Declarações de Bolsonaro ‘nos feriram a dignidade’, diz ex-presa política. Comissão Interamericana será acionada

Por Vitor Nuzzi

Em solidariedade à procuradora Eugênia Gonzaga, exonerada hoje (1º) da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, parentes de vítimas da ditadura e ativistas acompanharam a entrevista coletiva no Ministério Público Federal em São Paulo. Integrante da comissão de familiares, Amelinha Teles afirmou que foi encaminhada carta à Comissão Interamericana de Direitos Humanos denunciando a situação no Brasil, com destaque para declarações de Jair Bolsonaro sobre Fernando Santa Cruz, desaparecido em 1974 e pai do atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Felipe Santa Cruz.

“As declarações do presidente, violentas, nos feriram a dignidade”, afirmou Amelinha, que também prestou solidariedade à família Santa Cruz. “Dona Elzita sempre nos representou em todos os momentos”, lembrou a ativista, em memória da mãe de Fernando Santa Cruz. Ela morreu em junho, aos 105 anos, sem saber do paradeiro do filho. Eugênia contou que dona Elzita doou sangue três anos atrás, para o banco de dados que visa à identificação de possíveis vítimas da ditadura. Por motivos de segurança, o resultado das coletas está em vários locais, inclusive fora do Brasil.

Amelinha também recordou dos movimentos para que as ossadas da vala clandestina de Perus pudesse, enfim, ser examinadas. Na primeira conversa com Eugênia, anos atrás, as ossadas estavam “abandonadas na Unicamp”. Em 2014, foi formado o Grupo de Trabalho Perus (GTP), com a Comissão Especial, as secretarias nacional e municipal (em São Paulo) de Direitos Humanos e a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Desse esforço conjunto surgiu o Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (Caaf).

“Vocês nunca vacilaram em nos dar todo o apoio”, disse a militante, dirigindo-se a Eugênia e ao procurador Marlon Weichert. “A gratidão está presente em nosso coração eternamente.” Amelinha não tem dúvida de que a exoneração de Eugênio é um ato de retaliação do presidente, cujas declarações foram “irresponsáveis, levianas”.

Momento de resistência

Diretor-executivo do Instituto Vladimir Herzog, o ex-secretário nacional e municipal de Direitos Humanos Rogério Sottili também se solidarizou com Eugênia e disse que o IVH vai acompanhar com atenção e tomar as medidas possíveis para garantir que a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos continue exercendo seu papel. “Qualquer indicação que seja contrária ao perfil merece ser questionada”, disse Sottili, que teve papel importante na formação do GTP. “Estamos vivendo um momento difícil, de resistência. Mas talvez seja necessário para tomar medidas que não foram tomadas antes.”

A ex-vereadora Tereza Lajolo, relatora da CPI do Cemitério de Perus na Câmara paulistana, disse que os procuradores assumiram “a luta histórica” e considera fundamental que o trabalho de análise das ossadas não seja interrompido. Um desafio, considerando que a manutenção dessa atividade depende de recursos federais e municipais. “Esse trabalho tem de ser mantido”, afirmou, citando também o Caaf. “Isso é fundamental para o Brasil.”

Em nome da Comissão de Direitos Humanos da OAB de São Paulo, o ex-vereador e ex-deputado Ítalo Cardoso manifestou preocupação com o momento político. “A democracia brasileira, todo esse trabalho que desenvolvemos nestes 40 anos, está sob risco”, afirmou.

Fonte: Rede Brasil Atual

 

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