Dorothée Sölle. Uma mística da libertação na Europa, por Thierry Verhelst

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Se a teologia da libertação emana do Sul, na Europa existe uma teologia dita “política” e de libertação social, como a de Dorothée Sölle (1929-2003). Elas também expressam a necessidade de uma transformação radical das estruturas econômicas e políticas, a fim de assegurar mais justiça e paz nos países ricos e no mundo. Dorothée Sölle é uma teóloga luterana bastante conhecida na Alemanha por seu compromisso político, ecológico e feminista. Militou contra a corrida armamentista e em favor de justiça social nos países do Sul e em sua própria sociedade. O itinerário de Dorothée Sölle a levouo de Karl Marx a Denys, o Aeropagistal. Foi a uma “mística da libertação” que levou a busca desta notável mulher.

Ela assinou seu testamento espiritual numa obra publicada nos anos 1990, intitulada Mística e resistência [1].

De início, Dorothée Sölle, leitora dos grandes teólogos do seu tempo, tais como Rudolf Bultmann insiste no caráter existencial da fé: trata-se de vivê-la concretamente. Recusa o deus dos metafísicos, para manter-se fiel ao Deus da Bíbla. Mas ela contesta a insistência bultmanniana sobre a escatologia (o fim dos tempos), na medida em que tal perspectiva nos dispensaria de agir, aqui e agora, pela mudança da situação material da humanidade. Inspirando-se na análise marxiana, Dorothée Sölle lembra que não se trata apenas de compreender o mundo, mas também de transformá-lo. É o empenho por uma sociedade mais humana que nos permite sair de « Sein Zum Tode » (ser-para-morrer), que assombrava a consciência dos existencialistas do seu tempo, entre os quais Heidegger.

A liberdade para os outros

Dorothée Sölle contesta a “oração privatizante” [2], isto é, a oração que não se faz acompanhar pelo engajamento social concreto. Rezar pelos “noossos responsáveis políticos” ou “pela justiça e pela paz” sem mais, é também contestável, diz ela, como rezar para chover, sem plantar árvores e parar a desertificação. Não temos o direito de esperar pela ajuda “do Além”, sem que nos sintamos ativamente envolvidos. A esse tipo de oração que ela compara a um gesso sobre uma perna de pau, ela prefere um pedido do tipo “Dá-nos, Senhor, criatividade para lutarmos contra o que mantém nossos irmãos na miséria.”

Para ela, uma oração autêntica consiste em expressar a Deus o sofrimento sentido, porque seu Reino ainda não se realizou. Consolados e confortados por tal oração, então, podemos ir ao essencial: fazer, a exemplo de Jesus, a obra de Deus para com nosos irmãos. Assim, nós estamos endossando a corresponsabilidade do futuro do Reino, e afastamos de nós a tentação de deixar para um Deus “mágico” as tarefas que nos cabem. A ação social e política, diz Dorothée Sölle, constitui a oportunidade de afirmarmos, com vigor, nossa personalidade, afirmação forte de determinação e de criatividade, de que Jesus nos mostra o exemplo, ao dizer: “Foi-lhes dito que… Mas, eu lhes digo…” Cristo não se dobra diante das situações adquiridas, dos costumes, das intrigas dos fariseus.

“Eu te digo: levanta-te…”. A firmeza que emana de uma tal frase, e que devemos fazer nossa, remete à força criadora de Deus, que cria a partir do que do que não existe. Pelo exemplo de Jesus, assim como no discernimento e pela força do Espírito, tornamo-nos capazes de nos afirmar sem medo de contestar a injustiça, a violência e a poluição.

“Enfrentem, diz Dorothée Sölle, olhem de cara os que fazem a guerra!” Trata-se de ser livre, como Jesus foi livre. E ela precisa que se trata de uma liberdade-para-os outros, e não de mero livre arbítrio egocêntrico. Esta liberdade é o segredo da criatividade e da felicidade. É assim que ela reputa Jesus como o homem mais feliz da terra.

