Carta aberta ao Ministro da Educação: Sobre fazedoras de linhas e bolos ordinários [1] – resposta ao desacato

Ficou bastante óbvio que é com a perspectiva do patriarcado mais anacrônico que se afina o Senhor ex-Diretor do Colégio Pedro II [Wilson Choeri], deixando, em momento de descontrole, transparecer parte de sua verdadeira personalidade e mundivisão: o egocentrismo desmedidamente autoritário e o dogmatismo machista que procura alijar mulheres da participação efetiva na esfera pública das sociedades. Por Silvana Martins Bayma.

“Quando a gente escreve ou pinta ou canta, a gente transgride uma lei. Não sei se é a lei do silêncio que deve ser mantido diante das coisas sacrossantas e diabólicas.” (Clarice Lispector)

Excelentíssimo Senhor Ministro de Estado da Educação, Fernando Haddad,

Sou professora do Colégio Pedro II e estive, na qualidade de Diretora da ADCPII – e, portanto, representando toda uma classe -, na posse do atual Diretor pro-tempore do CPII em Brasília. Cito esse fato para, ao procurar estabelecer um diálogo com esse Ministério, combater dois preconceitos, convencida que sou não apenas da igual importância de alunos(as) e educadores(as) no microcosmo da Escola, como de homens e mulheres no macrocosmo da sociedade. A mim – mulher, professora, militante, pessoa do meu século – me parece óbvio dizer que cada um(a) contribui com seu olhar e ação específicos para a construção do universo de que faz parte. Nem tão óbvio assim é para todos, Senhor Ministro, como, infelizmente, nessa ocasião pude uma vez mais constatar…

Em contexto formal no qual caberia apenas uma rotineira e legítima transmissão de cargo depois de expirado um mandato (que, diga-se de passagem, era o terceiro consecutivo da mesma pessoa), qual não foi minha indignação ao ter de ouvir calada, sem direito a resposta, uma longa fala desconexa, entre irônica e melancólica, de cunho explicitamente sexista. Perguntava-me a todo instante, Senhor Ministro: foi para isso que esse Ministério nos convidou, representantes legítimos da Comunidade CPII, eleitos por voto direto que somos? Para sermos agredidos por uma das autoridades da mesa oficial dessa cerimônia, que bradava, em palavras menos diretas, mas não menos desrespeitosas, que “aluno não pensa: é manipulado” e que “lugar de mulher é na cozinha”?

Pois é lamentável que o MEC tenha patrocinado um evento em que aquele que se perpetrou protagonista, fazendo uso espúrio do fato de que somente a mesa teria voz, afrontou a própria instituição do Magistério, desrespeitando acintosamente professores(as), dirigentes sindicais, alunos(as). (E, por extensão o próprio MEC, que gerencia as atividades destas pessoas, reconhecidas como atividades inferiores por tal protagonista…). Salvaguardado pelo protocolo, esse senhor, imediatamente após protagonizar desumana humilhação, ainda foi considerado pelos outros componentes da mesa – em especial pelo senhor, nosso Ministro da Educação – como intelectual imprescindível ao Brasil, como grande democrata, como verdadeiro educador!

Tal espetáculo de horrores ocorreu no dia 17 de janeiro de 2008, quando, em meio a outras grosserias e desatinos, sem que nenhuma voz discordante se fizesse ouvir, fomos – eu e a Profa. Magda Massunaga, Presidente da Associação de Docentes do Colégio Pedro II – pejorativa e metonimicamente chamadas por esse senhor destemperado, o ex-Diretor Geral do CPII, de – pasme-se! – “fazedoras de bolos”, numa dupla ofensa a docentes e doceiras… Ficou bastante óbvio que é com a perspectiva do patriarcado mais anacrônico que se afina o Senhor ex-Diretor, deixando, em momento de descontrole, transparecer parte de sua verdadeira personalidade e mundivisão: o egocentrismo desmedidamente autoritário e o dogmatismo machista que procura alijar mulheres da participação efetiva na esfera pública das sociedades.

