Da síndrome disjuntiva rumo a uma cultura conectiva

O processo de humanização comporta, ao longo do seu curso, uma considerável diversidade e alternância de situações. O (co)existir humano corresponde a uma malha de relações necessariamente tecidas de situações de confluência, alternadas com situações de conflito e de ruptura.

Em meio à rotina cotidiana, alternam-se (por vezes, até coexistem), com efeito, experiências existenciais de impasse, cuja superação demanda atitudes de dissenso, de conflito e de ruptura, pressupondo, neste caso, decisões disjuntivas, do tipo: ” ou… ou…”. Há, sim, situações existenciais que implicam necessariamente escolher um único caminho entre dois ou mais enfrentados, dada sua natureza antagônica ou mutuamente excludente. Trata-se de situações-limite, radicalmente inconciliáveis, pelo menos se e quando o objetivo almejado é mesmo o de seguir-se buscando um horizonte libertário. Nesses casos-limite, o próprio diálogo se torna inviabilizado. Paulo Freire lembrava que o diálogo é sempre possível e desejável, não apenas entre os iguais, como também entre os diferentes… desde que não antagônicos. Freire aqui faz eco ao dito evangélico, de que “Não se pode servir a dois senhores.” Teimar contra tais situações implica experiências desastrosas.

Por outro lado, nossa convivência comporta um imenso leque de situações embaraçosas, desafiadoras, por se tratar de casos implicando diferenças consideráveis, mas não necessariamente antagônicas.

Nas linhas que se seguem, começamos por explicitar o sentido que estamos aqui atribuindo à expressão “síndrome disjuntiva”, e, em seguida, buscamos também explicitar o que estamos entendendo por “cultura conectiva”.

Da síndrome disjuntiva

Por “síndrome disjuntiva” entendemos a crescente tendência dominante, nas sociedades de hoje, de assumir como excludentes situações, experiências ou atitudes diferentes daquelas com as quais me identifico, ainda que, examinando-as bem, sejam apenas diferentes, mas não antagônicas das minhas.

Não se trata de jogo de palavras, mas de situações concretas, cujo equacionamento requer dissernimento e conduta adequados por parte de quem se vê implicado. Algumas ilustrações podem servir como pistas concretas, na busca de equacionar ou superar impasses do cotidiano, em diferentes esferas da realidade.

No campo economico, por exemplo, não é raro cometer-se equívoco, ao se negar trabalhar, de forma articulada, com realidades diferentes, mas não propriamente antagônicas. É o que se dá, no caso de uma experiência de produção comunitária. Um caso recorrente é o que se enfrenta em vários assentamentos de Reforma Agrária, cujos protagonistas se posicionam diversamente em relação à alternativa de trabalho exclusivamente coletivo e, por outro lado, a opção de trabalho em parcelas exploradas por unidade famíliar. Não raramente, as deliberações assumem um carater disjuntivo: ou uma situação ou a outra, o que acaba satisfazendo a uns, e desagradando a outros. Algumas experiências, porém, foram bem sucedidas, e atendendo às distintas partes, ousando conciliar as duas situações. Uma parte da terra é consagrada apenas ao trabalho coletivo, enquanto se permite a cada unidade famíliar explorar uma pequena parcela. O que antes parecia tratar-se de situações estritamente excludentes acabou revelando-se conciliável. Em outras palavras, o que antes parecia uma situação disjuntiva revelou-se, ao final uma situação animada por uma cultura conectiva.

Igualmente, podemos encontrar no plano político, exemplos tidos inicialmente como antagônicos que, após cuidadoso exame, mostraram-se passíveis de coexistência. Em algumas experiências (do passado e do presente), constatam-se casos de uma radical oposição entre Igualdade e Liberdade. Para certa corrente que se auto-proclama marxista, o exercício da igualdade só é possível lá onde se proíba a Liberdade, uma vez que, destronada de seus privilégios a burguesia, enquanto classe, tudo fará para reverter a situação que agora lhe é adversa, donde a suposta necessidade de se negar a Liberdade, em suas diversas manifestações. Reconhecendo-se, embora, algum fundamento neste arrazoado, o que se produziu, no entanto, foi uma exacerbação e abuso desta condição, ao ponto de, em nome do Socialismo e da Classe Trabalhadora, abolir-se toda perspectiva de Liberdade. Sucede que, Igualdade e Liberdade no plano libertário de humanização, não podem e não devem ser assumidos como valores necessariamente indissociáveis, sob pena de se desfigurar o próprio processo de humanização.

