Despertar da Igreja católica para a cidade

Em julho de 2001 houve um congresso internacional sobre pastoral urbana na cidade do México. O congresso anterior tinha sido realizado em Barueri, São Paulo, em 1965. A principal diferença foi que, naquele tempo, estavam presentes personalidades do CELAM e membros dos episcopados nacionais, juntamente com teólogos e sociólogos conhecidos. No México, o congresso foi, ao contrário, confidencial e não contou com a presença de nenhum membro da hierarquia, afora uma saudação do cardeal-arcebispo da cidade do México, aparentemente mais por motivo de cortesia do que por interesse pastoral. Esse parece ser um sinal de que o interesse pela pastoral urbana diminuiu muito nesses últimos 35 anos, apesar do extraordinário desenvolvimento das cidades.

No entanto, há novo despertar. Os teólogos começam a interessar-se. É o caso de recente livro de J. B. Libânio (As lógicas da cidade. O impacto sobre a fé e sob o impacto da fé, São Paulo, Loyola, 2001), em que o autor desenvolve temas que já tinha lançado parcialmente em diversos artigos de revistas. Houve planejamentos pastorais com base em reflexões teológicas tanto em Belo Horizonte como anteriormente em São Paulo.

Há também o interesse suscitado pelos planos de política urbana, aplicados, sobretudo, nas prefeituras governadas pelo PT. Claro que há toda uma ideologia na base desses planos, e uma ideologia muito vizinha das concepções cristãs. É de desejar que o interesse aumente e os responsáveis tenham a coragem de enfrentar, na prática, os desafios constatados em nível teórico.

Para começar estas breves reflexões, queria salientar que é preciso distinguir o que é próprio da cidade e o que é da nova cultura ocidental, pós-moderna, capitalista, globalizada. Ocorre que a nova cultura ocidental se desenvolve primeiro nas cidades e, antes de tudo, nas grandes metrópoles. Daí ela se difunde pelo país inteiro até atingir os mais distantes rincões. Hoje, com a TV, poucos lugares ainda vivem na ignorância da nova cultura.

Há desafios que procedem da nova cultura e outros que são próprios da cidade. A cidade não é necessariamente pós-moderna, capitalista, globalizada. Mesmo assim, até as cidades antigas tinham os seus problemas próprios. É preciso distinguir, pois cada desafio precisa de respostas adequadas. Soluções puramente urbanas não resolvem o desafio da nova cultura, e os problemas da nova cultura são diferentes dos problemas da cidade.

Não podemos cair na confusão da antiga escola de sociologia urbana de Chicago, para a qual rural era sinônimo de cultura tradicional e urbano sinônimo de cultura moderna. Se a cultura moderna entrou pelas cidades, ela não se identifica necessariamente com o viver na cidade — pode existir também no campo, como o demonstra o exemplo dos países mais desenvolvidos.

Por isso, lembremos rapidamente algumas das principais características da nova cultura ou do modo de viver numa cidade. Sobre isso já se escreveu muito ao longo do século XX, mas o mundo eclesiástico conhece pouco essa literatura, frequenta pouco as escolas de urbanismo ou de sociologia urbana. Muitos pastoralistas ainda permanecem na fase da improvisação, pensando que a espontaneidade pode substituir a ciência ou que a teologia, por si só, pode gerar todas as respostas pastorais.

 

1. O próprio da cultura pós-moderna atual na cidade

Houve, e há ainda, uma tendência forte entre os sociólogos europeus para sustentar que a nova cultura estaria secularizando a vida e seria incompatível com a religião. A nova cultura seria a causadora da decadência das Igrejas cristãs na Europa, pois mulheres e homens atuais poderiam dispensar a religião. Os sociólogos oferecem explicações teóricas e fazem muitas pesquisas, que geralmente confirmam as suas intuições — já que as perguntas são feitas de tal modo que incluem a resposta desejada.

Na realidade, é somente na Europa que a religião é decadente — pelo menos a religião cristã tradicional, tal como foi transmitida pelas Igrejas tradicionais, tanto as da reforma como a Igreja católica. Nos Estados Unidos, a situação é bem diferente e a religião continua tendo papel importante tanto na vida privada como na consciência da nação. No resto do mundo, as cidades assistem a uma explosão de religiões novas e a um ressurgimento das religiões tradicionais.

