Campanha Parapolicial Contra Anistia Internacional

amnestyVsGuerra


Carlos Alberto Lungarzo

Anistia Internacional (USA) – 2152711

No dia 27/05/2010, a organização de defesa dos direitos humanos Amnesty Internacional (Anistia Internacional, AI) publicou seu relatório anual, no qual se descrevem os abusos a esses direitos nos países pesquisados em 2009, incluindo Brasil. Imediatamente depois de que esses relatórios foram lançados em Londres, distribui a versão já traduzida pela central ao português a todos meus contatos. Em particular, recebi comentários em Consciência.Net e Quem tem medo de Lula?:

Quero referir-me a essas mensagem e, ADVERTIR A TODOS OS AMIGOS que grupos parapoliciais criam campanhas de provocação contra nossas comunicações. Aí vão as provas.

Minha Difusão do Relatório 2010

Cópias do relatório de AI enviados por mim foram publicadas no site Consciência.Net e no Blog Quem tem medo de Lula?.

Em ambos os sites, há vários comentários formulados por leitores. Salvo um deles, eu acho que todos os outros são obras da mesma pessoa ou grupo sob diferentes nomes, mas farei referência a isto mais na frente.

Na sequencia, transcrevo esses comentários, primeiro os que apareceram no Consciência.Net. Após deles, os que apareceram em Quem tem medo de Lula? Depois da transcrição, faço várias observações:

Comentários no Site “Consciência.Net”

O primeiro comentário é de alguém que assina como “Antonio José da Silva”. Utilizei o método de copiar e colar. Vou numerar os comentários em forma contínua para ambos os sites. Os grifos são meus. Tudo o resto é textual.

1. Antonio José da Silva no dia 27/05/2010 at 02:54

Faltou dizer que a Anistia Internacional é uma ONG envolvida na prática de fraudes… Vejamos o exemplo de uma:

O Presidente da Anistia Internacional fugiu do Brasil sob mandado de prisão por ter plantado bombas de fabricação caseira até na sua própria sede e também por ter enviado cartas ameaçadoras para judeus, nordestinos e homossexuais. Para saber mais sobre o assunto leiam a matéria: “Uma farsa explosiva – Funcionário da Anistia forjou atentados e é acusado de enviar bombas e cartas terroristas” na pagina
http://www.istoe.com.br/reportagens/40311_UMA+FARSA+EXPLOSIVA?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage

FIM DO COMENTÁRIO 1 (ANTONIO JOSÉ DA SILVA)

Em seguida, outro leitor faz um comentário refutando este: este leitor leu a verdadeira história. Além disso, fiquei impressionado pelo conhecimento que Elcio Strasbonsky tem da nossa organização, e da forma rigorosa e precisa em que refuta as provocações do comentário anterior. Sei que os DH são apreciados por todas as pessoas civilizadas, mas igualmente AGRADEÇO A ÉLCIO POR SUA CORAGEM E A INTELIGÊNCIA. (Digo “coragem”, porque não há dúvida de que seu nome é real)

2. Elcio Strasbonsky no dia 27/05/2010 at 12:34

É por que a atitude de um funcionário, que, obviamente, não era presidente, [que você] deveria pôr em dúvida o trabalho de uma organização muito maior do que ele, presente em mais de 50 países e com mais de um milhão de apoiadores? A Anistia Internacional funciona mais ou menos como um partido político, portanto argumentar que a atitude individual e prejudicial do funcionário, acusado pela Secretaria de Segurança de forjar um ataque contra si mesmo para obter proteção da própria AI, possa comprometer o trabalho da organização não tem muito fundamento. Seria o mesmo que dizer que a atuação dos partidos políticos (ou de outros organismos)é inválida devido ao comportamento de seus membros individuais. Olhe para o conjunto, para a mensagem e para o trabalho historicamente consistente e corajoso da AI. E olhe para a realidade. (Além de que, confiar em matéria da Isto É….)

FIM DO COMENTÁRIO 2 (ÉLCIO STRABONSKY)

3. Antonio José da Silva no dia 27/05/2010 at 12:52

A Anistia Internacional mente mais que respira… e quando não mente, é porque coletou informações dos jornais e as apresentou na forma de “denúncias” e “relatórios” supostamente produzidos pela “equipe” da Anistia Internacional. É patético! É ridículo!