O mesmo se dá na esfera cultural. São inúmeros os casos do dia a dia que implicam uma aparente contradição entre situações vivenciadas, induzindo a não poucos a uma tendência à “sindrome disjuntiva”. Citemos, de passagem, alguns casos ilustrativos. No âmbito dos movimentos sociais populares, é frequênte a tendência a declarações do tipo: “Nós somos operários, e só nos interessam as lutas operárias”, “Nós somos camponeses, e nos bastamos enquanto Classe”, “Militamos no movimento feminista, e só a ele nos dedicamos”, “Fazemos parte do movimento LGBT, e só dele só nos ocupamos”, etc., etc. Nada a objetar, em relação a qualquer um deles, quanto ao empenho em sua respectiva trincheira de luta, a não ser quanto ao exclusivismo, quanto a não co-responsabilidade com as lutas de uns e outros, isto é, com as llutas do conjunto da Classe Trabalhadora. O mal é não colocar os interesses desta em primeiro plano, ao qual devem estar subordinados até as lutas específicas de cada movimento. Em busca de despertar a consciência, nesse sentido, convém lembrar que Classe Trabalhadora comporta gênero (homens e mulheres), comporta etnias (Povos Indígenas, Quilombolas, Povo Roma (“Ciganos”), etc.; comporta especialidade (Traballhadoras e Trabalhadores do Campo e da Cidade), comporta gerações (Crianças, Adolescentes, Jovens, Idosos…), etc.

Aqui, não se está a insinuar qualquer idéia irrazoável de ubiquidade, como se todo militante tivesse que estar presente, ao mesmo tempo, em todas as trincheiras de luta. O que defendemos é que, em cada movimento específico, se reflitam os desafios e as perspectivas, não apenas de uma categoria, mas do conjunto da Classe Trabalhadora.

Os exemplos acima ilustrados, situam-se no âmbito coletivo, mas importa observar a necessidade de ser estender os mesmos critérios às relações também pessoais. Com efeito, ocorrem situações em que cada pessoa também é confrontada com circunstâncias aparentemente contraditórias que, uma vez bem examinadas, se mostram apenas diferentes, ou até complementares. Nas relações cotidianas na família, no trabalho, nos estudos, nos movimentos, etc., não são poucas as vezes em que nos defrontamos com tais situações, diante das quais o impulso inicial pode ser de caráter disjuntivo (“ou é isto, ou é aquilo”). Examinando-se, porém, mais detidamente tal situação, com discernimento, chegamos à conclusão de que de fato, não se trata de situações opostas, por força do que somos compelidosa a escolher entre uma e outra, mas as duas situações resultam conciliáveis.
Seja quanto aos casos coletivos seja quanto aos casos de âmbito pessoal, um critério eficaz a ter sempre presente é o principio dialético da unidade na diversidade.

Por uma cultura conectiva

Também aqui começamos por reconhecer que nem sempre é possível o exercício nas relações do chão do cotidiano, exercitar-se uma cultura conectiva. Fazemos, inclusive, questão de prevenir quanto a situações que não permitem o exercício de uma cultura conectiva do ponto de vista ético-político. Situações há – ainda que em número menor -, em que não se pode ou não se deve insistir em conciliar o inconciliável, sob pena de se agredir critérios éticos elementares. A este propósito, aliás, o atual contexto histórico tem-se revelado pródigo. O noticiário midiático e as redes sociais fazem circular a este respeito, casos esdrúxulos, de quem se atreve a conciliar o inconciliável, o que se dá com frequência, por conta das negociatas dos acordos de cúpulas, do aliancismo, do Auferir vantagens ilícidas a qualquer custo, em breve, por força do apelo ao discurso da razão cínica. A exemplo do que acima assinalamos, no caso da síndrome disjuntiva, quanto à sua incidência no âmbito coletivo, de modo semelhante procedemos também em relação ao exercício da cultura conectiva. Esta também, seja para o bem, seja para o mal, incide igualmente tanto no plano coletivo, quanto no plano individual.