Se, na Europa, há um fenômeno acentuado de secularização, este não pode ser atribuído simplesmente à nova cultura, porque esta mesma cultura produz efeitos opostos em outras regiões.

Na América Latina há uma verdadeira explosão religiosa. Muitas Igrejas, seitas e religiões novas fazem sucesso e conquistam milhares e até milhões de membros. Qual será o segredo? Estará ligado a razões sobrenaturais? Seria o Espírito Santo que age assim? Ou haveria razões humanas, sociológicas, psicológicas, antropológicas?

Em matéria de ciência humana, nunca chegamos a razões apodícticas. Não superamos a fase das probabilidades. No entanto, não podemos permanecer na ignorância pura e devemos buscar pelo menos algumas probabilidades. É provável que as novas religiões fazem mais adeptos do que as Igrejas tradicionais justamente pelo que têm de diferente. Ora, a grande diferença entre essas novas religiões, Igrejas ou seitas, é que elas não têm uma hierarquia tão forte quanto na Igreja católica e nas outras Igrejas cristãs tradicionais.

A religião que sofre o impacto da nova cultura é a religião hierarquizada. A nova cultura tende a desacreditar todas as discriminações de hierarquia. Por isso as castas e as categorias tradicionais fundadas por razões simbólica tendem a desaparecer. Na mentalidade atual, a casta é sinônimo de ineficiência, incapacidade e, portanto, é tida como obstáculo ao progresso da sociedade. A nova hierarquia é a do dinheiro e da capacidade de ganhar dinheiro pela ciência, pela tecnologia, pela habilidade administrativa, e isso suprime todas as hierarquias tradicionais — entre elas o clero.

O clero está perdendo o controle da religião. A religião não morre, mas o clero não consegue manter o monopólio, não consegue mais controlar todas as manifestações religiosas, como conseguiu fazer durante os 1.500 anos de cristandade. Não consegue, não por má vontade ou preguiça, mas porque a sua estrutura não corres­ponde às exigências da nova sociedade com a sua nova cultura. Não se trata de problemas pessoais, e sim de problemas de estrutura.

O clero conseguia ser o único proprietário de todos os bens religiosos. A nova cultura leva as pessoas a procurar, a cada momento, a religião que lhes convém e não suportam mais o controle do clero — por isso contestam todos os títulos invocados pelo clero para afirmar a sua autoridade.

A autoridade do clero lhe vem de ser o depositário da doutrina correta: só ele interpreta corretamente a Bíblia, só ele ensina o verdadeiro catecismo, porque só ele conhece os dogmas necessários para a salvação; denuncia os erros e as heresias, que são exatamente as expressões religiosas que não concordam com a sua doutrina. Em nome da doutrina reivindica o controle das consciências, do discurso religioso e de todas as expressões religiosas. Em nome da sua autoridade, que é a presença local do magistério da Igreja, o clero exige que lhe seja submissa toda expressão da religião popular. Reivindica o direito de decretar sozinho se uma devoção é aceitável ou não, controla o culto aos santos, o exercício dos milagres e dos exorcismos, decide se uma oração é válida ou não. Enfim, toda a exuberante criatividade da religiosidade popular fica na dependência do clero, que faz dela uma fonte do seu prestígio, porque sempre subordina ao seu próprio poder as manifestações populares: nas festas e nos ritos populares, exige que haja missa — eventualmente outros sacramentos —, bênção segundo o ritual, tendo sempre o monopólio do discurso religioso. Dessa maneira, cada manifestação pública da religião popular torna-se afirmação da autoridade do clero. Justamente isso é que está sendo contestado atualmente pelas pessoas que aderem às novas religiões.

Além da doutrina, o clero é depositário dos sacramentos, que são os gestos carregados de sacralidade que somente ele pode realizar e são os sinais do seu poder. Na celebração da missa, por exemplo, afirma-se o poder do clero em face dos leigos, mostrando que somente o padre possui os atributos do poder religioso.