A Anistia Internacional é uma ONG que, em função de sua atuação claramente direcionada para os interesses de quem faz doações milionárias, é até citada em seriados da TV, como é o caso da famosa série: “24 Horas”, quando a polícia prende um terrorista que sabe onde está a bomba atômica, mas não pode interrogá-lo, pois, surgem os representantes da Anistia para exigir que o terrorista seja solto…

Falando em Anistia Internacional, alguém sabe informar o endereço da sede (ou filial) da Anistia Internacional no Brasil, o nome do responsável e o Número do CNPJ desta ONG???? Você sabe, Elcio Strasbonsky?

FIM DO COMENTÁRIO 3 (ANTONIO JOSÉ DA SILVA)

4. Elcio Strasbonsky no dia 27/05/2010 at 15:23

Qual seu interesse em saber o CNPJ da AI? A AI não precisa de endereço no Brasil para trabalhar. Tem gente atuando em muito mais frentes do que aqui. São mais de 50 países em que a AI têm sede e muitas outras coisas sólidas – além de CNPJS.

E vc sabe, Antonio, por quem a série ‘24 Horas’ foi financiada? Ou qual foi o papel dessa série em assentar o caminho nos corações e mentes de povos diversos, como o do Brasil, para que a tortura fizesse uma volta triunfante amparada por diretrizes oficiais dos EUA? Essa série, propaganda preparatória para as torturas de Abu Ghraib, realmente surtiu efeito, hein Antonio? Fico pensando porque um admirador da tortura quer saber o CNPJ da AI…

FIM DO COMENTÁRIO 4 (ÉLCIO STRABONSKY)

Comentários no Quem Tem Medo de Lula?

Continuo aqui com a lista de comentários, neste caso, com os que aparecem no blog “Quem tem medo de Lula?”. Conservo a sequencia da numeração para facilitar as citações.

5. Francisco Tenório da Silva, em 30/05/2010 às 22:22 Diz:

O Brasil e o mundo estão repletos de otários que acreditam na Anistia Internacional. Mas neste rol de otários não estão os jornalistas, visto que estes precisam de mentirosos com uma “bela fachada” para fabricar supostas denúncias que, ao serem estampadas na mídia, dão “IBOPE” e garantem os lucros da mídia com os anúncios de “sabão em pó”.

É uma triste e vergonhosa cadeia de mentiras: a mídia precisa de denúncias para ganhar dinheiro e recorre aos “mentirosos com bela fachada” (Anistia Internacional) que fabrica denúncias ou “copia e cola” matérias requentadas obtidas na própria mídia. E as estampa na forma de relatórios e denúncias que, por sua vez, impressionam os leitores trouxas e otários, gerando “IBOPE” que, por sua vez, gera anunciantes de “sabão em pó”… Assim, os jornalistas e donos de jornais enchem o bolso de dinheiro a custa desta rede de mentiras.

Não podemos esquecer que a Anistia Internacional também ganha com a farsa porque aparece sempre na mídia, se torna “importante” e recebe milhões de dólares em doações de ingênuos… ou espertos que contratam a Anistia Internacional para que esta fabrique alguma denunciazinha.

Já sabia da notícia? O Presidente da Anistia Internacional fugiu do Brasil sob mandado de prisão por ter plantado bombas de fabricação caseira até na sua própria sede e também por ter enviado cartas ameaçadoras para judeus, nordestinos e homossexuais. Para saber mais sobre o assunto leiam a matéria: “Uma farsa explosiva – Funcionário da Anistia forjou atentados e é acusado de enviar bombas e cartas terroristas” na pagina

http://www.istoe.com.br/reportagens/40311_UMA+FARSA+EXPLOSIVA?pathImagens=&path=&actualArea=internalPage,

mas tem coisa pior, muito pior…

FIM DO COMENTÁRIO 5 (FRANCISCO TENÓRIO DA SILVA)

6. João Carlos Rodrigues em 30/05/2010 às 5:30 Diz:

Essa tal de Anistia Internacional mente mais que respira e, quando não mente, simplesmente “copia e cola” notícias dos jornais e as estampa como se fossem “relatórios” e “denúncias” produzidas pela Anistia. É patético, é ridículo.