A busca do exercício adequado de uma cultura conectiva, inspira-se nos princípios dialético da interação universal (“Tudo está ligado a tudo”) e do movimento, ou da transformação (“Πάντα Ρεί”: tudo flui, Como dizia Heráclito). Quanto ao primeiro elemento da Dialética, percebemos que a realidade é complexa, também porque os elementos que a constituem se dispõem numa infinita diversidade, mas igualmente compreendendo um fio que os atravessa e os une (a unidade na diversidade), de modo que nela tudo se apresenta conectada ou como expresso na sabia canção “Tudo está interligado”, da qual fazemos questão de destacar um trecho:

TUDO ESTÁ INTERLIGADO
COMO SE FÔSSEMOS UM
TUDO ESTÁ INTERLIGADO
NESTA CASA COMUM

O cuidado com as flores do jardim,
com as matas, os rios e mananciais
O cuidado com o ar e os biomas
com a terra e com os animais

O cuidado com o ser em gestação
co´as crianças um amor especial
O cuidado com doentes e idosos
pelos pobres, opção preferencial

A luta pelo pão de cada dia,
por trabalho, saúde e educação
A luta pra livrar-se do egoísmo
e a luta contra toda corrupção

O esforço contra o mal do consumismo
a busca da verdade e do bem
Valer-se do tempo de descanso,
da beleza deste mundo e do além

O diálogo na escola e na família
entre povos, culturas, religiões
Os saberes da ciência, da política,
da fé, da economia em comunhão

O cuidado pelo eu e pelo tu
pela nossa ecologia integral
O cultivo do amor de São Francisco
feito solidariedade universal.

https://www.youtube.com/watch?v=ZAxoVbeaSwk

A busca de uma cultura conectiva passa por diversos caminhos, de acordo com a infinita diversidade de componentes culturais, em diversos lugares e tempo. Há no entanto, algumas pistas que podem nos ajudar, nessa direção, a partir do chão das relações cotidianas. Uma dessas pistas tem a ver com nosso processo formativo contínuo, ao lono do qual vamos aprimorando nossa capacidade perceptiva, nosso empenho incessante de ver melhor o que antes não enxergávamos ou víamos mal, de escutar coisas que antes não ouvíamos ou ouvíamos mal, de sentir e de intuir, em breve, de ler, e interpretar e compreender os múltiplos sinais que a vida nos oferece, dia após dia. Esta capacidade, é este exercício contínuo de aprendizagem e de aprimoramento de nossa capacidade perceptiva que nos permitem posicionar-nos criticamente diante dos desafios que enfrentamos, bem como intervir nessa mesma realidade, em busca da construção de um novo modo de produção, um novo modo de consumo e um novo modo de gestão societal, em harmonia com o Planeta e com toda a comunidade dos viventes.

É claro que um tal horizonte persegue-se, processualmente, é fruto de incessante esforço coletivo e pessoal, que não se alcança por um golpe de vontade ou por palavras de ordem: vai-se construindo, nunca resultará acabado. Por outro lado, trata-se de um desafio, cujo enfrentamento exitoso é fruto de um conjunto articulado de ações, dentre as quais um cultivo da memória histórica do legado da humanidade e dos nossos diferentes povos, em lugares e tempos diversos, incluindo o cultivo de clássicos e contemporâneos de referência reconhecida; do exercício contínuo das artes, em todas as suas manifestações; da superação da dicotomia entre trabalho manual e trabalho intelectual; adequada articulação e costura do tempo (passado-presente-futuro); exercício da mística revolucionária, capaz de manter acesos os compromissos coletivos e pessoais com a construção desde já, ainda que modo molecular, das bases de uma nova sociedade; a contínua busca de se aplicar isto, seja no processo organizativo, seja no processo formativo, seja no processo de mobilização das forças sociais historicamente vocacionadas a uma vida em plenitude, vocacionadas à Liberdade, apesar e para além dos limites humanos.

João Pessoa, 18 de maio de 2017.

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