Há quase 151 anos, mulheres militantes foram silenciadas pelo fogo, em justa reivindicação por melhores condições de trabalho, castigo imaginado exemplar pelo poder patronal masculino para não mais ser questionado. Hoje, diante de outras “ousadias” de mulheres, estratégias mais sutis de silenciamento e invisibilidade se perpetram…

Tivera eu voz na ocasião em que fui covardemente atacada, pudera eu me dirigir diretamente ao “protagonista” destemperado – bem como a todos os que com ele compactuavam, debochando ou se calando -, diria que as diferenças entre homens e mulheres são de fato bem óbvias: visíveis no corpo… Intrigante é que alguns ainda tenham necessidade de interpretá-las tão artificialmente, transformando-as em desigualdades sociais (quando as diferenças – em qualquer nível do relacionamento humano – só nos enriquecem)…

Diria que, ao ofender as doceiras – depreciando atividade que, embora nobre, não é necessariamente feminina -, ignora que o mundo atual não pode mais prescindir do trabalho realizado por mulheres. Diria que, ao ofender as educadoras atuantes – condenando a participação da mulher nos espaços públicos – ignora que a Educação e a Política nunca puderam prescindir do conhecimento e visão das mulheres.

Diria que, no caso do Colégio Pedro II, as mulheres somos a imensa maioria do corpo docente e técnico-administrativo – incluindo-se aí as Direções das Unidades Escolares e mesmo a Secretaria de Ensino… –, o que nos torna, em grande parte, responsáveis pela reconhecida excelência do Colégio (que esse senhor e seu pequeno grupo querem fazer crer ser obra exclusivamente sua): mais de mil mulheres dessa comunidade foram, por extensão, juntamente comigo ultrajadas, além obviamente de, por um lado, todas as cozinheiras e, por outro, qualquer mulher que não veja a cozinha como seu único espaço de atuação.

Diria que, ao deixar subentendido ser esse o único lugar que crê caber a nós, reproduz um falacioso e cruel conceito de mulher, que tem sido cuidadosamente elaborado a serviço da desumana hegemonia patriarcal. E ignora ou finge ignorar (no caso de um educador, o que seria pior?) que foi a sociedade e não a biologia que determinou os papéis para os sexos. Sendo assim, a educação que se dá a homens e mulheres tem sido exatamente o que, em mãos sexistas, pode-se tornar o verdadeiro instrumento da pretensa passividade, inferioridade biológica, incapacidade intelectual e conseqüente subalternidade feminina.

E finalmente diria que cabe a um verdadeiro educador, antes de tudo, estudar, continuamente se informar, atualizando-se para poupar a si mesmo – e a outros(as), sobretudo se de alguma forma os(as) representa… – vexatórios anacronismos, como, por exemplo, o desconhecimento de que não existe justiça, liberdade ou democracia sem igualdade de direitos entre homens e mulheres, entre todos os diferentes.

Lamentavelmente, tais direitos cidadãos deixaram de ser considerados nessa cerimônia oficial. Na seqüência de ofensas, fomos, então – dirigentes da ADCPII, do SINDSCOPE e dos GRÊMIOS do CPII, lá presentes a convite desse Ministério -, respectivamente xingados de “linhas ordinárias”, “sindicalistas espúrios” e “agulhas para abrir caminhos dos outros”… Nós, que, paralelamente a nossas exaustivas atividades cotidianas na escola, ainda atuamos nessas Entidades de Classe, sem remuneração extra ou coisa que o valha, em prol exatamente de ideais que o Governo atual afirma defender, tais como gestões participativas e democráticas. Ideais, infelizmente, nunca defendidos ao longo do – longo… – período em que o referido ex-Diretor Geral esteve à frente de nosso Colégio: no CPII de suas gestões nunca houve espaço oficial para o exercício democrático – e a nosso ver saudável – da divergência…

Pois bem: sem direito à voz naquele lugar e momento, não podendo mais ser por nada nem ninguém calada, dirijo-me a Vossa Excelência aqui e agora, em carta aberta, franqueada à Comunidade que represento…

Embora não fosse a primeira vez que presenciara o despreparo de nosso ex-Diretor e de seu grupo político para lidar respeitosamente com gente, vexou-me tal paroxismo. Tive – por que não dizer? – vergonha de estar há tanto tempo sob a gestão – mesmo não me sentindo responsável, por nunca neles ter votado! – de um grupo tão absurdamente preconceituoso, politicamente despreparado e… pedagogicamente ultrapassado. Um grupo inteiro, sim: pois seus companheiros que lá estavam – incluindo mulheres… – sorriam e por vezes debochavam, apoiando os impropérios de seu equivocado porta-voz.