Tem que ser muito trouxa para dar crédito a esta tal de Anistia Internacional que pratica fraudes de todas as espécies, como constatamos na matéria abaixo:

“O Presidente da Anistia Internacional fugiu do Brasil sob mandado de prisão por ter plantado bombas de fabricação caseira até na sua própria sede e também por ter enviado cartas ameaçadoras para judeus, nordestinos e homossexuais.” Vejam a fraude da Anistia, lendo a matéria: “Uma farsa explosiva – Funcionário da Anistia forjou atentados e é acusado de enviar bombas e cartas terroristas” na página

http://www.istoe.com.br/reportagens/40311_UMA+FARSA+EXPLOSIVA?

FIM DO COMENTÁRIO 6 (João Carlos Rodrigues)

O Que Verdadeiramente Disse Isto É

A maioria das pessoas que encontram um link pensa: “Ah, o autor deve estar falando a verdade. Se não fosse assim, não daria a fonte”. E, numa grande parte dos casos, nem tentam clicar. Eu sugiro que, se você não tem medo da verdade, CLIQUE !!!. Você vai encontrar o texto que eu reproduzo aqui em baixo. Leia-o com cuidado e depois leia meu comentário. Todo foi colado textualmente. O único que está acrescentado é o grifado.

COMEÇO DO TEXTO DE “ISTO É”:

Funcionário da Anistia forjou atentados e é acusado de enviar bombas e cartas terroristas

André Sarmento/Robson Fernadjes/AE

O professor de educação física José Eduardo Bernardes da Silva, ex-secretário da seção brasileira da Anistia Internacional, fez 16 denúncias de perseguição à polícia. Dizia-se vítima de skinheads desde 1999 por defender os principais alvos das gangues neonazistas: gays, judeus, negros e nordestinos. Em setembro do ano passado, três atos terroristas simultâneos chocaram São Paulo: uma bomba fora enviada para a sede da Anistia em São Paulo, outra para o presidente da Associação da Parada Gay – acompanhada de carta assinada em nome dos skinheads – e uma terceira para a casa de José Eduardo, com uma suástica nazista. Os explosivos foram desativados. José Eduardo admitiu desconfiar que a “encomenda” era um explosivo por ele ser filho de militar e ter feito um curso sobre bombas na PM.

Quatro meses depois de muita pressão feita pela Anistia para acelerar as investigações, a polícia surpreendeu a entidade. Concluiu que o autor dos atentados fora o próprio José Eduardo. Ele teria endereçado todas as bombas. O motivo ainda é uma incógnita. Na ocasião, mostrou-se perturbado. Disse ter engordado 35 quilos e perdido a namorada. Ele também foi o responsável pelas inscrições feitas nos petardos e pelas cartas ameaçadoras enviadas para várias entidades. Na época, chorou e disse que queria mudar-se para a Europa. No fim do ano passado, conseguiu ser transferido para o Comitê em Madri e está sob proteção da Anistia.

A polícia suspeitava de José Eduardo desde o início. Na quarta-feira 31, o secretário de Segurança, Marco Vinício Petreluzzi, divulgou o resultado do laudo grafotécnico em que os peritos concluíram que o ativista foi o responsável pelas cartas e pelos bilhetes anexados às bombas. Um funcionário dos Correios, apesar de o remetente dos explosivos não ter tirado o capacete, reconheceu José Eduardo pelos olhos e por sua moto. Nos bastidores da Anistia, ele ajudou a agravar a crise entre a seção brasileira e a sede em Londres. Para os ingleses, a seção agia com muita autonomia. Teria contratado a empresa de um familiar de um diretor para traduzir para o português o material da Anistia, além de ferir o estatuto ao criar o Centro de Assessoramento a Programas Educacionais para a Cidadania, que seria mantido pelo governo federal. Em 1999, o Comitê Executivo resolveu mudar a equipe brasileira, para a qual José Eduardo trabalhava como secretário. De acordo com Márcio Gontijo, presidente da seção brasileira, “o Comitê de Londres nunca declarou a razão da ingerência e agiu de forma arbitrária”. Gontijo nega ter demitido José Eduardo em julho passado. Segundo ele, o secretário pediu afastamento e, logo depois, passou a atuar sob o comando direto de Londres. Quanto aos motivos para enviar as bombas, Gontijo afirmou: “Ele quis chamar a atenção para deixar o País.” José Eduardo não foi localizado em Madri. A polícia vai acionar a Interpol. Ele foi indiciado por tentativa de homicídio, perigo de explosão e falsa comunicação de crime.

