Contra o governo e por democracia de fato, mais rua e frente ampla ‘até doer’

Por Vitor Nuzzi

Em debate do Pacto pela Democracia, organizações também defendem aposta central na educação. “População brasileira é a única no mundo que elege seus inimigos”, diz professor

Contra uma democracia “em tese” ou só para alguns, a saída é ir para a rua, apostar na educação e organizar uma frente realmente ampla, afirmaram, em resumo, os participantes de evento organizado pela plataforma Pacto pela Democracia, que ontem (2) à noite reuniu ativistas e organizações sociais no Teatro Fecap, no bairro da Liberdade, região central de São Paulo.

Para o jornalista Juca Kfouri, essa frente não pode se limitar à esquerda: citando um amigo, o também jornalista e poeta pernambuco Marcelo Mario de Melo, ele afirmou que precisa ser ampla “até doer”. “Se não doer, não vai ser frente ampla”, completou. O mote seria repetido por outros convidados.

Para Juca, apresentador do programa Entre Vistas, da TVT, enquanto a chamada “grande imprensa”, como definiu, chama Fidel Castro e Nicolás Maduro de ditadores, falta coragem ao se referir ao governo Bolsonaro: “Vivemos sob um governo de extrema-direita, (sem) nenhum apreço pela democracia”. Ele lembrou de quando tinha 20 anos e atuava em organização clandestina de combate à ditadura: “Jamais imaginei que viveria de novo o clima que estamos vivendo“.

Os riscos à democracia são evidentes, observa o professor Helio dos Santos, conselheiro da Oxfam Brasil, citando ataques à imprensa e o chamado excludente de ilicitude, que “já existe em alguns locais”, afirmou, ao lembrar a morte, em abril, do músico Evaldo Rosa dos Santos, cujo carro foi alvejado por 83 tiros disparados por militares, e do catador Luciano Macedo, no Rio de Janeiro. Ele também apontou a “fúria, raiva desmedida” do governo contra as universidades públicas, observando que pela primeira vez, segundo o IBGE, essas instituições tem alunos negros como maioria.

País medonho

É preciso “prestar atenção na movimentação do governo e dos aliados” e não ceder a provocações, sugeriu Helio. “Ninguém extingue movimentos sociais. O Brasil só não é um país mais medonho por conta de todos esses movimentos”, afirmou. Esses setores estão “vivos e atuantes”, acrescentou, destacando a reação rápida no caso dos brigadistas presos em Santarém (PA) e defendendo que as organizações se antecipem mais aos fatos. “Nossa missão não é contra o governo Bolsonaro, é a favor do Brasil.”

Foi o que também defendeu a advogada Silvia Souza, assessora da Conectas. “A gente entrou numa lógica de reação, mas os passos desse governo podem ser previsíveis. À pergunta inicial da mediadora do debate, jornalista Tatiana Vasconcelos, sobre o risco à democracia, ela ponderou: “De que democracia estamos falando? Depende do lugar onde você mora, da cor da sua pele, do que você carrega ou não no bolso”. Ela criticou a estratégia do governo de “legislar por decreto”: “Essa sistemática vulnerabiliza a democracia e coloca em risco a segurança jurídica”.

Para o economista e filósofo Joel Pinheiro da Fonseca, apresentado como “uma das principais vozes do campo liberal”, as instituições vêm trabalhando, mas sob ataque. Ataques ao Congresso, ao Supremo Tribunal Federal e “à própria ideia de fazer política”. E o mais grave, apontou: “Está acontecendo com aprovação de uma parcela expressiva da população. Não só robôs. Tem muita gente real achando bom e querendo mais”. É preciso identificar o porquê dessa ofensiva aos direitos humanos, ao meio ambiente e à própria democracia. “Por que tanta gente odeia tanto esses valores e essas instituições?”, questionou.

Importância da política

A democracia também se traduz em qualidade de vida, aponta a cientista política Mônica Sodré, diretora-executiva da Rede de Ação Política pela Sustentabilidade (Raps), lembrando, por exemplo, que no Brasil metade da população não conta com saneamento básico e um de cada três cidadãos não tem acesso à internet. Também não é possível renegar o papel do parlamento e dos partidos, importantes não apenas para organizar as demandas da sociedade e participar de eleições, mas para fazer frente aos retrocessos democráticos. Segundo ela, a Raps inclui um diversificado leque de pensamentos políticos, “do Novo ao Psol”, reunindo 7% do Congresso.

O debate recai sobre a necessidade de reagir, de ir às ruas. Juca fala em “apatia”, enquanto Helio aponta certa “anestesia moral” da sociedade, além da descrença na política. “Demonizar os partidos foi uma coisa que a ditadura fez muito bem”, afirmou. “Existem lideranças, estão reagindo nas bases”, avalia Silvia. “Essas mesmas tecnologias que criam problemas colocam a possibilidade de resolver e acabar com esse absurdo que está se tornando normal. Somos capazes de colocar (no poder) coisa muito melhor”, diz Joel Fonseca, contrário ao que identifica como “polarizações” políticas.

Incluir várias corrente políticas em uma frente “não dói”, afirma ainda Helio, sobre a frase citada por Juca no início da conversa. “Dá para abraçar numa boa”, brinca. “A população brasileira é a única no mundo que elege os seus inimigos.”

Educação e mobilização

A segunda parte do ato, denominado Em Frente pela Democracia, reuniu representantes de pelo menos 30 organizações, como o professor José Álvaro Moisés (Universidade de São Paulo), Karla Recife (Frente Favela Brasil), Iago Montalvão (presidente da União Nacional dos Estudantes), Oded Grajew (Programas Cidades Sustentáveis), Marcio Black (Fundação Tide Setúbal), Samuel Emílio (movimento Acredito) e Katia Maia (Oxfam Brasil), entre outros.

Representante da Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Arnobio Lopes Rocha falou sobre a chacina ocorrida no fim de semana na favela de Paraisópolis, em São Paulo. E o diretor da ONG Saúde e Alegria, Caetano Scannavino, deu detalhes sobre a ação policial que apreendeu equipamentos e deteve voluntários no Pará.

“A saída se dá por meio da educação, e educação de qualidade”, defendeu José Adão, criador, em 1978, do Movimento Negro Unificado. “Já deu para perceber o que dá certo e o que dá errado”, emendou Grajew. “Por que nós não conseguimos aprender com o passado? Para ser um país decente, temos de ser um país com um mínimo de igualdade. O que causa conflito é a desigualdade, a injustiça”, acrescentou, também defendendo a educação pública. “Qualquer política pública tem de visar a redução da desigualdade. Se não, é inconstitucional.”

Para Karla Recife, eventos como o de ontem mostram dois fatos: “Primeiro, que a coisa apertou. Segundo, que a gente está reagindo”. Mas é preciso continuar, pediu. “Chegamos aqui não por um pequeno grupo fascista, mas porque silenciamos. A gente precisa sair dessa corrente do medo.”

Fonte: Rede Brasil Atual