Centramento

Ontem de noite, no fim de um dia agitado, vi umas palavras ordenadas em uma prateleira. Vejo elas agora, na lembrança. Palavras ordenadas umas ao lado das outras. As letras eram objetos físicos. Eu as via como coisas, como objetos materiais. No momento em que eu vi estas letras e palavras, vi uma palavra, e a senti: ordem. As palavras ordenam, as palavras constroem o mundo interior, o constituem e o vão moldando. Agora que escrevo isto, me vem uma sensação de paz e quietude, aquietamento.

Às vezes perco a serenidade, por não estar olhando para dentro. O tempo atual é demasiadamente voltado para fora. Há que olhar para fora, sem dúvida, mas o Ser vem de dentro. Vem de dentro, vai para fora e volta para dentro, é um vai-vem. Ontem à noite, ou hoje de manhã, não lembro bem, escrevi algumas palavras no caderno. Elas diziam respeito exatamente a isto, como a literatura nos descola de uma realidade externa que muitas vezes nos des-centra. Podemos fazer o caminho inverso: olhar para dentro, para o ponto central dentro de cada um, de cada uma de nós, e ali encontrar o eixo fugidio da vida.

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