Além disso, o clero tem autoridade absoluta, dentro de determinado território, sobre qualquer atividade com motivação religiosa. Somente no Direito Canônico de 1983 foi reconhecido o direito de associação. Anteriormente não podia haver nenhuma associação que não tivesse sido fundada pelo clero e não fosse administrada por ele. Somente os religiosos conseguiram escapar, mas foi ao preço de 800 anos de luta entre os chamados clero regular e clero secular.

Por isso o clero é constituído para administrar esse poder religioso: celebrar os sacramentos que põem os leigos na sua dependência, examinar todas as palavras religiosas e organizar todas as atividades de associações. Um bom padre é aquele que consegue criar e administrar dezenas de associações — chamadas de pastorais, de grupos ou de outros nomes.

Ora, a nova cultura proporciona condições para que a religião escape, fazendo com que o clero não consiga controlar nem a religião individual nem os movimentos religiosos. Muitos saem das Igrejas tradicionais e vão para as Igrejas pentecostais, e o clero não consegue conter esse movimento. Outros vão para cultos orientais, cultos esotéricos ou novas religiões, e o clero não consegue impedi-los — somente mantém o domínio sobre os setores mais conservadores da população.

A nova cultura é cultura de mercado, capitalista, individualista, globalizada. Nela todos devem competir para ganhar. Quem fica esperando na retaguarda perde. É preciso lutar para vencer. É preciso mostrar capacidade, mostrar bens atrativos. É preciso convencer. Não adianta ser dono da verdade, se as pessoas não o reconhecem como tal. Não adianta ter os sacramentos válidos, se as pessoas não se interessam pelos sacramentos e buscam outros sinais religiosos. Não adianta administrar dezenas de obras e pastorais, se as pessoas não querem ser incorporadas nesse sistema dependente de uma pessoa que não escolheram.

A nova cultura não exclui a religião — muito pelo contrário —, mas exclui uma religião hierarquizada, em que tudo depende de uma casta que se reproduz por si mesma, sem nenhuma interferência do povo. Essa casta administra uma religião burocratizada e formalista, em que as pessoas não podem intervir. O clero não pode agir de outro modo. A ordenação inclui uma subordinação total ao sistema, por mais burocrático e formalista que seja.

Há concordância em reconhecer que o futuro da Igreja está no clero. Por isso toda a pastoral das dioceses está centrada nas chamadas vocações sacerdotais e a prioridade de muitos bispos é o seminário. Há dioceses em que quase todos os recursos são destinados ao seminário.

No entanto, se o modelo e a formação dos padres não mudarem, a Igreja não terá futuro e perderá cada vez mais fiéis, à medida que se propagar a nova cultura. Consciente da importância central dos padres, a hierarquia multiplica os documentos sobre o sacerdócio — como se lembrar a doutrina pudesse ter qualquer efeito prático —, multiplica as exortações, a exaltação e as responsabilidades dos sacerdotes. Os padres recebem a missão de fazer tudo, de serem portadores de todas as virtudes e um tempo bastante largo para realizar tudo o que se espera deles. Mas não há correlação entre o que o discurso afirma esperar deles e a formação que recebem, e por isso não há nada em comum entre a ideologia que se descarrega sobre eles e o que podem fazer na realidade. A hierarquia parece pensar — parece, porque há bispos que pensam o contrário, mas não podem dizê-lo — que o problema sacerdotal consista em aumentar as virtudes, que o problema seja de ordem moral ou psicológica. Parece pensar que, com boas pregações, bons discursos, boas palavras repetidas indefinidamente, sejam capazes de fazer o que se espera deles.

Na realidade, o que se espera deles é o impossível. Espera-se que consigam evangelizar a nova cultura sem lhes dar a devida preparação para isso. São preparados e formados para administrar a religião tradicional dentro das paróquias e não se lhes pode pedir outra coisa. Por milagre de Deus alguns conseguem ultrapassar os limites desse sistema, mas não se pode pedir que Deus multiplique os milagres indefinidamente, para corrigir a cada passo os efeitos do sistema que aí está. Tais preces não serão escutadas.

