Carta a Anatilde Salcedo

Escreveria uma carta para uma amiga de Mendoza, a quem conhecera por telefone. Filósofa, hoje com mais de 80 anos, mas tão juvenil na voz, na expressão, no seu dizer dos laranjeiros em flor ou dos passantes que pegam as frutas desde a calçada quando as laranjas se oferecem.

Ou os jazmineiros perfumando o ar. Muitas vezes, sentindo-se só, como eu e tantos e tantas, pega o telefone e liga pra este que escreve isto que lês, querido leitor ou leitora. Paz, serenidade, irmandade, fraternidade, amizade, partilha. Bom dia, Anatilde.

Tudo gira, gira e dá mis voltas. Talvez escrevas tuas memórias. Talvez o menino Deus, que louvas na tua sala entulhada de lembranças, onde nos receberas em junho com papai e Maria, talvez essa sala recolha os caminhos da tua vida, e como Cronin e tantos e tantas, decidas pôr no papel os passos que deras, que das, que darás nesta vida até o fim dos teus dias.

Obrigado, Anatilde. Obrigado por não desistir, por insistir, resistir, dar um passo a mais, como o Gandhi que se vê nessa tua sala de antiguidades, como Gandhi, digo, um passo a cada vez. Um passo é o bastante.

Obrigado, Anatilde Salcedo.