Afinal, que tipo de intelectual desconsidera, hoje, a diferença? Que tipo de educador desrespeita, impudicamente, estudantes? Que tipo de ser humano ousa acusar alguém de… ser democrático? Porque é simplesmente isso que as Entidades Representativas do CPII temos feito, Senhor Ministro: rechaçar tratamento diferenciado do que tem sido dispensado a outras Instituições Federais de Ensino, lutando pelo nosso direito e de nossos associados votar em eleições limpas!

Por toda minha experiência nessa escola – como Professora concursada atuando em sala de aula desde 1992, como Coordenadora Pedagógica de Português eleita na U.E. Humaitá II em 2004 e reeleita em 2007, como Dirigente Sindical desde 2005 e militante da causa docente desde meu primeiro dia no CPII -, tinha já clareza de que respeito não é práxis dessa gestão. Ainda assim, jamais poderia esperar, como convidada oficial – ratifique-se – de um evento do MEC, que esse Ministério, na figura do seu Ministro e Secretários, permanecesse impassível diante de tamanho desrespeito por parte de um orador tão desequilibrado, deformado pelo autoritarismo e pela megalomania que sempre pautaram sua conduta como gestor.

Em cerimônia dentro de um prédio público que abriga – veja-se bem a ironia – não só o Ministério da Educação, como também a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, a expectativa mínima era de que houvesse, por parte dos homens e mulheres, funcionários e funcionárias públicos(as) que lá estavam, profissionais da Educação e, teoricamente, defensores dos Direitos Humanos, uma intervenção, um desagravo, uma menção mínima que fosse, aos absurdos a que lá nós, Servidores da Educação Pública Brasileira, fomos submetidos.

Nada disseram, porém, o Senhor Ministro e a Senhora Secretária de Educação Básica, ambos à mesa que dava direito à voz, tecendo, ao contrário, os mais rasgados elogios ao citado “intelectual do século XXI”, ao término de seu “discurso”. Concordam, todavia, os(as) senhores(as) com semelhantes disparates proferidos? Eis o que tenho o dever de lhes perguntar, a fim de esclarecer a Comunidade CPII.

E quanto ao que o Senhor ex-Diretor afirmou acerca dos alunos – possivelmente acreditando estar, com esse ralo verniz de cultura, impressionando sua platéia, ao fazer (mau) uso de Machado de Assis -: que eles “serviam de agulhas a linhas ordinárias”? O que pensa o Senhor Ministro acerca desse triste conceito sobre o estudante como irracionais “buchas de canhão”? Eu, de minha parte, diria, com conhecimento de causa, que especificamente esses dois alunos da 2ª. série do E.M. do CPII a quem o ex-Diretor se dirigiu – bem como tantos outros – protagonistas que são de suas vidas, já ultrapassaram as (poucas) leituras mais óbvias de nosso mestre Machado de Assis, como a que parece fazer parte do capital intelectual do citado senhor…

Nossos alunos – asseguro-lhe como Professora e Coordenadora da disciplina que orienta, no Pedro II, os estudos do maior escritor brasileiro do século XIX – já adentraram o verdadeiro universo machadiano: bem mais complexo e multiperspectivado… Afinal, parodiando o mestre, não existem fatos, mas relatos de fatos. Ou, segundo nos revela a leitura de “A Igreja do Diabo”, não existe apenas uma porta de acesso à “verdade”; daí a necessidade de se ouvirem as múltiplas vozes subjacentes em qualquer cenário.