Na cultura moderna, somente conseguem ter influência os que reúnem capacidades e se preparam para isso. Não adianta confiar tudo na recepção de um sacramento, o que vale é o talento e a formação desse talento. Devem ser ordenados os que são capazes, sem pensar que a ordenação confere a capacidade — o que se supõe implicitamente hoje. A autoridade do clero deve vir do reconhecimento da sua capacidade, e não simplesmente de um decreto da Cúria diocesana. As novas religiões que triunfam são aquelas introduzidas por pessoas com capacidade, com um dom pessoal, um talento para lidar com religião e relacionar-se com pessoas.

Se o próximo Papa não mudar radicalmente o clero, perderá tempo precioso e muitos fiéis desanimarão. Poderá fazer discursos bonitos sobre o sacerdócio, mas os discursos não terão eficiência alguma.

Tudo isso já foi escrito tantas vezes, que a gente fica quase com vergonha de repetir coisas tão óbvias. Todavia, alguns ainda não tomaram conhecimento daquilo que é de domínio público. A Vida Pastoral pode, eventualmente, abrir os olhos de alguns que não teriam visto ainda o que está acontecendo no mundo.

Há outras diferenças significativas. Uma delas é que tanto a Igreja católica como as outras Igrejas históricas não conseguem atrair os pobres. Não conseguem situar-se na cultura dos pobres das cidades. É na cidade que a separação entre ricos e pobres é mais intensa, e nesse ambiente as Igrejas não conseguem passar a fronteira. Mesmo que a Igreja católica tenha feito opção preferencial pelos pobres, os pobres não se reconhecem nela, pelo menos os verdadeiros pobres, os que estão no nível mais baixo da estrutura social.

Tudo se passa como se a Igreja católica fosse excessivamente formalista, racionalizada e burocratizada. Com certeza os pobres ficam encantados com certos sacerdotes, certas irmãs ou missionários leigos. Mas trata-se de reconhecimento individual. Trata-se de reconhecimento a determinado padre, não por ser ele padre da Igreja católica. O que conquista é determinada pessoa, e não a Igreja que representa. O povo dos pobres separa-o da sua Igreja. Pode acontecer, por isso mesmo, que, quando algum padre se desliga da Igreja ou do ministério, o povo lhe permanece fiel como antes, sem fazer diferença. Alguns ou algumas conseguem individualmente chegar aos pobres, mas a estrutura não consegue.

Outra diferença é que a hierarquia ou o clero espontaneamente procuram acordos com as autoridades, sejam elas políticas, econômicas ou culturais. Agem como “autoridade”, “classe superior” e incessantemente aparecem em público ao lado das autoridades. Moralmente, formam parte do grupo dirigente da sociedade. Isso lhes confere muitas vantagens, sobretudo materiais. Mas, ao mesmo tempo, tira-lhes boa parte da credibilidade. Aparecem como oportunistas, mais apegados à sua situação social do que ao evangelho que pretendem anunciar. Na vida pública, o evangelho fica silenciado e o que se adota é um linguajar religioso superficial, válido para todos, sem conteúdo específico. O evangelho fica reservado para círculos muito restritos, os quais ele não expõe a nenhum tipo de questionamento.

O povo manifesta respeito às autoridades, incluindo as eclesiásticas, mas não dedicará mais confiança às autoridades religiosas do que às outras. Os católicos tradicionais aceitam, ou até podem aprovar por razões pragmáticas, mas ninguém se converte porque vê as autoridades religiosas ao lado das autoridades civis. As novas religiões parecem mais puras, mais sinceras, mais autênticas porque não estão ligadas às autoridades e, por conseguinte, não são suspeitas de terem comprado os favores das autoridades.

 

2. O próprio da cidade

As características da cidade são bem conhecidas e foram explicitadas por especialistas há várias gerações. Vamos apenas repetir o que muitos já sabem.

Em primeiro lugar, a cidade reforça a autonomia da pessoa em relação aos grupos naturais, à família, à vizinhança, ao clã, à raça, à religião, à etnia. No mundo rural, ela está bem mais identificada e não tem muita possibilidade de frequentar outros grupos. Ora, a pessoa torna-se autônoma e livre quando pode manter contato com os outros grupos.

