Da dupla cegueira e da dupla cura (Ângelus de hoje)

Segue o breve e denso pronunciamento do Papa Francisco, por ocasião da hora do Ângelus (meio dia, horário de Roma):

“Caros irmãos e irmãs!

O Evangelho de hoje nos apresenta o episódio do cego de nascença, a quem Jesus dá a vida. A longa narrativa começa com um cego que começa a enxergar, e encerra-se – e isto é curioso – com os supostos videntes que continuam a permancer cegos na alma.
O milagre é contado por João em apenas dois versículos, porque o evangelista quer chamar a atenção, não para o milagre em si, mas para aquilo que se passa depois, sobre as discussões que suscita.

Quantas vezes uma boa obra, uma obra de caridade suscita discussões, porque há alguns que não querem enxergar a verdade.
O evangelista João quer chamar a atenção sobre isto que também acontece em nossos dias, quando se faz uma boa obra. O cego curado é interrogado, primeiro, pela multidão perplexa: viram o milagre e o interrogam. Depois, ele é interrogado pelos doutores da Lei. E estes também interrogam os pais dele. Enfim, o cego tem sua fé, e esta é a graça maior que Jesus lhe fez. Não só de vê-Lo, mas de conhecer a Jesus como a Luz do mundo.

Enquanto o cego se aproxima progressivamente da Luz, os doutores da Lei, ao contrário, cada vez mais mergulham em sua cegueira interior. Confinados em sua presunção, acreditam já possuír a luz, razão por que não se abem à verdade de Jesus. De tudo fazem para negar a evidência. Põem em dúvida a identidade do homem curado. Em seguida, negam a ação de Deus na cura, tomando como desculpa que Deus não opera em dia de sábado. Até chegam a duvidar de que aquele homem tivesse nascido cego. O fechamento deles à Luz torna-se agressiva, materializada na expulsão do homem curado, do templo.

Ao contrário disto, o caminho do cego constitui um percurso em etapas. Parte do conhecimento do nome de Jesus. Não O conhece. Dizia: “o homem que se chamava Jesus fez lama e a espalhou sobre meus olhos”. Em seguida, ante as insistentes perguntas dos doutores, o considera, primeiro, um profeta; depois, um homem perto de Deus. Após ser afastado do templo, expulso pela sociedade, Jesus o encontra de novo, e lhe abre os olhos, pela segunda vez, revelando-lhe sua própria identidade: “Eu sou o Messias”, assim lhe diz. A essa altura, aquele que era cego, exclama: “Eu creio, Senhor!” E se põe diante de Jesus.

Eis uma parte do Evangelho que faz ver o drama da cegueira interior de tanta gente. Inclusive a nossa, porque nós também temos, algumas vezes, momentos de cegueira interior. Por vezes, a nossa vida é semelhante àquela do cego que se abriu à Luz, que se abriu a Deus, que se abriu à Graça. Nâo raro, é um pouco como aquela dos doutores da Lei: do alto do nosso orgulho, julgamos os outros, até ao Senhor.

Hoje, somos convidados a abrir-nos à Luz de Cristo, para dar frutos em nossa vida, para eliminar comportamentos que não são cristãos. Todos somos cristãos, mas todos nós, todos, temos, algumas vezes, comportamentos que não são cristãos, comportamentos que são pecados, e disto devemos arrepender-nos. E a eliminar esses comportamentos para caminharmos decididamente no caminho da santidade, que tem origem no Batismo. No Batismo, somos iluminados, a fim de que, como lembra São Paulo, “possamos comportan-nos como filhos da luz, com humildade, paciência e misericórdia.” Esses doutores da Lei não tinham nem humildade, nem paciência nem misericórdia.

Hoje, eu lhes proponho: quando retornarem à sua casa, tomem o Evangelho de João, e leiam esse trecho do capítulo 9. É este. Vai fazer-lhes bem, porque assim, vocês verão esse caminho da cegueira à luz, e aquela outra estra cativa em direção a uma cegueira mais profunda. E perguntemo-nos: como é o nosso coração? Como é meu coração, como é seu coração, como é o nosso coração?

Eu tenho um coração aberto ou um coração fechado? Aberto ou fechado em relação a Deus? Aberto ou fechado em relação ao próximo? Sempre temos em nós algum tipo de fechamento vindo do pecado, vindo do erro. Não tenhamos medo! Não tenhamos medo! Abramo-nos à Luz do Senhor! Ele está sempre a nos esperar. Ele está sempre a nos esperar! Para fazer-nos ver melhor, para nos dar mais luz, para nos perdoar. Não esqueçam isto: Ele sempre está a nos esperar.

À virgem Maria confiemos o caminho quaresmal, para que também nós, como o cego curado com a graça de Cristo, possamos vir à Luz, caminhar mais adiante na Luz, e renascer para uma vida nova.”

Neste link, veja o pronunciamento:

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