FIM DA MATÉRIA DE “ISTO É”

Análise do Texto de Isto É

Para começar, observe que José Eduardo Bernardes da Silva não é presidente, (como diz o comentário 1) mas um secretário da seção Brasileira de Anistia. Isto foi claramente percebido pelo leitor Elcio em seu comentário 2.

Além disso, o comentarista disse que era presidente da Anistia Internacional. Anistia existe em todo o mundo, e possui dúzias de seções e grupos de trabalho. Dizer “Anistia Internacional”, sem mais explicação, significa culpabilizar a toda nossa organização ou, pelo menos, a Secretaria Geral.

No texto da revista fala-se que Luiz Eduardo era filho de militar e fez um curso de bombas na polícia. Mesmo que se interprete tudo isto com a maior má vontade, é impossível negar que é um fato confuso, inusual, cheio de mistério e contradições: um cara que é funcionário de AI, que está em conflito com seu chefe, manda bombas e ameaças falsas, produz um auto-atentado, depois fuge do país, etc.

Uma história tão rara é própria de um desequilibrado mental? Nem sempre. É mais provável que isto seja para criar confusão por parte da polícia. Por exemplo, antes da Noite dos Cristáis, quando os nazistas ainda não tinham tanto poder, eles prejudicavam as instituições judias infiltrando pessoas que faziam este tipo de procedimentos aparentemente “malucos”: colocar bombas, fazer falsas denúncias, fingir-se perseguido. Assim, a opinião pública acabava pensando: “aquilo é uma bagunça; essa coisa deve ser destruída”.

Com independência de quão democrático seja um governo, o Brasil como estrutura burocrática e social, é um estado dominado por grupos policiais e para-policiais, máfias de diversos estilos e esquadrões de jagunços escravocratas com repressentação parlamentar; aparelhado pelos militares, atualmente em “recesso estratégico”, e dominado por um setor político, empresarial e judicial neofascista (que pode não formar uma abrumadora maioria, mas com certeza não são poucos), gangues racistas,etc. Uma organização como Anistia Internacional é odiada profundamente nesses lugares. É por isso que só temos seções em lugares mais ou menos democráticos. Mas, falarei neste assunto numa matéria próxima.

Claro que foi um erro nosso deixar que fosse fundada uma seção no Brasil, mas ninguém é perfeito. Corrigimos esse erro quando foi possível e temos pagado caro por ele.

Identidade do “Comentarista”

Os nomes, José e Antonio e o sobrenome Silva são superfrequentes em português. Antonio José Silva tem 600 mil menciones só no Google e João Carlos Rodrigues tem 1,18 milhões. Pense que a enorme maioria da população não possui seu nome na Internet. Na vida real deve ter milhões de ambos os nomes. ‘Francisco Tenório’ é menos conhecido, mas é bastante comum em alguns estados, e o “comentarista” pode ter escolhido esse nome como um apelido que não seja muito comum, como os outros, mas que também seja difícil de identificar.

Pelo contrário, meu nome de família e o do comentarista que apoia nossa posição, Strasbonsky, são totalmente infrequentes. Com meu sobrenome há apenas umas 20 famílias no mundo todo e apenas uma no Brasil. É óbvio que qualquer um pode identificar tanto a Élcio como a mim.

Mas, mesmo supondo (o que pode ser verdade ou não) que os comentaristas Antonio, João e Francisco, sejam três pessoas DIFERENTES, e que tenham assinado com os verdadeiros nomes, QUEM OS PODE ENCONTRAR? Observemos:

No comentário (3), Silva faz o elogio da tortura. Cita a AI como uma organização metida que impede que o bom de Jack Bauer arranque os olhos aos prisioneiros (Eu também lembro desse lixo, mas não assisto por prazer. É importante para entender como o Pentágono lava o cérebro de pessoas  cretinas).