As Igrejas sempre fizeram o possível para que os seus fiéis evitassem qualquer contato com os outros que são diferentes. Elas têm medo da diferença porque o domínio do clero sobre os indivíduos fica ameaçado com o contato com pessoas diferentes. Ora, na cidade, apesar da pressão do clero, esse contato é muito mais fácil. Por isso os costumes, as tradições, os preconceitos dissolvem-se mais facilmente na cidade. As pessoas vão escolhendo o que lhes serve para firmar a sua personalidade.

Conclui-se daí que, na cidade, é preciso ter uma personalidade religiosa mais forte e somente as religiões personalizadas vencem.

Em segundo lugar, as pessoas da cidade formam associações voluntárias. São grupos limitados em que o contato pessoal é possível, em que todos se conhecem e os líderes são reconhecidos por todos os membros. As associações já existiam nas cidades da antiguidade. Nas cidades cristãs, elas cresceram e multiplicaram-se. No entanto, nas grandes cidades do século XX, o movimento associativo não acompanhou o crescimento da população, sobretudo entre as massas pobres. As Igrejas tradicionais não conseguiram formar um número suficiente de grupos e associações. Vencem as religiões que conseguem formar pequenos grupos com bastante intimidade, intercâmbio e vida comunitária.

Na Igreja católica, houve a experiência das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). O projeto respondia às aspirações dos cristãos do mundo moderno, sobretudo os de mentalidade urbana. Deviam ser pequenos grupos com finalidade determinada e intensa vida comunitária. As CEBs foram combatidas sem cessar por instâncias da Cúria romana, que conseguiram convencer a grande maioria dos episcopados, em quase todos os países latino-americanos, a fazer o mesmo. Por isso elas subsistem de modo muito precário, sendo o Brasil a grande exceção com respeito a isso. Mesmo no Brasil, elas sobreviveram ao preço de uma evolução muito grande.

Roma percebeu muito bem que as CEBs colocavam em perigo as paróquias e, com as paróquias, a monopolização do poder religioso nas mãos do clero. As CEBs eram um perigo para o clericalismo e, por isso, não podiam continuar. Roma, como se sabe, persevera em seus objetivos, mesmo que sejam necessários séculos para que alcance os seus fins. Aqui o fim é a salvação da paróquia e do clero tradicional e, por conseguinte, o desaparecimento das CEBs. Roma age devagar porque sabe que, numa parte ainda importante do episcopado e do clero, sobretudo entre os idosos, as CEBs ainda têm defensores. Mas não descansará até alcançar a sua meta.

Com apoios locais, as CEBs sobrevivem, mas com dois defeitos: primeiro, assumem todas as tarefas sacramentais e consomem a maior parte das suas energias na preparação e na celebração de sacramentos — o que é tarefa paroquial, influência predominante do modelo rural, já que muitas comunidades foram rurais. Com isso fica pouco tempo para a participação na vida da cidade e para a evangelização. As comunidades seguem o ritmo das paróquias, que são guetos urbanos.

Em segundo lugar, elas gozam do mesmo monopólio das paróquias e dos vigários: somente pode haver uma comunidade em determinado território. Dessa maneira impedem o surgimento de milhares de comunidades novas. Todos os católicos do bairro, particularmente os jovens, devem integrar-se na CEB local ou permanecer fora da Igreja católica. Isso se opõe diretamente ao movimento urbano sobre a espontaneidade da formação de grupos e comunidades.

Não há dúvida de que as CEBs têm a fórmula adaptada à cidade, quando viabilizadas de modo autêntico. Também não há dúvida de que são incompatíveis com o clericalismo e, por isso, suscitam tanta oposição. Porém, elas deverão renunciar a fórmulas arcaicas que, por serem ambíguas, facilitaram a sua sobrevivência no Brasil, com o preço da autenticidade. As críticas radicais que se fizeram e ainda são feitas às CEBs para justificar o ostracismo de que são vítimas são justamente as razões positivas que exigem a sua existência. As CEBs valem justamente pelas razões com que são combatidas.

