Cidadão-pastor-profeta: traços entrelaçados no perfil de Francisco, Bispo de Roma

imagesA dois meses de completar seus 80 anos, e há menos de quatro anos no exercício de seu ministério, Francisco, Bispo de Roma, segue sendo extraordinário “fermento na massa”, sendo reconhecido, mundialmente, como uma liderança de novo tipo. Com efeito, por seus gestos, escritos e palavas, não tem cessado de sacudir caducas estruturas societais e eclesiásticas. Que, em seus âmbitos específicos, mas interligados, (des)governam o nosso mundo e ameaçam a qualidade de vida da Mãe-Terra, dos humanos e de toda comunidade dos viventes. A este quadro horrendo, Francisco não se cansa de ousar moleculares passos de enfrentamento, em vista de superação.

Por onde quer que passe, lança sementes portadoras de alternatividade, seja por meio de suas viagens apostólicas pelos vários continentes, seja pelas suas homilias, discursos, mensagens, seja pelas suas entrevistas, seja pelos seus escritos, seja, sobretudo, pelos seus gestos. Triste é constatar que, salvo exceções, tanto em relação a lideranças civis, quanto a lideranças eclesiásticas, ele parece uma voz no deserto, da qual se acham distantes, a anos-luz, aquelas autoridades. Não obstante tal dilema, ele segue firme – a despeito, aqui, ali, de algumas fragilidades -, convencido, como Dom Helder Câmara e outras figuras, de que “o deserto é fértil”…

O propósito das linhas que seguem, é de buscar ilustrar três traços seus, que nos parecem merecer destaque especial, sobretudo se e quando tomados dinamicamente interrelacionados: o de cidadão, o de pastor e o de profeta. Aqui, chama a atenção a feliz coincidência desta tríplice dimensão com as mesmas dimensões características da vocação de todo Batizado, de toda Batizada: a de ser vocacionado/vocacionada a tornar-se, pelo Batismo, “sacerdote, profeta e rei”, ou seja, numa tradução atualizada e expressa com certa inversão de temos: cidadadã(o) (“rei”), pastor(a) (“sacerdote”) e profeta/profetisa (dimensão ética, nos diversos âmbitos – intra-inter-extraeclesial).

Bergoglio apresenta-se, com frequência, como um simples mortal, como um pecador, a mendigar, de público, oração, sempre que pode fazê-lo. Apresenta-se como uma pessoa comum, nem melhor nem pior do que as outras: um irmão entre irmãos e irmãs, quaisquer que sejam sua condição social, sua procedência geográfica, seu credo, seu grau de instrução, seu gênero, suas opções de vida…. Grande e respeitosa é sua atenção, ao receber ou cumprimentar uma pessoa pobre ou marginalizada quanto a com que recebe ou cumprimenta um potentado… Não costuma fazer acepção de pessoas, e se alguma preferência mostra, é pelas pessoas mais pobres, mais sofridas. Provas? São numerosas. Quem ele costuma convidar, durante a cerimônia do Lava-pés, na Quinta-Feira Santa? Onde e com quem escolheu morar, no limite de sua função? Quem escolheu como interlocutores privilegiados (refiro-me aos encontros mundiais de delegados de movimentos populares, sobre os quais diremos uma palavra mais adiante)… Em suas incansáveis viagens pelo mundo, a quem se dirige, habitualmente? Como se comporta no meio das multidões, em praças públicas? A quem abraça? De quem recebe, em plena praça, uma cuia de chimarrão (e toma!)?

Francisco comporta-se, antes de tudo, como um cidadão comum, como alguém que testemunha sua autoridade pelo serviço, a despeito das estruturas pesadíssimas em que se acha envolto… Isto significa seu empenho em testemunhar um mundo de irmãos e irmãs, um mundo em que todos, todas caibam, com dignidade. O anúncio do Evangelho que faz, prioriza a condição de GENTE, razão de ser de seu admirável alcance universal – para muito além da Igreja Católica, das Igrejas Cristãs ou de outras expressões religiosas ou sem qualquer credo religioso -, o que nos faz lembrar a figura de outro Francisco, o de Assis; e, antes deste, o testemunho de Jesus de Nazaré: “Os governantes deste mundo tiranizam as nações… mas entre vocês, não seja assim. Quem quiser ser o maior, torne-se o servidor de todos, pois o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e para dar Sua vida em favor de muitos.” (cf. Mc 10, 42-45).

O Bispo de Roma, reconhecendo-se sempre frágil e necessitado da graça divina, cuida de não restringir sua condição de cidadão a belas palavras. Toma iniciativas. Uma delas é sua intrigante decisão de ouvir, não representantes das grandes potências, mas delegados e delegadas dos mais pobres, organizados em movimentos populares ou em organismos similares, razão por que, já pela terceira vez, está convidando uma centena de representantes de movimentos populares e de outras organizações de base, dos vários continentes, a participarem do 3º Encontro Mundial de Movimentos Populares, tendo sido realizado o primeiro, em 2014 (em Roma), o segundo, em Santa Cruz de la Sierra (na Bolívia), em 2015, enquanto está marcado para os próximos dias 3 a 5 de novembro vindouro, de novo, em Roma, organizado pelo Conselho Pontifício de Justiça e Paz.