Aliás, nesse mesmo comentário, Silva quer saber nosso CNPJ, endereço, o que é dignamente respondido por Élcio. Esse Interesse é próprio de agentes dos serviços, geralmente advogados, jornalistas ou informantes de parapoliciais. Isso é frequente: é a maneira de ver se podem nos assustar.

Comparações de Textos

NO COMENTÁRIO 1,  SILVA DIZ:

Presidente da Anistia Internacional fugiu do Brasil sob mandado de prisão por ter plantado bombas de fabricação caseira até na sua própria sede e também por ter enviado cartas ameaçadoras para judeus, nordestinos e homossexuais. Para saber mais sobre o assunto leiam a matéria: “Uma farsa explosiva – Funcionário da Anistia forjou atentados e é acusado de enviar bombas e cartas terroristas” na pagina…

COMENTÁRIO 6 DE ROGRIGUES

O Presidente da Anistia Internacional fugiu do Brasil sob mandado de prisão por ter plantado bombas de fabricação caseira até na sua própria sede e também por ter enviado cartas ameaçadoras para judeus, nordestinos e homossexuais. Para saber mais sobre o assunto leiam a matéria: “Uma farsa explosiva – Funcionário da Anistia forjou atentados e é acusado de enviar bombas e cartas terroristas” na pagina

Muito parecidos? Será que os dois leitores, Silva e Rodrigues tiveram a mesma ideia, ao mesmo tempo, e a souberam expressar com exatamente a mesmas palavras?. Agora, outra comparação:

COMEÇO DO COMENTÁRIO 3 de SILVA

A Anistia Internacional mente mais que respira… e quando não mente, é porque coletou informações dos jornais e as apresentou na forma de “denúncias” e “relatórios” supostamente produzidos pela “equipe” da Anistia Internacional. É patético! É ridículo!

COMPARE COM O COMENTÁRIO 6 DE RODRIGUES:

Essa tal de Anistia Internacional mente mais que respira e, quando não mente, simplesmente “copia e cola” notícias dos jornais e as estampa como se fossem “relatórios” e “denúncias” produzidas pela Anistia. É patético, é ridículo.

Aqui, o autor não copiou tudo de novo; modificou algo para dissimular. Mas, evidentemente a ideia e até a sintaxe é a mesma. Uma coincidência muito grande para pessoas que não se conhecem a agem espontaneamente.

Observe, aliás, que o comentador usa um bom português, com gramática correta e palavras variadas, algo difícil nos muitos leitores indignados que escrevem mensagens de ódios cheios de xingamentos. Veja, por exemplo, a Folha. O autor, então, deve ser um especialista, tal vez um jornalista o escritor membro de um serviço para policial.

A Versão Real dos Fatos

Há algumas semanas, a talentosa bloguista Ana Helena Tavares, coordenadora do site “Quem tem medo de Lula?” me mostrou dois comentários feitos por leitores a meu artigo intitulado “Cesare Battisti na Trilha de Bob Dylan” e me perguntou se devia deixá-los ou deletá-los. Eram duas baixarias curtas, sem pés nem cabeça, escritas por resentidos e esnobes, uma delas totalmente sem sentido, pois autora dizia não ter lido o artigo. Sugeri que deixara ambos, já que pelo menos outros leitores tomariam conhecimento de que tipo de pessoas é o daqueles que nos criticam. Aliás, era melhor ignorá-los. Até censurá-los seria demais para eles.

Em geral, minha política não é polemizar com pessoas, quaisquer que sejam, cujas posições são insustentáveis, e que agem de maneira tortuosa, porque isso confere às baixarias e canalhices que propagandeiam um destaque que não merecem. Por sinal, estas pessoas não poderiam chamar a atenção se não fosse agitando situações da mais profunda miséria moral.

Entretanto, desta vez decidi responder, porque o misterioso comentarista Antonio JOSÉ ANTONIO JOÃO CARLOS TENÓRIO SILVA DA SILVA ROGRIGUES, dentro de todo seu esquema de ódio disse algo que é verdade: Anistia Internacional do Brasil, que existiu entre 1986 e 2001, cometeu, através de sua equipe dirigente, vários atos criminosos, alguns para arrecadar dinheiro e promover empresas, outros, para destruir o prestígio da organização.

