A caminho de um novo concílio: limites, possibilidades, condições…

Nos últimos meses, em decorrência de declarações de membros do episcopado europeu, acerca da possibilidade de convocação de um novo concílio “concílio Vaticano III” pelo Papa Francisco, reabre-se a discussão por parte de membros de grupos e movimentos reformadores católicos a este respeito. Não é a primeira vez que nisto se fala ao longo de meio século desde a conclusão do Concílio Vaticano II. Em busca de contribuirmos com este debate, modestamente que seja,  ousamos compartilhar alguns questionamentos sobre o assunto.

Nossa caminhada de seres humanos se faz sob o signo da história. Somos, como se sabe, seres históricos! Ainda que em grau diferenciado – no caso das igrejas cristãs, e especialmente da Igreja Católica Romana, num ritmo mais lento – não poderia ser, e não é, diferente em relação aos cristãos: somos também movidos pelos sinais dos tempos, pelos acontecimentos e fatos da história. A história também nos impregna! Quem se põe a serviço do Caminho, em caminho, tem consciência da provisoriedade do caminhar, tendo sempre fixos seus olhos para o definitivo do horizonte, dos valores da Tradição de Jesus, presente em meu movimento. Com efeito, não tem sido por acaso que, ao longo de sua trajetória , o Povo de Deus tem necessitado, tantas vezes, e de tantas maneiras, reavaliar seu modo de caminhar, examinando se as trilhas que vem percorrendo apontam para o horizonte desejado, ou se, ao contrário, dele vêm se distanciando. Importa caminhar juntos: eis porque se trata de um povo necessariamente sinodal. E sempre que insiste em sucumbir à tentação de ser dono da verdade, ou de pretender engessá-la no tempo (esquecendo-se, como lembrava o teólogo  José Comblin, o projeto de Deus segue acontecendo, pela força e ação do Seu espírito: “Meu Pai continua trabalhando até hoje, e eu também estou trabalhando”, .João 5:17). Não se trata, por outro lado, de pretender-se uma uniformidade, mas de ajustar os passos tendentes ao mesmo horizonte da Tradição de Jesus, respeitada a diversidade de modos de caminhar. É isto o que entendemos pela emblemática expressão: “”Reformata, Ecclesia semper reformanda est.”

Ao longo da história da(s) Igrejas cristãs, tem-se recorrido a opções como concílios e sínodos como espaços eclesiais legítimos de avaliação da caminhada e de redefinição e ajustes de rumos e de caminhos.

Cinquenta anos depois da realização do Concílio Vaticano II, percebe-se uma hesitação: limitar-nos a implementá-lo ou, sem prejuízo disto, ensaiar os primeiros passos em direção a um novo Concílio? Já se sente a necessidade de se partir para um próximo. Em verdade, desde os anos 90 já se tem notícia de esforços nessa dimensão. Ontem como hoje, há posições divergentes… Tanto há quem entenda ser inoportuno pretender-se a convocação de um novo Concílio, dado que o Concílio Vaticano II, ainda resta por ser implementado, como há quem entenda que, ainda que implementado, o vaticano II já não responde aos novos desafios, donde a necessidade de se partir, a médio prazo, para um novo Concílio, em novo estilo. Em busca de contribuir com este debate seguem alguns questionamentos.

Guiados pelo Espírito Santo, que continua operando na história, os cristãos sentem-se continuamente interpelados pelos sinais dos tempos, pelas incessantes mudanças históricas que também interpelam seu modo de viver a fé, em distintas circunstâncias históricas. Na trajetória da Igreja Católica Romana, como tais mudanças históricas que interferem no modo cristão de viver a fé, como eles têm respondido a esses desafios, desde os tempos apostólicos?

Quantos concílios – e em que circunstâncias inclusive de tempo – já foram realizados?

Quanto tempo se passou desde a conclusão do Concílio Vaticano II, e, desde então, como vêm ou não sendo implementadas suas decisões?

A implementação do Vaticano II, conquanto seja relevante e necessária, responde satisfatoriamente aos novos desafios eclesiais?

Se menos de um século se passou entre o Concílio Vaticano I e o Concílio Vaticano II, período incomparavelmente menos complexo do que o compreendido entre os anos 60 e o atual momento, período de verdadeira “mudança de época”, como não tomar em conta as profundas mudanças (econômicas, políticas, culturais, também no âmbito teológico), produzidas desde então (revolução científico-tecnológica, significativas conquistas do Laicado, em especial das Mulheres, inclusive relevante avanço na consciência da condição de protagonistas das decisões ao interno da(s) Igreja)s)?

Dada esta nova realidade – sinal dos tempos que o Espírito inspira -, cabe perguntar-nos: se o modo de realização dos concílios tem sido o de ser protagonizado apenas pelo segmento episcopal, segue razoável que assim continue sendo (isto é, todo o povo eclesial representado apenas por parte de um único segmento, descartados outros segmentos de batizados e batizadas, que nem sempre se sentem contempladas, na tomada de decisões, apenas por segmento e por vozes exclusivamente masculinas?

Diante dos novos desafios, segue, ética e teologicamente, sustentável atribuir-se a um único segmento eclesial o monopólio das decisões sobre a organização da vida eclesial de todos os batizados e batizadas?

Nessa linha, igualmente, será que continua mesmo sustentável, em escala mundial, seguir tendo as decisões do conjunto dos Católicos e Católicas, por meio exclusivamente das respectivas Conferências Episcopais? O que impede a co-participação na tomada de decisões das já existentes Conferências nacionais de Religiosos e Religiosas e das vindouras, esperamos, Conferências nacionais de Leigos e Leigas?

Justamente nesta direção, não seria este o momento propício (quando a Igreja Católica no Brasil está a celebrar 2018 como o Ano do Laicato), de os Leigos e Leigas ensaiarem passos concretos na perspectiva de se organizarem também como Conferência Nacional dos Leigos e Leigas?

João Pessoa, 17 de abril de 2018.

Share

Comentários

comentários