Copa no Brasil: “Os interesses da FIFA são meramente financeiros”

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Em entrevista coletiva organizada nesta sexta-feira, dia 29, pelo Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas, Marcelo Braga, da Central de Movimentos Populares, afirmou com clareza: “Os interesses da FIFA são meramente financeiros. E o Brasil é o país do mundo que pode oferecer isso hoje”.

A afirmativa foi uma resposta ao jornalista da Folha de São Paulo que sugeriu que a FIFA ou o COI poderiam tirar os eventos do Brasil, caso não houvesse a flexibilização de uma série de legislações nacionais. Para ver mais sobre as “adequações” aos padrões FIFA e COI, clique aqui. “É uma chantagem absurda achar que temos que aceitar todas as imposições, sob o risco de nos tirarem os megaeventos. No cenário de crise mundial, quem poderia recebê-los às pressas?”

O assunto mais abordado na coletiva foram as remoções forçadas que estão sendo praticadas no Rio e em outras sedes da Copa. Segundo Carlos Vainer, professor titular da UFRJ, entre 80 e 100 mil pessoas serão removidas de suas casas por conta dos megaeventos. No Rio, os afetados, em sua maioria, são os moradores pobres que estão nas cercanias dos equipamentos esportivos e em torno das vias que serão construídas: Transcarioca, Transoeste e Transolímpica.

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Além destes, moradores de comunidades como Cantagalo, em Ipanema, e Estradinha, em Botafogo, também estão sendo removidos. Mesmo com laudos de engenheiros comprovando que não estão em áreas de risco, os moradores sofrem com o assédio moral da prefeitura, que parece não querer este perfil de população na Zona Sul da cidade. A prefeitura vem inclusive trabalhando para tornar áreas seguras em áreas de risco. Isto porque, na Estradinha, casas foram demolidas e o entulho permanece lá. “A qualquer momento este entulho pode descer”, afirma Irmã Fátima, umas das lideranças do local.

O fantasma das comunidades da Vila Autódromo, Arroio Pavuna e Canal do Anil são vias que passarão no seu entorno. As mais de 10 mil remoções que devem acontecer por conta da construção da Transolímpica, Transcarioca e Transoeste, além das vias de acesso ao Engenhão, são injustificáveis, segundo Vainer. “Em pleno século XXI, investir em estradas para melhorar o transporte urbano é um absurdo”.

Fransciscleide relatou o drama vivido pelos moradores da favela do Metrô. Há um ano não vivem mais em paz. Das 800 moradias da comunidade, hoje restam apenas 400. Cem famílias foram mandadas para Cosmos, área dominada pelas milícias, a 70km de distância da moradia original. O restante está provisoriamente na favela do Metrô 2, mas já sabem que nem todas poderão voltar para a moradia original.

Segundo Fransciscleide, a saúde dos moradores está seriamente afetada, por viverem há um ano em estado permanente de atenção. “A qualquer momento eles podem vir aqui derrubar nossas casas, como já fizeram com outras pessoas”.

Ficou clara a relação da violação dos direitos humanos, sobretudo do direito a moradia, com os mega-eventos que serão realizados no Rio de Janeiro. Até mesmo o núcleo de terras da defensoria pública, o único órgão que parecia querer ajudar os atingidos, foi desmantelado por influência do poder executivo. De fato, o sentimento é de uma cidade de exceção.

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