Primeiro: o caso de Anistia Internacional do Brasil é ÚNICO na história de nossa organização. Eu estava no Brasil na época, e descobri que, apesar de ter sido fundada por uma pessoa muito honesta, um jornalista envolvido na causa dos Direitos Humanos, ela foi invadida por um conjunto de empresários. Isso nunca aconteceu com NENHUMA de nossas seções nas Américas (Venezuela, Argentina, Chile, Uruguai México, USA e Canadá), nem na Europa (nem mesmo na Itália, nem na África, nem na Ásia). Não temos seções em países onde podem acontecer estas coisas.

Segundo: Os fatos devem ser analisados com um mínimo de seriedade. Quando AI do Brasil foi fechada, em 2001, nunca teve, segundo seu presidente, mais de 1000 associados. Isso significa que ela representa menos de 0,07% filhados no mundo naquela época. Hoje, que temos mais de 2,2 mi, isso significaria 0,04%.

Aliás, desses filiados, algumas pessoas eram de excelente qualidade humana e grande força combativa, e contribuíram a derrubar a máfia que tinha assaltado nossa ONG, cujos membros não passavam de 200.

Por que Fundar AI no Brasil?

AI possuía, até há alguns anos, seções completas em 52 países e grupos de trabalho em outros estados.  Minha última informação sobre nosso número de membros é de 2,3 mi.

As seções foram fundadas sempre em países que eram suficientemente democráticos como para garantir o funcionamento sem colocar a vida de seus membros em risco ou, pelo menos. Também era necessário que os governos nesses países não pudessem politizar essas organizações.

Quando havia garantias, algumas seções foram fundadas em países com democracias precárias, como Argentina, Chile, Venezuela, Uruguai, Nepal e Togo, entre outras. A maioria está em estados com democracias estáveis, como EEUU, Canadá, México, e os países da Europa Ocidental. Nem todos os países onde há seção de AI são totalmente respeitosos dos Direitos Humanos, mas respeitam o funcionamento da ONG.

A seção brasileira de AI (SBAI) foi fundada em seguida após da democratização, como uma resposta necessária a 21 anos de violação sistemática e extrema dos Direitos Humanos.

Primeiros Tempos

A fundação da SBAI foi iniciativa do jornalista Rodolfo Konder, nascido numa família comunista carioca, e figura chave no jornalismo democrático da época da ditadura. Esteve exilado duas vezes, a 1ª no começo, e a 2ª. depois de ter denunciado que Vladimir Herzog tinha sido assassinado pelos militares.

Konder tinha as características típicas de um defensor de Direitos Humanos, e seu perfil parecia adequado para fundar uma seção de AI. Os primeiros grupos apareceram em Porto Alegre em 1982, mas a seção oficial foi fundada pelo grupo de Konder em SP em março de 1985. Konder foi nomeado vice-presidente e depois presidente, mas tive a impressão de que não possuía muitas pessoas de confiança para ajudá-lo.

Inicialmente a SBAI, teve 393 membros individuais: advogados, professores, jornalistas, intelectuais, estudantes e jovens em geral. A SBAI tinha ainda 600 sócios que contribuíam com uma mensalidade, mas não participavam da militância da ONG.

Em 1987, eu voltei ao Brasil de maneira definitiva. Fui anistiado por ter sido perseguido dentro da UNICAMP. Depois de estar exilado no México entre 1980 e 1983, voltei à Argentina, onde participei na fundação de AI de Buenos Aires. Estive no grupo fundador, mas devi sair dele quando decidi escolher o Brasil para minha vida futura.

Ao chegar no Brasil, me filiei à SBAI, mas percebi certo grau de opacidade nos procedimentos. Soube que haveria eleições para nomear um novo presidente no lugar de Konder, que parecia chamado por sua vocação de escritor, mas nunca recebi informação eleitoral.

Eu pagava todas minhas parcelas, fazia as contribuições que podia e me ofereci várias vezes para trabalho voluntário, mas ninguém se interessou, apesar de minha experiência em DH. Tinha construído, antes de ser membro de AI, uma rede precária de proteção de refugiados do Cone Sul em Campinas, com ajuda de amigos (1976-1979). Depois, fui voluntário em assuntos de luta camponesa no México, e viajei a Guatemala (setembro-novembro de 1981) para ajudar na proteção de prisioneiros da ditadura.

