Consumo

“Como as pessoas chegaram a esse ponto?” indaga um dos filhos de Maria de Lourdes Galdino, uma aposentada de 67 anos que morreu pisoteada por uma multidão enfurecida numa inauguração de uma loja de eletrônicos que prometia televisão de plasma ao preço R$300.

A tragédia que se abateu sobre os Galdino não atinge só aos membros da família, atinge também toda a sociedade.

A dura e incisiva pergunta do filho de Maria de Lourdes que indaga como as pessoas chegaram a esse ponto parece sinalizar o que o pensador Zygmunt Bauman afirma em seu “Vidas para consumo”, que as coisas valem mais do que as pessoas no estágio atual de “evolução” da humanidade. Ou mesmo lembra os escritos de Nestor García Canclini reunidos em “Consumidores e cidadãos- conflitos multiculturais da globalização” (Ed. da UFRJ, 1999), no qual ele lembra que a cidadania hoje parece ser exercida toscamente através do consumo.

Não é preciso ajuda de uma sociologia das multidões para saber que os aglomerados humanos são perigosos. Os primeiros cientistas sociais morriam de medo das multidões enfurecidas. Tratados foram escritos na vã tentativa de controlar as multidões. Manadas humanas selvagens, hordas primitivas em plena pós-modernidade, eles saem para o futebol ou para uma inauguração de uma megaestore dispostos a tudo.

Talvez seja esse o “poder” da humanidade. Sozinho, o ser humano é indefeso. Num coletivo, vira bicho incontrolável, pisoteia-se idosos e crianças por uma tevê de plasma. Paradoxalmente, no Rio de Janeiro, pela televisão, os filhos de dona Maria de Lourdes Galdino souberam de seu trágico fim. E também foi por esse oráculo digital das massas que as pessoas foram convocadas para consumir o que não lhes foi dado o direito de ter por apenas 300 dinheiros.

Com 300 dinheiros pós-modernos posso comprar na promoção o celular do momento, a televisão de plasma, o ar condicionado, a geladeira frost free, a câmera digital, a filmadora e a bicicleta de alumínio. Com 300 dinheiros posso ser um deles, posso passar por cima de tudo e de todos com meu carro utilitário quatro por quatro.

Os shoppings são igrejas pós-modernas? Megaestores são bizarras mesquitas do consumo? Atacadões são monstros a engolir a concorrência e a todos que neles entram? Qual o sentido do consumo contemporâneo? Qual a posição do consumo em nossas vidas? Essas são as muitas perguntas que me faço nesse momento. No entanto, a principal pergunta já foi feita pelo filho de dona Maria de Lourdes Galdino: “Como as pessoas chegaram a esse ponto?”

Carlos Azevedo é jornalista e professor universitário