A quem queira compreender mais a fundo a dimensão especificamente cidadã do Bispo de Roma – não esquecer que aqui cuidamos de destacar a dimensão cidadã, de modo profundamente articulado a dimensão de pastor e de profeta -, é fundamental acompanhar, mais de perto, como se desenrolaram os dois primeiros encontros mundiais de movimentos populares, bem como o que está previsto, em novembro próximo.

Para o acompanhamento dos primeiros, sugiro acesso a textos já compartilhados (cf.textosdealdercalado). Recomendamos, em especial, que se veja/ ouça a fala de Francisco, dirigida ao participantes do Segundo Encontro Mundial de Movimentos Populares, em Santa Crus de La Sierra: https://www.youtube.com/watch?v=FSalbM4cFYQ.

Embora tendo frisado bem, neste ponto, a dimensão cidadã do perfil de Bergoglio insistimos em sua intima conexão com as outras duas dimensões aqui tratadas – a de pastor e a de profeta. No próximo ponto, cuidamos mais diretamente da dimensão pastoral.

Também aqui, o atual Bispo de Roma, tem exercido seu ministério, de modo reconhecidamente atípico, em relação aos seus predecessores imediatos. Destaquemos algumas ocorrências que apontam nesta direção, tomando seu particular empenho de trabalhar pela construção da unidade na diversidade, característica fundamental da missão de pastor, no Movimento de Jesus. O Bom Pastor (confira, por ex. O capítulo 10 do Evangelho de João) é aquele que dá a vida pelas suas ovelhas; é aquele que, deixando as noventa e nove já reunidas, vai atrás daquela desgarrada. E não se trata de restringir tal missão pastoral ao âmbito intraeclesial, nem mesmo inter-eclesial. Sua missão vai além: ocupa-se das condições em que vive toda a humanidade, em especial as maiorias empobrecidas. O que acima foi descrito, comporta traços do seu empenho e compromisso com uma humanidade renovada. Neste item, restringimo-nos ao âmbito inter-eclesial, ou seja, ao seu particular empenho em busca da unidade dos cristãos. Algumas de suas iniciativas, nesse sentido, são recentes, enquanto uma próxima está prevista para acontecer daqui a uma semana. Foram amplamente noticiados seus encontros com lideranças de Igrejas Ortodoxas, tanto o mais recente, que se deu em viagem apostólica a Lesbos como outro, realizado no aeroporto de Havana (Cuba), nos quais, ainda que de maneira modesta e despretensiosa, cuidou de juntar-se aos seus irmãos Patriarcas Ortodoxos, para rezarem juntos em prol da unidade dos Católicos Ortodoxos e Romanos. Não se trata de uma meta fácil, sobretudo tomando-se em consideração, não apenas a complexa teia de relações internas a ambos esses mundos, como também os 800 anos de separação…

Ainda nesse empenho de unidade entre os Cristãos, há de se destacar a solicitude de Francisco, Bispo de Roma, em atender ao convite de lideranças da Igreja Luterana a participar, na Suécia, no dia 31 de outubro de 2016, das comemorações dos 500 anos da Reforma Protestante. São atitudes dignas de registro da parte do Bispo de Roma em seu esforço de contribuir para unidade dos Cristãos.

A terceira ênfase aqui proposta, em função da tríplice dimensão (cidadão-pastor-profeta) incide sobre o exercício da profecia especialmente ao interno da Igreja Católica Romana. De passagem, aqui nos restringimos a leves indicações, baseadas em seus escritos mais importantes, dos quais destacamos a Exortação Apostólica “Evangelii Gaudium”. Nesta resite uma proposta pastoral profética dirigida às autoridades, bem como ao conjunto dos distintos segmentos componentes da Igreja Católica Romana. Trata-se de uma fecunda proposta de governo eclesial para os próximos anos. Nela, destacam-se preocupações tais como: a vocação cristã à alegria, inspirada apelo evangelho; a centralidade do povo de Deus na organização eclesial; às sérias tentações e apelos ao clericalismo; a centralizada dos pobres como núcleo fundamental das mensagens evangélicas; profunda crítica profética contra a ordem econômica dominante;qual espiritualidade se requer para o enfrentamento dos desafios dentro e fora da Igreja Católica.

Seu mais recente escrito, mundialmente conhecido, constitui uma expressão de síntese cidadão – pastor – profeta, do perfil do Bispo de Roma, a medida que “Laudato sí” representa um chamamento universal, a implicar conversão contínua de cidadãos e de cristãos, no enfrentamento exitoso nos desafios socio-ambientais, o cuidado com a nossa “casa comum.

João Pessoa, 24 de outubro de 2016