Minha colaboração com a fundação de AI na Argentina foi rápida, mas também me deu alguma experiência. Nada disso foi aproveitado, apesar de que não pretendia nenhuma posição hierárquica. Conheci alguns militantes, alguns de elevada coragem, sensibilidade e eficiência. Lamentavelmente, não posso mencioná-los porque não tenho pedido permissão a elas para fazer isso.

Convenci-me, então, que a SBAI já não estava interessada em Direitos Humanos, como durante a administração de Konder, que durou, acredito, alguns poucos anos.

Nos 90, o Secretário Geral era um administrador de empresas, que se tornou cúmplice de ONGs com objetivos comerciais, como uma que agrupa os fabricantes de brinquedos e finge defender os DH das crianças. Ele conseguiu ser eleito de maneira desconhecida, pois vários dos ativistas mais atuantes não fomos nem informados.

Sua campanha se caracterizou por quase todas as normas que AI proíbe.

  1. Excessivo exibicionismo na mídia.
  2. Participação em eventos políticos e empresariais.
  3. Palpite em casos duvidosos, sobre pessoas detidas, especialmente em favor dos carrascos e não dos detentos.
  4. Campanhas conjuntas com ONGs de tipo “marqueteiro”.
  5. Desviar fundos da ONG a empresas particulares, algumas delas de propriedade de parentes dos chefes.
  6. Fazer parceria com órgãos do governo.

O fato acontecido com esse secretário que fingiu os atentados, pode ter sido uma amostra do conflito interno na direção da SBAI por causa da luta interna pelo poder. Também pode ser uma provocação controlada desde fora, para fazer implodir a ONG, e fundar uma AI paralela, onde pudessem fazer seus negócios sem intervenção de Londres.

Um Sócio Célebre

A SBRAI aceitou como sócio o advogado Ives Gandra Martins. Não apenas isso, como permitiu que ele usasse o nome da organização.

Gandra é membro, de maneira explícita, da prelazia do vaticano Opus Dei, uma organização sinistra que semeou o terror na Europa, especialmente na Espanha, onde ajudou nos massacres do famigerado tirano Francisco Franco, dito “O açogueiro de Astúrias”. Além disso, muitos de seus membros possuem hábitos doentios, como se autoimpor sofrimento físico, e participam de conspirações e assassinatos. Uma excelente descrição deste grupo é feita no livro do escritor americano Dan Brown, O Código da Vinci. Mesmo sendo imaginários muitos temas de Brown, sua descrição do Opus Dei é apuradíssima.

No Brasil, Gandra é conhecido por sua amizade “carnal” com a ditadura militar, por sua defesa dos torturadores, por sua oposição as células-tronco e ao aborto, e pela apologia de tudo o que reacionário e obscurantista. Também é um opositor radical à igualdade racial e tem vários pronunciamentos sobre as cotas nas universidades. Recentemente, foi um dos que mais contribui a difamar o Plano Nacional de Direitos Humanos. Quando ele se identificava como membro de AI, ativistas ou simpatizantes de DH que ainda não tinham uma imagem internacional de nossa ONG, se formavam a pior impressão possível.

A aceitação de Granda em na SBAI não foi, certamente, uma questão de desinformação. Isso seria impossível. A cúpula da SBAI deve ter utilizado ele com o propósito de ganhar influência entre os militares, e contribuir a desprestigiar nossa ONG a nível mundial. Alguém deixou transparecer, na época, que o objetivo era construir uma Anistia Internacional paralela, usurpando o nome da verdadeira. Poder “vender” a imagem de ser uma ONG prestigiosa ajudaria muito à direita brasileira.

Conclusões

Mesmo após a dissolução, diversos grupos continuaram brigando no intuito de manter uma Anistia Internacional paralela, mas o Secretariado Central eliminou o nome da organização de todos seus documentos e meios de informação. Oficialmente, a SBAI foi fechada em julho de 2001.

Aparentemente, por volta de 2005 estes grupos se resignaram a perder a possibilidade de criar uma organização fajuta, e nunca mais de falou da suposta AI do Brasil. Os problemas sobre a violação dos DH brasileiros, que estiveram sempre num dos patamares mais baixos, mesmo dentro dos países subdesenvolvidos, são atualmente cuidados pelas equipes de investigadores de Londres.