 

3. A opção básica do cristianismo

Desde as origens, o cristianismo fez uma simbiose entre duas realidades religiosas: a religiosidade popular tradicional dos povos mediterrâneos, e depois germânicos ou eslavos ou irlandeses, por um lado, e o evangelho de Jesus, por outro. Essas duas realidades foram integradas desde cedo. Depois de Constantino, a fusão foi muito mais intensa.

A religião popular busca o seguinte: a saúde em primeiro lugar, a saúde em segundo lugar… a saúde sempre. O problema central vivido pela humanidade é a doença, e a religião é o remédio para a doença. O culto aos mártires e aos santos organizou-se em torno do tema da saúde. 95% das orações dos seres humanos, desde sempre, tiveram por motivo a doença e a espera da saúde. O cristianismo também foi e ainda é um meio de recuperar a saúde, e para a maioria das pessoas não é muito mais do que isso.

Ao lado da saúde, há também a necessidade do consolo nas provações da vida, a calma no meio das angústias, a resistência no meio da pobreza, a salvação em todas as necessidades.

O cristianismo entendeu muito bem essa situação da humanidade e ofereceu a sua compaixão por todas as dores e todos os sofrimentos. Ele oferece os santos e uma infinidade de objetos religiosos, de fórmulas, de gestos, de romarias, de devoções. A condição do êxito é justamente dar satisfação a essas necessidades religiosas tão profundas nos seres humanos.

Poderíamos pensar que, na cultura atual, com tantos progressos da medicina e com tantas terapias, tantos métodos de autoajuda, tantas sabedorias recolhidas em todos os continentes, se poderia dispensar a religião. Nada menos verdadeiro. A religião ainda pode ter êxito, com a condição de dar resposta às necessidades da vida. O exemplo de tantas novas Igrejas neopentecostais ou de novas religiões mostra de que maneira é possível conquistar o povo.

Se a religião católica quer dedicar-se a oferecer esses serviços religiosos, ainda pode ter grande êxito. Claro que encontra concorrência. Mas ela dispõe de tamanha variedade de remédios, que é capaz de rivalizar com os concorrentes e até eliminá-los. Recentemente, um religioso oferecia como solução para a pastoral urbana um exemplo de Buenos Aires. Existe lá uma Igreja dedicada a São Judas Tadeu que reúne, cada dia 28, mais de 100.000 pessoas. Apenas um santo reúne todas essas pessoas — e a Igreja dispõe de centenas de santos, cujo número aumenta sem cessar.

O êxito é tão garantido, que podemos presumir que a maioria do clero escolherá essa pastoral. Mas há um problema: nas cidades atuais, tornou-se muito difícil associar, de modo estreito e permanente, a religião popular com a disciplina de uma Igreja dedicada ao evangelho. As pessoas que frequentam a igreja para buscar remédios e satisfações na vida não se sentem comprometidas com a Igreja. O seu compromisso é com o santo, e nada mais. Não se sentem comprometidas a participar de comunidades cristãs, aceitar a disciplina da Igreja e, muito menos ainda, seguir a regra do evangelho.

A religião popular deixa de ser uma maneira de transmitir o evangelho. É uma atividade completa em si mesma, e o clero deixa de exercer um controle tão estreito sobre ela. Religião e evangelho estão cada vez mais separados. Na cidade e na cultura atual, o clero não controla mais as manifestações religiosas — nem sequer as organizadas por ele. O povo faz o que lhe interessa e deixa o resto.

Aí intervém a outra alternativa. Pode e deve a Igreja também dedicar-se ao evangelho? Deixemos de lado o linguajar eclesiástico habitual em que se repete incansavelmente que a Igreja está a serviço do evangelho, que existe para evangelizar e assim por diante. Tudo isso é discurso, são palavras. Bem sabemos que não e assim. A questão é se a Igreja pode dedicar pelo menos algo das suas preocupações, do seu tempo e dos seus recursos ao evangelho, e não simplesmente à administração do seu mundo simbólico. A resposta não é evidente, desde o momento em que deixamos de lado os discursos burocráticos que repetem fórmulas vazias.

