Deus e o diabo no Brasil das milícias cristãs

Jesus e o diabo no Brasil das milícias cristãs

No carnaval de São Paulo, a Escola de samba Gaviões da Fiel tomou como enredo uma lenda que liga Santo Antão ao tabaco e levou à avenida o combate do Cristo e o diabo. Parece que, no desfile, a escola mostra o diabo vencendo Jesus. Isso levou crentes a acusarem a escola de ter desrespeitado Jesus e escarnecido da fé cristã.  Há diversos ângulos ou aspectos nos quais um fato como esse pode ser analisado. Na internet, se espalhou o texto de Tiago Santos, teólogo evangélico que fez uma leitura do embate entre Jesus e Satanás, a partir da situação social e política no Brasil. Ele elenca realidades atuais nas quais, de fato, o diabo tem vencido e vence a luta contra Jesus e o que Jesus propõe para o mundo e as Igrejas.

Gostaria de contribuir com outro ângulo de abordagem mais teológica e espiritual. De fato, a interpelação que faço começa por perguntar: Que visão de Deus está por trás dessas histórias e como, nesse tipo de conflitos, se fala de Jesus.

A própria escola afirma que tomou como enredo uma antiga lenda egípcia que a tradição conta de Antão, eremita cristão do século IV. Se se trata de narração mítica, os elementos são simbólicos. Por isso, qualquer discussão teria de partir desse princípio básico: é mito. Como escreve Paulo Mendes Campos, doutor em Ciências das Religiões em Lisboa: “O uso dos símbolos é universal e nunca pode ser marca registrada de uma confissão. Isso não impede que se lamente e se possa denunciar o uso arbitrário de uma simbologia como a Igreja Universal do Reino de Deus faz ao reconstruir um pretenso templo de Salomão, se apropriando de alguns elementos do antigo Judaísmo, elementos escolhidos conforme o seu gosto e sincretizados para o consumo dos clientes atuais da Igreja” (em www.visao.sapo.pt – 11/ 03/2019).

A própria figura do diabo é sincrética. Vem originalmente da religião persa. Na Bíblia, tomou vários significados e na tradição cristã popular ganhou esse significado do espírito do mal que se opõe a Deus.

Na apresentação da escola de samba, as figuras do Cristo e do diabo representam o bem e o mal presentes na pessoa e na vida de Antão, já que, de fato, o que se conta ali são episódios da história do eremita Antão. Portanto, se no desfile, o Cristo vence ou perde a luta contra o diabo, não seria em si o Cristo e sim o Cristo presente ou interiorizado em Antão. 

 Quero fazer alguns comentários fragmentados:

 – Que tragédia pastoral: no lugar de ficarem felizes em ver Jesus, de alguma forma, representado na avenida, cristãos se sentem ofendidos e querem processar a escola de samba por ter lembrado a figura de Jesus, apenas pelo fato de que o Cristo é representado de uma forma que não é a que eles, crentes tradicionalistas, acham que deve ser. Isso tem ocorrido com a reação de crentes evangélicos, mas também de bispos, padres e católicos tradicionais quando no Carnaval aparecem símbolos religiosos. Reduzem Jesus a uma marca comercial: Jesus.com. Declaram-se proprietários da marca e exigem exclusividade do seu uso. É triste. 

 – O tema da luta do bem contra o mal percorre todas as tradições espirituais e também a Bíblia, assim como o próprio evangelho. O quarto evangelho a sintetiza na luta das trevas contra a luz.

Conforme os evangelhos, o sistema religioso que se alia ao poder político (imperial) transforma os critérios. Aquilo que, para uns, é impuro e pecaminoso, Jesus revela que conta com o seu amor e carinho. Ao contrário, ele se revela duro e exigente com os que dizem representar Deus mas dão sobre ele um testemunho péssimo. Transformam Deus que é pura energia de amor inclusivo em um poder opressor e mesmo cruel, mais cruel até que o poder imperial dos pagãos. Conforme o evangelho, Jesus é condenado por esse poder religioso – dependente do poder político romano.

 –Há 50 anos, na América Latina (e outros continentes), a teologia e a espiritualidade nos exortam a vivermos hoje o seguimento de Jesus e a nos revestir da fé de Jesus, ou seja aquela fé que ele teve. Isso faz com que, além de aceitarmos que o Cristo da nossa fé é o Jesus histórico, tentamos descobrir a presença do Espirito e a energia da ressurreição presentes no testemunho que Jesus deu do reino de Deus e de sua ação libertadora, como pobre, leigo e marginal ao poder religioso na Palestina do século I.

Isso nos chama a pensar que, muitas vezes, no mundo atual, a figura mítica que as pessoas costumam ver como o diabo pode ser mais de Deus e representar o Jesus da nossa fé do que o Cristo rei, glorioso e soberbo do sistema imperial. Quando esses cristãos do sistema veem como diabólico um terreiro de Candomblé ou mesmo a figura do Exu da Umbanda, aquelas figuras por eles condenadas como diabólicas, de fato, se assemelham ao Cristo crucificado. Enquanto isso, o Cristo branco e glorioso, adorado nas catedrais da fé pode ser um ídolo e nesse sentido diabólico (que divide e desvia as pessoas). Talvez, seja bom ter isso em vista ao recordar a luta do Cristo e do diabo no desfile da Gaviões da Fiel.

Para concluir: É claro: se as pessoas leem a própria Bíblia como se fosse páginas de um jornal de hoje, como posso pedir que aceitem contextualizar o que a escola Gaviões da Fiel apresentou em seu desfile?  O que podemos fazer é garantir a nossa parte. Por trás dessa história, nós mesmos temos de novo nos colocar em procura e nos abrir para descobrir o que o Espírito diz, hoje, às Igrejas.