Do exterior ao interior

Dorothée Sölle, por ocasião de seu divórcio, viveu um sofrimento agudo e e profundo. Ela busca dar conta da “noite” que ela própria atravessa e descobre nos místicos. Para tanto evoca a expeirênca de fracasso do profeta Elias, sua fuga ante o a fúria de Jezabel (1 Rs 17-19). Extenuado, Elias busca a morte, debaixo de um junípero. Fortalecido pelo anjo de Deus que traz comida, ele segue, no entanto, seu caminho, durante quarenta dias e quarenta noites. Na grota em que dormiu, ele ouve uma voz chamando-o lá fora. Ele acaba vendo Deus, não nos fenômenos espetaculares – tempestade, tremor de terra, fogo – mas ao leve sussurrar da brisa. Elias deve deixar suas idéias acerca de Deus. Descobre um Deus interior, já não aterrador e completamente exterior. Mas este Deus íntimo não o convida a ficar em êxtase. Envia-o para o mundo, a fim de dar sequência à sua obra profética. Trata-se de fazer nossa a causa de Deus.

Dorothée Sölle insiste na necessidade de “partir” [3]. Trata-se de um arrebatamento. Sigamos os místicos que penetraram a noite e dela saíram transformados. Convém – como Elias – partir para longe, viver intensamente os lutos, assumir os fracassos, depois retornar à “Origem da vida”. Tal retorno à inefável Origem passa, segunda ela, por um mergulho no inconsciente, simbolicamente evocado na história de Elias pelo seu sono numa gruta – verdadeira matriz. O século das luzes e os progressistas atuais ignoram esse movimento regressivo. Só valorizam o progresso. Dorothée Sölle indica que há lugar para ir-se “do exterior para o interior, da vida a uma certa morte, do progresso a um recuo, do movimento a ponto estacionário, do “ego” ao “self”, da exterioridade pós-natural à matriz pré-natal de cada coisa. ” [4].

A experiência do fracasso, a morte para si e o retorno às origens passam a ser, daqui para a frente, elementos constitutivos da busca desta mulher militante radical tornada mística. Como Elias teve que abandonar a idéia que ele fazia de Deus, nós somos chamados a abandonar nossas próprias convicções, notadamente a de um Deus todo-poderoso – uma representação, aliás, tornada insustentável depois de Auschwitz. Convém, igualmente, deixar a idéia que fazemos do mundo, diz ela, não para fugir dele, mas para habitá-lo de modo diferente como profetas. É capital que, depois da “partida”, percamos nossas certezas, que façamos a experiência do fracasso e do sofrimento, que renunciemos ao nosso pequeno eu – que haja um “retorno”. Trata-se de renunciar ao mundo num movimento de kénose (ou de Gelassenheit [5]), mas para de novo nos engajarmos, de maneira diferente, não possessiva, separada, generosa.

Um novo olhar

Os companheiros de luta de Dorothée Sölle, outros teólogos próximos da teologia da libertação perguntaram-se sobre este tema da partida por ela desenvolvido com tanta convicção: Dorothée partiu, mas será que ela ainda vai voltar? Ela respondeu: “Sim, eu volto. Mas eu não sou mais como antes.” Ela tocou com um nível de profundidade que a torna, de algum modo, estranha ao mundo. Ela viveu momentos intensos que lhe deram, ao mesmo tempo, “plenitude” e “distância”. Ela evoca a teologia negativa ou apofática para dizer que sua experiência inspirou nela um “deixa a coisa andar” em relação a Deus (isto é, com relação à imagem que ela tinha de Deus). Com mestre Eckarth e Denys, o Aeropagita, ela prefere a “teopoesia” à teologia: trata-se de um olhar de encantamento diante da inefável beleza do projeto divino, assim como de um compromisso radical em contribuir para a sua realização. Dorothée Sölle fala, então, de um “encantamento radical”.

O êxtase místico sai da banalidade, da feiúra e do egoísmo, e nos permite ver o mundo com os olhos de Deus. O louvor místico de tudo quanto é “bom” leva à resistência social para restaurar o que foi estragado. Tentar ver como Deus os aflitos, as vítimas do lucro e da violência, é deixar-se conduzir por “uma mística da libertação”. Em suma, a união mística a Deus nos propicia mais do que um novo olhar sobre Deus: um novo olhar sobre o mundo.

