Conectando

ventanasSempre quis, ao escrever, encontrar espaços com os leitores e leitoras. Criar espaços em comum, portas, pontes, quem sabe escadas, veredas, que nos possibilitassem irmos construindo dimensões de aproximação tão necessárias à vida.

O mundo em que vivemos por vezes distancia muito as pessoas. Muitas vezes vivemos pensando que estamos totalmente sós, isolados ou isoladas, que ninguém se parece conosco, que ninguém se importa com o que nos acontece, com a nossa vida.

Ao longo destes anos de prática da escrita, essas distâncias foram sendo abolidas, mas não para criar uma espécie de nulidade sem personalidade, um espaço de apagamento das diferenças, e sim o oposto: um lugar de crescimento com as diferenças.

Sempre admirei e seguirei admirando sempre, aqueles escritores e escritoras que foram me trazendo para este espaço comunitário criado na leitura-escritura. Há autores e autoras que me foram incluindo.

Fui perdendo a estranheza de mim mesmo, tanto ao encontrar pedaços de mim, aspectos essenciais do meu ser, em distintos livros, e inclusive em revistas entrevistas, etc, que nesta longa caminhada posso dizer, com toda franqueza, que devo a minha existência, em algum sentido muito verdadeiro, aos livros que fui lendo ao longo da minha vida.

Agora que escrevo estas linhas, é como se se recompusesse dentro de mim, toda essa vasta plêiade de textos dentro dos quais fui vendo que havia pedaços de mim. Fui me vendo ali, desde aquelas histórias infantis que a minha mãe nos lia desde pequenos, até os primeiros contos que recebi do meu pai, das minhas avós, os livros que o meu tio Ramón escrevia.

Ia me vendo ali, fui me vendo, sigo me buscando. Sei que estou por aí, em algum lugar nas páginas de algum livro, de muitos livros, dos livros que fui lendo e escrevendo ao longo da minha vida, todos os dias. Hoje não me preocupa tanto vir a publicar em papel o que vou escrevendo, embora seja sempre uma grande satisfação, poder entregar a pessoas queridas, amigos e familiares, algum novo livro que possa ter escrito.

Alegra-me muito poder partilhar meus escritos com um público vasto de leitoras e leitores que, se quiserem, poderão imprimir, como já foi feito por uma amiga muito recordada, estas anotações que vão trazendo a vida, que vão nos trazendo, a você e a mim, a todos nós, para um lugar comunitário feito a muitas mãos.

Isto é de grande valor, pois perdemos então a sensação do desgarramento, tão doída. Tão doida, também, pois que o que nos une é tanto mais, que vale a pena que sigamos construindo pontes, abrindo buracos nas paredes, costurando espaços de comunicação e de comunhão por estes meios que a escrita possibilita, e que estão ao alcance de todo ser humano, uma vez que todos e todas estamos constantemente escrevendo, na eterna escrita indecifrável da vida.