O desafio é a sociedade em que se vive, que está subordinada a um modo de viver completamente diferente dos valores cristãos. A civilização de consumo exerce sobre as crianças e os jovens pressão quase irresistível. Os que se lançam mais avidamente ao consumo são os jovens, porque são mais sensíveis aos apelos incessantes da propaganda.

Por conseguinte, a vida evangélica é uma ruptura com a vida social comum e corrente. Estamos voltando aos tempos da primitiva Igreja nas cidades romanas, em que as comunidades cristãs se caracterizavam por um modo de viver tão diferente, que muitos pagãos ficavam escandalizados.

Por isso, para viver o evangelho na cidade, é preciso ter uma vida comunitária intensa, sem a qual não haverá verdadeira educação cristã. Também é provável que nem sempre os jovens seguirão o caminho dos pais e que as futuras comunidades contarão com muitos convertidos na idade adulta.

Tudo isso foi vivido pelas Ordens terceiras e associações ligadas aos religiosos desde o século XIII, e ainda antes, mesmo que não houvesse institucionalização. Recentemente, foram os movimentos leigos que retomaram a tarefa de formar grupos com espiritualidade forte. Mas o movimento ainda é insuficiente. Ainda há uma multidão imensa que se diz católica e não pertence a nenhuma associação, nenhum grupo de vida evangélica.

Não podemos esperar que todos os batizados cheguem ao desenvolvimento pessoal de uma vida realmente cristã. A história parece ensinar que, com respeito a isso, 20% dos batizados é uma proporção historicamente possível. Para alcançar essa meta, seria necessário que a Igreja dedicasse muito mais tempo, pessoal e recursos à vivência espiritual, à formação da fé em comunidade.

Se a comunidade pequena é o centro da vida cristã e o apoio da fé, devemos concluir daí que o lugar principal da celebração da eucaristia é a comunidade de fé, o grupo pequeno em que se alimentam os cristãos para viver a sua fé. Não basta a liturgia da palavra — o que seria uma interpretação protestante extremista da comunidade cristã.

Nos últimos séculos, a missa passou a ser vivida como obrigação. A missa era o ato religioso de identificação dos católicos. O que se fazia durante a missa tinha pouca importância. O importante era estar presente para cumprir o preceito. Por isso foram construídos grandes templos — para permitir que grande número de católicos pudesse cumprir o preceito.

Sabemos que o sentimento da obrigação religiosa está em decadência nas massas e, por isso, a assistência à missa só por obrigação está diminuindo — assim como diminui o número de pessoas que frequentam a missa por costume transmitido pelas tradições, nas pequenas cidades do interior, onde a cultura rural se mantém.

A formação de pequenas comunidades de fé ativas na sociedade já começou e, de certo modo, nunca esteve totalmente ausente desde o século XII, mas sempre de modo lateral e muitas vezes marginal. Da mesma maneira sempre se cultivou o culto aos santos e a resposta religiosa às necessidades materiais do povo, mas nunca, até agora, de modo generalizado, de modo comercial, seguindo as instruções do marketing religioso, como se faz na atualidade. A paróquia urbana ainda é a estrutura fundamental e, aos olhos do clero, a única que realmente vale.

É de prever que a evolução continuará, embora o clero acompanhe pouco e com muita reticência. Mas a concorrência das outras religiões vai fomentar a aspiração a uma espiritualidade mais especializada e comunitária.

A resistência do clero vem do fato de que as pessoas que colaboram intensamente com as paróquias são as que menos desejam uma vivência em grupos espirituais e evangélicos. Estão plenamente satisfeitas dentro dos grupos paroquiais, em que podem agir com desenvoltura e tranquilidade. O fato de que as paróquias tenham pouca atividade dentro do mundo não incomoda, porque, para essas pessoas, o mundo é a paróquia e o resto pouco interesse tem.

A abertura da Igreja ao mundo, que se realizou nas décadas de 50 e 60, foi o fruto da Ação Católica, que preparou uma geração de sacerdotes e de bispos mentalmente livres em relação à paróquia, mais interessados em grupos de espiritualidade forte e preocupados com a presença do evangelho no mundo.

Novos grupos deveriam renovar o papel da Ação Católica. Algo dessa finalidade estão buscando grupos de missionários ou grupos de evangelizadores. No entanto, muitas vezes subestimam a dificuldade e o desafio da evangelização, como se ela fosse simples conversão. Não se trata de simplesmente acrescentar nova “pastoral” ao elenco das 20 ou 30 pastorais já existentes na paróquia.

Na realidade, viver de acordo com o evangelho, hoje em dia, na cidade, não é tão fácil. Os próprios missionários precisam ser evangelizados, porque a evangelização se faz por expansão e irradiação de comunidades cristãs verdadeiras, e não simplesmente por uma conversão individual, como fazem os neopentecostais. Os grupos precisam ser, ao mesmo tempo, de vivência comunitária e vivência de fé, e grupos de presença cristã no mundo.

Os religiosos e religiosas podem encontrar nesse desafio um espaço amplo. Por pressão da hierarquia, aceitaram muitas paróquias, desviando-se, dessa maneira, da sua vocação específica. Foram considerados, em primeiro lugar, como sacerdotes ou auxiliares das paróquias, no caso das mulheres. Não se considerou, em primeiro lugar, sua vocação específica — que, na prática, foi, muitas vezes, e ainda é, sacrificada às exigências da burocracia sacerdotal. Apelaram para os religiosos para não terem de revisar a organização do presbiterato.

É erro pensar que a evangelização, na cidade, constitui algo “complicado”, que precisa de estudos profundos e complexos. Pelo contrário, é algo ao alcance de qualquer cristão porque em si é simples, assim como foi simples, nos tempos de São Paulo, para as pessoas simples que formaram as primeiras comunidades.

O problema não é intelectual, mas estrutural. Nesse sentido, as decisões da hierarquia são muito importantes. Trata-se de decisões muito simples que não exigem muitos estudos teológicos prévios. Basta partir do que já foi estudado, escrito, comentado e dito. Só falta decidir e agir. Para não ter de decidir, é costume procurar refúgio na necessidade de estudos prévios, de conhecimento profundo da realidade. Tudo isso já foi feito e novos estudos não acrescentariam mais nada de importante. Os bloqueios devem-se à falta de vontade.

Acontece na Igreja o que acontece na sociedade civil e no Estado. Os estudos foram feitos, tudo está pronto, mas falta vontade para agir. Por isso devemos rezar para que aqueles que devem decidir tenham a coragem de decidir, aqueles que têm a missão de dirigir tenham a coragem de dirigir, e não se contentem com impedir a evolução necessária. Há necessidade de rezar muito, sim, porque é bastante difícil conseguir que alguém que tenha a obrigação de decidir decida de fato, deixe de buscar refúgio de suas dúvidas no medo do desconhecido e na insegurança. O medo de decidir prolonga a insegurança.

Há necessidade de rezar muito, e sem cessar, para que os que têm autoridade tenham a coragem de utilizá-la para salvar a Igreja, e não para deixá-la parada no caminho. A autoridade foi estabelecida não para manter os costumes e as tradições, e sim para mudá-los, para que o povo não fique dominado por eles. (Os costumes e tradições estão a serviço do povo e não o contrário.) Jesus veio para desqualificar costumes e tradições. Para isso instituiu os Doze, para que continuassem essa luta, e defendessem a liberdade do povo de Deus contra as suas próprias tendências para a escravidão.

Precisamos denunciar aquela astúcia do demônio, que consiste em fazer acreditar que os problemas pastorais são difíceis, exigem muita preparação, muita pesquisa, muitos conhecimentos. Tudo isso serve apenas para adiar indefinida­mente as mudanças necessárias. Nas realidades humanas, nunca há argumentos apodícticos que obrigam a decidir. Somente há razões prováveis. Todavia, uma vez que as razões prováveis se tornam fortes e subsistem durante muito tempo, há obrigação de agir.

Fonte: Vida Pastoral

(Publicado em Maio-Junho de 2002, pp. 10-17)