Conversa, segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Nos anos 70, na música “Partido Alto”, Chico Buarque cantava que “Deus é um cara engraçado que gosta de brincadeira”. Woody Allen dizia que ele tem grande senso de humor. Só não tem de que rir quando olha esse mundo do jeito que andam as coisas.

O problema é que, com raras exceções, as autoridades e representantes das religiões não têm o mesmo humor de Deus. É verdade que o Dalai Lama sempre aparece sorrindo. E o papa Francisco trouxe um pouco de alegria e humor aos ambientes soturnos e meio apavorantes do Vaticano. No entanto, mesmo assim, parece que religião não rima com humor. E é preciso consertar isso.

De fato, o riso é uma das coisas mais reprimidas pela sociedade, em todo o mundo e em todas as eras. Penso que é porque o riso tem sempre uma face rebelde e transgressora. Para rir, a gente tem de não se levar tão a sério. E, em princípio, ninguém quer isso: não ser levado a sério. Mas, é claro, existem dois tipos de riso. Existe o riso que vem da consciência do prazer que o outro me dá, da alegria de estar juntos. É um riso afetuoso e que torna a vida mais leve e nos faz como que voar… É o riso das crianças, o riso da inocência, o riso do amor. Esse riso pode ser crítico e subversivo a uma seriedade artificial e pesada. Mas, ele não é gozação com o outro. Não se alimenta do sarcasmo e da destruição do outro. Esse segundo é uma caricatura do verdadeiro sorriso, mas muitas vezes, é confundido. E as pessoas usam esse segundo tipo de humor para a crítica política e o que, hoje, se chama “o politicamente não correto”.

Esses grupos terroristas árabes ou de cultura islâmica fundamentalistas foram no início armados pelo império americano. O governo americano usou esses grupos para combater os russos em alguns países que queriam ser independentes da União Soviética. Depois perderam o controle desses grupos que, agora, não perdoam o Ocidente por todo o mal que os americanos e seus aliados fizeram no Iraque, no Afeganistão, na Síria e em outros países, interessados no petróleo e nas riquezas e não em qualquer causa humanitária. Agora, esses grupos extremistas querem castigar o Ocidente e não escolhem os seus alvos.

É claro que ninguém de nós pode aceitar que se assassinem jornalistas pelo fato de que eles desrespeitaram a figura do profeta Maomé. Todos nós lamentamos a morte dos jornalistas e nos solidarizamos com suas famílias.

Mas, é preciso olhar o fato de forma mais profunda. E é preciso sim ver que por trás desse fato terrível e lamentável, há sim uma impotência dos grupos minoritários que não veem outra forma de mostrar ao Ocidente imperial que ele não pode fazer e dizer tudo o que quiser, sem nenhuma responsabilidade.
Uma amiga me contou que em um número recente da tal revista Charles Hebdo, se via uma caricatura da Santíssima Trindade em um coito anal a três. Que sentido tem isso? O que com isso eles querem dizer? Será que esse tipo de baixaria tem algo a ver com liberdade de imprensa? É claro que nem por isso os cristãos têm o direito de defender a fé com terrorismo, até porque não se trata de defender a fé e sim de exigir respeito à cultura dos outros.

De todo modo, é preciso que a França e o Ocidente se revejam em sua forma de tratar as outras culturas. E quanto a nós, é bom recuperarmos o riso como expressão de caminho espiritual.

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