Dos astuciosos apelos idolátricos do mercado capitalista: incidência na política de mineração

Impactam-nos sempre mais as astúcias de Mamon, deus do atual modelo de organização societal.

Não raramente, tem-se apresentado (quase) invencível, em seu poder de sedução, de modo a fazer sucumbir até não poucos de seus próprios críticos, à semelhança do alerta evangélico acerca da astúcia dos falsos profetas (cf. Mc 13, 22). Tão logo baixem a guarda e se distraiam, acabam, também eles, inebriados pelo seu multiforme poder de sedução… Assim se comporta o Mercado capitalista: capaz de fazer passar, aos olhos dos incautos, os mais torpes projetos como “a” grande saída para os impasses societais e a infame degradação do Planeta. Se é verdade que este modo de produção, este modo de consumo e este modo de organização societal assim se tem portado, ao longo de sua trajetória histórica, também é certo que seu poder de fogo não cessa de aprimorar-se, neste domínio, chegando ao auge em tempos de crises mais agudas do Capitalismo. Assim vem sendo, nas mais diversas atividades, alcançando praticamente todas as esferas da realidade, para muito além da economia.

Um dos segredos-chave de seu enorme poder de fascínio sobre multidões consiste em sua inexcedível capacidade de criar necessidades materiais e imateriais, exacerbando “ad infinitum” a avidez de consumo de pessoas e grupos. O consumismo constitui uma de suas metas irrenunciáveis, ao ponto de promover a confusão entre cidadania e capacidade de consumo desmedido, bem ao gosto do próprio Mercado capitalista. Eis por que já não se afigura bastante lutar-se apenas por um novo modo de produção, devendo-se conectar também a luta por um novo modo de consumo e por um novo modo de gestão societal. Não é por acaso, que “a propaganda é a alma do negócio”… Pense-se, por exemplo, no profundo alcance de convencimento da publicidade, em tempos de campanhas eleitorais – só para ficarmos neste exemplo. Por que têm sido aí despejadas acintosas e crescentes somas de dinheiro, nesses processos eleitorais, e, pior, com tanto sucesso?

Neste e em uma infinidade de retalhos da vida cotidiana, (quase) tudo se acha atravessado pelo fetiche da mercadoria (ver, a este respeito, a reflexão oferecida pelo filósofo Juan José Bautista: https://www.youtube.com/watch?v=avmjOh-VIyI). Tudo vira mercadoria, inclusive os humanos, isto nos remete à famosa lenda do rei midas, que, ao tocar, tudo se transformava em ouro. O que pertence ao Bem Comum da humanidade: as terras, as águas, o ar, as matas, as florestas, as fontes de água, os aquíferos, os rios, os oceanos… as pessoas, as relações sociais… tudo vira mercadoria, objeto de lucro, à medida que se transforma em bens de troca. Como isto não prosperaria tão facilmente, caso fosse divulgado, em sua crueza, trata-se de esconder todo tipo de falcatrua nele subjacente – exploração, dominação, marginalização, toda sorte de violência, agressão, etc., tudo se reveste de uma aparência “natural”, inconfundível, característica da “ordem natural das coisas”… E assim vai-se perpetuando como “normal” toda sorte de desigualdade e agressão contra os humanos e a Mãe-Natureza. No caso dos sucessivos projetos de entrega do vasto patrimônio nacional, pelo governo Temer, à sanha das transnacionais, a palavra mágica, astuciosamente, e de forma abusiva, empregada pelos vendilhões da pátria, é “modernizar”, ainda que, na prática, isto implique retrocesso ao regime de escravidão.

O alvo destas linhas restringe-se ao caso da política de mineração, sendo relevante lembrar que a mesma lógica se aplica, “mutatis mutandis”, a uma vasta pauta de projetos de leis em tramitação, no Congresso. Com efeito, tal lógica perpassa as impropriamente chamadas “reformas” – na verdade, desmantelamento do pouco que resta de política pública, em especial na gestão Temer. Com relação, portanto, à política de mineração, ora atacada em função das gestões para alterar-se o código de mineração, trata-se, também aqui, de potenciar, de modo esdrúxulo, os ganhos e o controle pelo grande capital de extensas áreas do território nacional e de bens preciosos, em prejuízo da natureza e de vastos segmentos da população brasileira (povos originários, povos das águas, das florestas, comunidades quilombolas, etc.), fazendo retroceder o Brasil a uma condição de colônia. Isto é “modernizar”!

Para melhor ilustrar os graves riscos e ameaças em jogo, representados pelas Medidas Provisórias 789, 790 e 791, ora em tramitação no congresso, permitam-me recomendar, com insistência, que confiram um documentário bastante significativo do que está em jogo:
https://www.youtube.com/watch?v=cEorAlteUWA

Tal como em recentes ”reformas” – na verdade, retrocessos -, a exemplo do Código Florestal, agora se investe, com avidez, no desmantelamento da política de mineração, sempre buscando privilegiar as grandes empresas de mineração, à custa da perversa degradação sócio-ambiental e dos mais elementares direitos de amplos segmentos da população brasileiras. Tendo em vista o perfil sobejamente entreguista das duas casas legislativas da União, e considerando o atual imobilismo de nossas organizações de base, não é difícil prever o pior desfecho, até porque as grandes empresas mineradoras, assim como as grandes empreiteiras, são grandes financiadoras de campanhas eleitorais. Todo cuidado é pouco! Temos que acompanhar mais de perto mais uma investida necrófila dos vendilhões da pátria.

João Pessoa, 15 de novembro de 2017.

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