de violência, ainda mais em uma cidade como a nossa em que os contrastes são impensáveis. Oportunidades iguais de educação geram a diminuição da desigualdade social e aí podemos pensar em Paz e não controle bélico.

  • Deixe uma resposta

    O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *