Deputado denuncia no plenário da Câmara tentativa de golpe

Saída de Severino seria utilizada para colocar ‘impeachmeant’ contra Lula na pauta da casa, de acordo com denúncia do parlamentar Fernando Ferro; Em troca, Severino receberia benefícios políticos de grupo não-identificado. Da Revista Consciência.Net

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O deputado Fernando Ferro, do PT de Pernambuco, foi à tribuna da Câmara dos Deputados nesta quinta (22/9) para relatar uma tentativa de golpe que estaria sendo coordenado pelo presidente da Associação Comercial de São Paulo, Afif Domingos, supostamente em nome de empresários e partidos da oposição.

Um grupo de parlamentares esteve reunido na quarta (21/9) pela manhã com o então presidente da Câmara, Severino Cavalcanti, para alertar – de acordo com Ferro – “para a dificuldade de conduzir aquela sessão pelo evidente constrangimento que havia” diante das denúncias. “Primeiro, S.Exa. [Severino] disse que não tinha mais clima para continuar dirigindo esta Casa e que iria renunciar. Depois ele nos fez uma afirmação preocupante. Alerto os companheiros Parlamentares. Ele foi assediado por forças políticas que o procuraram com uma proposta para que se licenciasse e não renunciasse, obtendo, com isso, vantagens políticas. Em função do afastamento, permitiria que se criasse na Câmara dos Deputados um ambiente para a abertura imediato do processo de impeachment do Presidente Lula”, denunciou Ferro. Segundo o parlamentar, o ocorrido “foi dito com todas as letras” por Severino.

Ferro afirmou que pode comprovar a declaração de Severino, já que estava acompanhado de outros parlamentares do PcdoB, do PT e do PL. “Não quero generalizar que há uma tentativa de golpe contra o Presidente Lula, porque não há, mas há setores com essa compreensão e com esse sentimento”, avaliou. Foi aí que acusou Afif Domingos, presidente da Associação Comercial de São Paulo, de ter procurado o próprio Ferro com a sugestão do impeachment. “Não é por acaso que, na semana anterior ou duas, o Sr. Afif Domingos comandava uma passeata em São Paulo, como uma espécie de ‘Fora Lula’. Isso é de uma gravidade sem precedentes. A história, a memória e a verdade não me permitiriam manter escondida essa informação”, disse.

Ele ponderou dizendo não acreditar que o plano teria efeito, já que o natural substituto na mesa da Câmara seria José Thomaz Nonô, em quem diz confiar. “Quero também, a bem da verdade, dizer com toda a minha franqueza dalma que não acredito que o Deputado José Thomaz Nonô participaria de trama desse porte, porque sei da sua correção e dos trabalhos que tem feito nesta Casa”, declarou. “Agora que, evidentemente, se tentou construir esse ambiente para que, de posse desse poder e desse cenário fosse instalada essa possibilidade, disso eu não tenho a menor dúvida. E para mim fica claro que temos de ter muito cuidado e zelo com o caminho da institucionalidade. É muito grave saber se que existe esse tipo de procedimento. Estou dizendo isso aqui porque tenho provas, porque não sou de falar leviandades, de fazer afirmativas irresponsáveis”.

Ferro disse acreditar que a exposição de Severino nos últimos dias facilitaria a ação do grupo. “Não queremos aqui inocentar ninguém, mas não podemos deixar de reconhecer que havia um ambiente propício para atingi-lo [Severino]. Havia toda uma conjugação de forças que facilitaria isso, o oportunismo, inclusive a oposição, a imprensa e a mídia cobraram porque o PT estava blindando o Severino”. Ele criticou parte da oposição, que estaria a serviço destas ações. “Acredito que a oposição tem que fazer o seu papel de combater e de enfrentar o Governo. Agora as patranhas e artimanhas que querem fazer contra o nosso Governo é inaceitável. É em nome da vergonha e do caráter que temos de ter na condução dos trabalhos desta Casa e da recuperação da sua imagem que faço este pronunciamento”.

Por mais um momento, ele disse confiar em José Thomaz Nonô, mas disparou: “(…) para fazer este pronunciamento fiz questão de conversar com o Deputado Severino Cavalcanti para não passar por irresponsável ou para jogá-lo numa situação que ele tivesse que se explicar, foi confirmado por ele mais uma vez. Além do mais, há testemunhas, companheiros que participaram dessa reunião e que podem efetivamente confirmar o que aqui estou a dizer”.

Afif Domingos negou as conclusões de Ferro. À Agência Nordeste, Severino confirmou que Afif queria que ele pedisse licença. “É verdade”. Da Agência: Ele acrescentou que agradeceu as ponderações de Afif Domingos, que classificou como “meu amigo”, mas preferiu a alternativa da renúncia. “Eu pensei no País. Pensei principalmente no que seria melhor para a Câmara dos Deputados e para o Congresso Nacional. E o melhor seria a renúncia”, disse Severino. Segundo o relato feito por Severino, Afif Domingos disse que a alternativa da licença para tratamento de saúde lhe permitiria maior tempo para escolher o caminho que julgasse mais correto diante da crise e ao mesmo tempo recolher o material necessário para sua defesa no Conselho de Ética da Câmara.

Leia abaixo a íntegra do discurso.

Pronunciamento do Deputado Fernando Ferro, durante sessão da Câmara dos Deputados do dia 22 de setembro de 2005

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Parlamentares, senhoras e senhores, quero trazer a esta Casa um depoimento que acho da maior importância para a memória da Casa e para nossa história política.
Sr. Presidente, nobre Deputado Inocêncio Oliveira e ilustre Deputado Eduardo Gomes, na quarta-feira pela manhã, antes da cassação do Deputado Roberto Jefferson, nós, eu e um grupo de Parlamentares, dirigimo-nos para conversar com o então Presidente Severino Cavancanti, alertando para a dificuldade de conduzir aquela sessão pelo evidente constrangimento que havia, pela denúncia que fora feita. S.Exa. concordou com o fato e nós também, alertamos S.Exa. para um quadro de insegurança e insustentabilidade, caso S.Exa. insistisse em permanecer presidindo a Casa.
Sr. Presidente, nobre Deputado Inocêncio Oliveira, que nos preside neste momento, quero dar um testemunho sobre o Presidente Severino Cavalcanti, porque S.Exa. foi de uma correção política que me impressionou. Primeiro, S.Exa. disse que não tinha mais clima para continuar dirigindo esta Casa e que iria renunciar.
Depois ele nos fez uma afirmação preocupante. Alerto os companheiros Parlamentares. Ele foi assediado por forças políticas que o procuraram com uma proposta para que se licenciasse e não renunciasse, obtendo, com isso, vantagens políticas. Em função do afastamento, permitiria que se criasse na Câmara dos Deputadosum ambiente para a abertura imediato do processo de impeachment do Presidente Lula. Isso é muito grave, Sr. Presidente, porque foi dito com todas as letras pelo então Presidente Severino Cavalcanti.
Estou dizendo isso porque tenho provas para com outros Parlametares e porque conversei com o ex-Presidente Severino Cavalcanti, para não fazer uma afirmação leviana nem uma declaração qualquer.
Aqueles que pensam que não tem um golpe em curso neste País estão dando uma contribuição irresponsável para a vida política. Não quero generalizar que há uma tentativa de golpe contra o Presidente Lula, porque não há, mas há setores com essa compreensão e com esse sentimento.
O Sr. Afif Domingos foi quem me procurou para fazer esse tipo de sugestão. Não é por acaso que, na semana anterior ou duas, o Sr. Afif Domingos comandava uma passeata em São Paulo, como uma espécie de “Fora Lula”. Isso é de uma gravidade sem precedentes. A história, a memória e a verdade não me permitiriam manter escondida essa informação.
Digo isso, Sr. Presidente, porque, repito, isso é muito grave. Não quis falar disso antes para não virem depois dizer que estávamos querendo criar uma contra-ofensiva, uma contraposição para tentar abafar a situação do Deputado Severino Cavalcanti, que cometeu um deslize, sim, e que nós, do Partido dos Trabalhadores, sempre achamos que ele deveria ter direito de defesa e que dentro da Bancada do PT fomos pressionados por uma ação dura e direta sobre o Deputado Severino Cavalcanti, mas porque sabíamos que politicamente o Severino Cavalcanti não era o principal alvo da operação.
Quero também, a bem da verdade, dizer com toda a minha franqueza dalma que não acredito que o Deputado José Thomaz Nonô participaria de trama desse porte, porque sei da sua correção e dos trabalhos que tem feito nesta Casa.
Agora que, evidentemente, se tentou construir esse ambiente para que, de posse desse poder e desse cenário fosse instalada essa possibilidade, disso eu não tenho a menor dúvida. E para mim fica claro que temos de ter muito cuidado e zelo com o caminho da institucionalidade.
É muito grave saber se que existe esse tipo de procedimento. Estou dizendo isso aqui porque tenho provas, porque não sou de falar leviandades, de fazer afirmativas irresponsáveis. Estou dizendo isso porque quero defender a Casa dos assédios, das tentativas de envolvê-la solertemente como se aqui todo mundo fosse comprado.
Está aí a prova do caráter do Severino Cavalcanti que se recusou a participar disso. Talvez seja difícil para alguns de nós, porque era muito fácil atirar pedras em Severino Cavalcanti. Ele estava exposto, com toda a mídia batendo nele, inclusive com razão, por uma série de fatos.
Não queremos aqui inocentar ninguém, mas não podemos deixar de reconhecer que havia um ambiente propício para atingi-lo. Havia toda uma conjugação de forças que facilitaria isso, o oportunismo, inclusive a Oposição, a imprensa e a mídia cobraram porque o PT estava blindando o Severino.
A operação, o jogo de xadrez por baixo tinha mais pedras rolando, a operação era mais subterrânea. E não poderíamos participar desse golpe, Deputado Inocêncio Oliveira.
É muito duro dizer isso, mas não posso ficar calado em nome da verdade, da democracia e em nome de condenar os setores golpistas existentes em nosso País. Ninguém se iluda, porque esses setores existem.
Acredito que a Oposição tem que fazer o seu papel de combater e de enfrentar o Governo. Agora as patranhas e artimanhas que querem fazer contra o nosso Governo é inaceitável. É em nome da vergonha e do caráter que temos de ter na condução dos trabalhos desta Casa e da recuperação da sua imagem que faço este pronunciamento.
Sei que é provocante esta minha fala, mas digo, com toda a tranqüilidade, e volto a explicitar, que não acredito que o Deputado José Thomaz Nonô pudesse contribuir com esse tipo de trama. Mas não posso, de forma nenhuma, deixar de reconhecer que a tentativa foi feita.
Isso que aqui falo, porque inclusive para fazer este pronunciamento fiz questão de conversar com o Deputado Severino Cavalcanti para não passar por irresponsável ou para jogá-lo numa situação que ele tivesse que se explicar, foi confirmado por ele mais uma vez. Além do mais, há testemunhas, companheiros que participaram dessa reunião e que podem efetivamente confirmar o que aqui estou a dizer.
Sr. Presidente, Sras e Srs. Deputados, senhoras e senhores que nos assistem, quero dizer que não tenho dúvidas de que vivemos um momento dramático. O País vive crise política de imensa gravidade; há o descrédito desta Casa e o processo de desgaste da vida pública. Mas creio que não podemos estilhaçar todos os espaços de institucionalidade deste País. Temos de combater a corrupção e recuperar brevemente para esta Casa a sua Mesa, dar-lhe dimensão e enfrentar os desafios, sua agenda de trabalho legislativo. Não podemos permitir que os interesses menores e perigosos de setores que não são democráticos, que não têm a democracia como referência, prevaleçam.
Enquanto parte da Bancada do PT e na condição de expressão da fala da Liderança, quero dizer que nos sentimos na obrigação de efetivamente denunciar essa manobra, condená-la e repeli-la. Não nos descuidemos de cada passo que se dá nesta Casa. Aqui tudo se vê e tudo se ouve. E para aqueles que pensam que fazem tudo escondido, aqueles que acham que a conspiração permanente é o bom caminho, aprendam que não existe mistério. Tudo aparece.
Quero citar Lucas, Capítulo 8, Versículo 18: Não há mistério que não se revele. Não há nada escondido que não apareça. Com toda a firmeza, rechaçamos a absurda e irresponsável tentativa de quererem levar o País a uma aventura e criar um clima de impeachment, que não está sendo conseguido nas ruas, de criar um clima contra o Governo, que não está sendo conseguido por meio de tentativas de mobilizações.
É evidente que o Governo enfrenta o desgaste, mas tem condições de se recuperar, pois responde à economia e atende a interesses do País. É certo que sofre um problema de articulação política — uma crise política como em qualquer regime democrático do mundo. Isso é natural. No entanto, que se combatam esses fatos na grande e boa política, na política com p maiúsculo, e não nas patranhas, artimanhas e nas conspirações mais vulgares e mais rasteiras, como as que pretenderam envolver o Governo do Presidente Lula.
Sr. Presidente, queria desabafar e dizer o que sei, pois não é do meu feitio esconder o que sei, como não é do meu feitio caluniar ninguém, mas sustentar minha palavra, pois houve provas e pessoas que presenciaram esta lastimável tentativa denunciada pelo ex-Presidente Severino Cavalcanti.
Muito obrigado.

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A Agência Nordeste publicou material sobre o assunto aqui e aqui (publicado no Portal Terra). Endereço da AN: www.agne.com.br

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Revista diária fundada em 13 de maio de 2000.

Seções: Opinião.