Brasil precisaria uma seção de AI, tendo em conta o tamanho do país, e as catastróficas violações aos DH que se aplicam de maneira sistemática:

  1. Violência contra mulher e falta de direitos sexuais e de reprodução.
  2. Tortura rotineira, massacres policiais, chacinas no campo.
  3. Intimidação e terror, prisões injustas e desproporcionadas, deturpação do direito de asilo.
  4. Racismo, ataques contra índios e negros, invasão de terras indígenas.
  5. Trabalho escravo, trabalho infantil abuso de crianças, e muitos outros.

No entanto, a experiência mostrou que uma ONG que seja manipulada por empresários para propaganda e proveito, só pode piorar a situação, como de fato aconteceu nos últimos anos de SBAI. Além de consumir recursos da Organização, produz uma imagem negativa de todo o sistema, e se utilizou dele para fins políticos, lucrativos e até para reforçar os grupos militares e eclesiais.

Podemos dizer, em geral, que  Anistia Internacional foi culpada. Sim, mas não de incúria, nem, muito menos, de má fé. A organização errou por excesso de confiança nas pessoas comissionadas, por falta de controle, pela crença de que era possível dialogar. Por outro lado, deve compreender-se este erro, pois nunca uma seção, estrutura, nem mesmo uma rede de grupos, tinha sido usada de maneira abusiva. Alguns de nossos dirigentes não conseguiam acreditar que se podia atuar de uma forma tão miserável.

Mesmo contando esses defeitos de decisão, o Secretariado Internacional teve uma posição firme quando se convenceu de que aquele grupo que dirigia a SBAI não era apenas uma ONG ineficiente, mas uma verdadeira gangue. Não foi possível dissolver mais rápido a SBAI, porque a justiça brasileira, como sempre, ficou do lado dos mais poderosos e corruptos, e obstruiu a dissolução da SBAI durante algum tempo.

Aliás, a SBAI se defendeu da maneira mais baixa possível. O problema de ser dissolvida era puramente administrativo, como em qualquer instituição que decide eliminar uma sucursal. Mas a SBAI teve o cinismo de levar a questão à Corte Interamericana de Direitos Humanos. Obviamente, ninguém acreditou que isso fosse correto, mas a imprensa, em sua grande maioria inimiga de Anistia, aproveitou para fazer sensacionalismo. As manchetes diziam: “Anistia Internacional viola os DH e será processada!”. Tudo o que fascistas, militares, católicos, ruralistas, agiotas, terroristas de estado, mais desejavam.

Agora, os problemas de Brasil são vigiados desde fora, mas, de qualquer maneira, o país não está abandonado, pois ele responde por talvez um 25 ou 30% das violações atuais de toda a América do Sul.

Minha Identificação

O Antonio José Silva (ou, melhor, o “comentarista” onipresente que, no Consciência.Net assina com esse nome), pergunta qual é o CNPJ, o endereço, etc., da Anistia Internacional do Brasil.

Como disse acima, não existe atualmente uma seção nem uma estrutura nem grupos de AI no país. O máximo que existem são alguns membros internacionais como eu. Não sei seu número, mas são poucos.

No que se refere a mim, não há nenhum problema em satisfazer a mórbida curiosidade do “comentarista”. Não tenho CNPJ, pois sou pessoas física, mas tenho CPF:

CPF: 965.695.908-63

RNE: V033174-J

E-mail particular: carlos.lungarzo@gmail.com

Não vou publicar meu domicílio, porque não quero expor minha família a ataques de parapoliciais ou paramilitares, mas se alguém quiser entrar em contato comigo pessoalmente, pode acertar isso por e-mail. Se for convocado para falar num local fisicamente seguro, irei.

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Carlos Alberto Lungarzo é matemático, nascido na Argentina, e mora no Brasil desde sua graduação. É professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), São Paulo, e milita em Anistia Internacional desde há muito tempo, nas seções mexicana, argentina, brasileira e (depois do fim desta) americana. Tem escritos vários livros e artigos sobre lógica, estatística e computação quântica, mas seu interesse tem sido sempre os direitos humanos.

Seções: Opinião.