O místico está no mundo, mas não é do mundo, diz Dorothée Sölle. Seu olhar é o do estranho que se espanta. Ele viu quanto é belo o sonho de Deus para o ser humano e como ele é traído pela injustiça social, pela poluição, e pelo machismo patriarcal. Compreendeu que o produtivismo capitalista e o seu consumismo nos queimaram a visão. Está tomado pela desumanização gerada pelo materialismo e pela mercantilização do mundo. Ele atinge o desejo de vida de Deus, amigo do homem.

A mística como um catalisador

A mística muda o olhar, mas não oferece receitas. Não entrega soluções já prontas. A experiência mística permite a Dorothée Sölle superar as oposiçõs simplistas, herdadas da guerra fria, assim como as análises peremptórias sobre a luta de classes.

Permite deixar chegar outra linguagem para reanimar o ideal de liberdade e de dignidade para todos. Permite a formulação de uma outra promessa, mais profunda do que a do futuro buscada pelas ciências sociais e pela política partidária. Tal discurso retira sua força mobilizadora de sua relação com a Origem da vida. Constitui um “retorno” à evidência: a vida em sociedade só pode assim! A globalização, tal como hoje se apresenta, não pode ser o “fim da história” vendida pelos incensadores do neoliberalismo e do messianismo nacionalista americano [6]. Não se poderia dar prova de tamanha arrogância imperial e etnocêntrica.

Essa mística constitui o terreno fértil da resistência à desumanização consumista que nos ameaça fazer perder nossas raízes, bem como da resistência à desumanização pela miséria galopante nos países que sofrem com a fome. Dorothée Sölle convida a “deixar” sem saber para onde a gente vai, lá onde faltam os conceitos e as ferramentas de análise. Ela nos chama a uma liberdade sem destino preciso, a uma disponibilidade à transcendência. A mística surge de um “élan vital” que torna possível o serviço ao irmão, na escuta de Deus. É assim que a mística permite passar de uma “hermenêutica da dúvida e da crítica” (Nietzsche, Marx, Freud) a uma “hermenêutica do desejo”. A hermenêutica crítica é a arte da interpretação dos textos: esperar o Reino e desejar ardentemente contribuir com ele, tendo visto o mundo e o irmão com os olhos de Deus. Ela preenche as lacunas do engajamento secularizado que corre o risco de se basear numa racionalidade demasiado estreita. Mística e resistência – eis um apelo ao engajamento. Deus tem necessidade dos homens. Ele age mediante nosso engajamento. A teologia da libertação não está restrita às comunidades cristãs dos países do Sul. Os cristãos da Europa têm uma responsabilidade planetária, nas dimensões da globalização.

Esta mística da libertação desemboca, como todas as místicas, sobre o concreto. No caso, no concreto das dimensões sociais e políticas.

Notas:
[1] Mystik und Widerstand : ’Du stilles Geschrei’, Hoffman und Campe Verlag, Hambourg, 1997
[2] « Das entprivatisierte Gebet », Aktion. Politisches Nachtgebet, Wuppertal, Jugenddienstverlag, 1971
[3] Der Hinreise. Traduit en néerlandais : De heenreis. Gedachten over religieuze ervaring, Baarn, Ten have, 1975
[4] Ibid.
[5] Acceptation, lâcher-prise plus que simple résignation telle qu’elle est chantée par Maître Eckart
[6] Francis Fukuyama, philosophe influent aux Etats-Unis, estime que le capitalisme et la démocratie constituent le sommet de ce que l’humanité adulte peut atteindre, en quelque sorte la concrétisation ultime de la Raison hégelienne. Selon le titre d’un de ses ouvrages, nous aurions donc atteint La fin de l’histoire, Champs Flammarion, 2009

Trad.: Alder Júlio F. Calado, a partir do texto disponível em

http://www.trilogies.org/spip.php?article187

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One thought on “Dorothée Sölle. Uma mística da libertação na Europa, por Thierry Verhelst

  1. Adorei! Não conhecia! É uma maravilha! Pouquíssima gente é assim! Felicidades e bom êxito para os seguidores!

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