Coisa pouca

O que falta no debate sobre o diploma de jornalista

Publicado originalmente no Knights Center for Journalism in the Americas

Os meios de comunicação, mediadores da esfera pública, são, antes de tudo, fomentadores de discursos na sociedade; são eles os que selecionam, dentre todas as vozes sociais, aquelas que merecem o status de memorável promovido por eles. Operam sob um dispositivo de visibilidade e invisibilidade, o que significa que têm o poder de definir não só aquilo que estará na pauta das discussões políticas e sociais, mas também o que não estará presente nela.

Ser jornalista é atuar submerso nesse contexto. Torna-se obrigatório, portanto, compreender o processo da notícia para além de seu resultado final nas páginas de papel imprensa – ou nos pixels das telas de computadores e celulares. Não defendo o diploma de jornalista pelo fortalecimento de sua categoria profissional; tampouco acredito que seja a formação imprescindível para ensinar ao futuro jornalista técnicas de reportagem. A necessidade do diploma reside na importância de sua função social, apenas isso.

Há muito tempo, nos corredores das escolas de comunicação, tornou-se evidente a crise do ensino da técnica. Basta pouco mais de um mês de estágio para se aprender muito mais sobre apuração e redação que em quatro anos de faculdade. Como dizem alguns respeitados figurões das antigas, o bom jornalismo se aprende na rua.

Mas existe uma lasca do jornalismo que não se aprende na prática. Essa lasca, central na práxis profissional, é justamente a que não nos permite ser usados como massa de manobra da chefia; como mão de obra especializada que repete fórmulas da mesma maneira que um operário aperta parafusos – apenas para satisfazer interesses que lhe são alheios. E trabalhar essa consciência é precisamente o papel e o diferencial das escolas.

A verdade, no entanto, é que talvez seja inútil a minha defesa, assim como toda a discussão. Explico-me: o que impede a real liberdade de expressão não é a regulamentação profissional, como alardeiam os anti-diploma. Com ou sem canudo, quando a notícia vira produto e o editorial depende do comercial, o interesse de uns poucos se sobrepõe ao de muitos, inevitavelmente. E aí a obrigatoriedade ou não do diploma vira coisa pouca, sem muita importância.

Muito bom, Ricardo!

O texto do Tiago, publicado no Knights Center for Journalism in the Americas, também estava bem convincente, mas sua argumentação me parece mais embasada.

Abs

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