Assim, os leitores atentos já reconheceram, em “Teoria do Medalhão”, muitos homens públicos de hoje e passaram a questionar o estereótipo do figurão medíocre que se sobressai exatamente ao se moldar camaleonicamente ao senso comum (ou aos Governos da hora…). E rejeitaram, pela leitura de “O espelho”, a figura do autocrata que, perdida sua farda, não mais conseguia se enxergar como homem, metáfora de pobres seres dentro do universo não ficcional de nossas realidades imediatas que, de semelhante modo, se apegam ao poder, rechaçando sua saudável alternância…

E, acima de tudo, esses alunos, preparados que estão também pela boa orientação de leituras como essas – levada a cabo por seus competentes professores e professoras no CPII… – certamente puderam relacionar todas essas personagens, em sua precariedade existencial, ao célebre homem público de “A causa secreta”, que, fazendo-se crer figura necessária e insubstituível no meio em que atuava, mostrando-se como grande homem, aparentando mesmo filantropia, na essência não passava de alguém profundamente egocêntrico e desequilibrado. Não desprezemos, pois, as verdadeiras lições do Mestre Machado de Assis: ler não as obviedades, mas as entrelinhas; enxergar não a maquiada aparência, mas a intrincada essência; ouvir não apenas a voz dominante, mas a polifonia de vozes que se devem completar na compreensão da “realidade”…

Mencionada a rica diversidade de vozes da sociedade, cabe lembrar voz corrente nos corredores do CPII, que parece não ter, ainda, repercutido nos corredores do MEC: nunca foi, lamentavelmente, prática do ex-Diretor e de seu grupo político ouvirem outra voz que não a sua própria. Desprestigiada, a Comunidade escolar jamais foi de fato considerada para qualquer construção coletiva, seja de sistemas de avaliação, diretrizes de ensino ou projetos políticos pedagógicos, para dizer o mínimo dessa gestão. Como esperar desse grupo, agora, respeito pela mulher e pelo trabalhador, aceitação da divergência ou mesmo da pluralidade?

Nunca consideraram deliberativos fóruns como Conselhos Departamentais, Pedagógicos, ou até simples Conselhos de Classe, cujas conclusões e resultados são freqüentemente desfeitos por arrogantes “canetadas”. Até a “Congregação” do Colégio é monocórdia e monológica. Eis uma das facetas da triste realidade de desânimo em nossa escola: um corpo docente e um corpo técnico-administrativo da maior excelência, mas desconsiderados e subaproveitados e um corpo discente ignorado. Resultado: um ambiente escolar de profundo abatimento e desmotivação, que procuramos a todo custo, dignos, as trabalhadores e trabalhadoras da coisa pública que somos, cotidianamente reverter em prol da crença em nosso(a) aluno(a) em nossa escola, em nosso país.

Mas esses senhores que falham em promover um saudável ambiente de troca na Escola são exatamente os mesmos que dizem apoiar as políticas públicas desse Ministério… Não deveriam nossas autoridades da Educação – em especial o senhor, Ministro Fernando Haddad – melhor averiguar a realidade da maior escola pública da América Latina? Não lhes terá ocorrido que só têm recebido uma versão dessa realidade? Que só têm de fato ouvido a uma única voz?

Por fim, como educadora cuja formação se fez integralmente em escola pública e ex-aluna do Colégio Pedro II, lamento ter sido, Senhor Ministro, espectadora privilegiada de tão melancólico fim de carreira para um Diretor Geral da escola a que me dedico exclusivamente e na qual deposito minhas esperanças na Educação brasileira. E sobretudo rechaço a maneira grosseira – e pouco condizente com a Direção de uma Instituição Educacional – pela qual fomos tratados(as), nas dependências de nosso Ministério.

Inaceitável ser esse o palco em que se desmerecem ou se permite desmerecer Entidades que defendem relações democráticas, transparência administrativa, melhores condições de trabalho e, como caminho viável para tudo isso, um probo processo eleitoral. É lastimável ser o MEC o palco em que se destratam pessoas que cotidianamente lutam e procuram contribuir, com seu efetivo trabalho, para que uma escola pública do porte do CPII se mantenha conceituada.

Consternada, mas respeitosamente,

Silvana Martins Bayma, Professora do Colégio Pedro II
[Leia aqui original na página da Associação de Docentes]

[1] Subverto aqui, metaforicamente, as expressões “fazedoras de bolos” e “linhas ordinárias”, da verve do Senhor ex-Diretor do Colégio Pedro II, rechaçando-as…

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