A caminho de Quixadá, a seca endureceu o chão, mas não os corações sertanejos

Por Cláudia Motta

Caravana de Lula passa do Rio Grande do Norte para o Ceará. Onde a população aprendeu que, quando pode enfrentar a seca, a falta de escola e de oportunidades, não precisa ir embora de seu lugar

De Mossoró, no Rio Grande do Norte, a Quixadá, no sertão do Ceará. A caravana Lula pelo Brasil chegou nesta terça-feira (29) ao sétimo estado da Região Nordeste. A visita iniciada no último dia 17 em Salvador passará ainda por Piauí e Maranhão. Na divisa cearense, em Quixeré, houve a primeira parada para a habitual passagem da bandeira petista, quando o vice-presidente do partido, Marcio Macedo, coordenador da caravana, anuncia o novo estado que “cuidará” do ex-presidente.

As professoras Hélia Melo e Maria Rita Xavier estavam lá. Dão aula no ensino fundamental do pequeno município de 20 mil habitantes, castigado pela seca há seis anos. A pobreza da região não as impede de revelar orgulho pelo excelente resultado alcançado por sua cidade no Ideb. O Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, criado em 2007 para avaliar o desempenho das escolas de todo o país, foi de 5,9 nos anos iniciais (superando em quase 50% a meta do município) e de 4,8 nos anos finais (meta de 3,9) – dados de 2015.

“Lula é uma figura muito importante para o nosso país”, diz Hélia. “O pobre teve vez e voz com ele. A questão da educação, saúde, o bolsa família, tudo melhorou. Por isso quero que volte”, diz. Maria Rita fala em gratidão: “Estamos aqui retribuindo o que ele fez pelo Nordeste e por todos os brasileiros, pela classe média, pela classe pobre. Eu tenho um filho universitário hoje. Por isso estamos aqui.”

Hélia reforça que a importância de Lula é ainda maior para a população pobre, que mais precisa das ações do Estado para ter acesso a uma vida digna. “Então, esse respaldo que hoje ele tem, percorrendo todo o Brasil, vai ser importante para ele. Por onde quer que ele passe, é muito bem aceito. Aqui está a prova de tudo isso”, diz apontando o povo que esperava Lula, num posto à beira da estrada, sob sol de 40 graus.

A seca endurece a terra, mas não o coração dos sertanejos. O pedreiro Jackson Jacó do Nascimento chorava, enquanto seu colega de obra, Vandir Cavalcante de Almeida repetia: “Não dá pra acreditar. Nunca ninguém viu uma coisa dessa em Morada Nova. Um presidente passar… Um ex-presidente e futuro presidente”, corrigiu-se.

Vandir dava tapinhas nas costas do “amigo veio” Jackson. “Não vou nem falar, não consigo. Só alegria.” O colega, apesar dos olhos marejados, ainda tentava falar pelo dois. “Quando o pobre pôde entrar em todos os bancos foi no tempo de Lula e Dilma. Foi quando eles abriram as portas para os pobres”, lembra, agradecendo ao prefeito José Wanderley Nogueira (PT) a passagem da caravana. “Se não fosse ele, jamais passava por aqui.”

Novamente, como em Picuí, no sertão do Rio Grande do Norte, o chefe do Executivo do município, ele próprio de origem humilde, é prova da possibilidade de ascensão a que tiveram acesso os sertanejos. “Esse homem tirou nossos agricultores da linha de pobreza, botou filho de agricultor na faculdade. E nós não podemos esquecer esse momento na Morada Nova”, comemorou Nogueira.

“Um homem que já passou necessidade e nunca deixou de acreditar e lutar”, contou Lula, em seu breve discurso, na parada em que foi homenageado pelos vaqueiros da região. O ex-presidente desculpou-se pela voz precária. “Peguei uma gripe em Recife e a garganta parou de funcionar corretamente, mas eu não podia deixar de dar uma palavra de esperança. Vocês, aqui em Morada Nova, sabem que a vida já foi melhor.”

A rouquidão não proibiu Lula de seguir com as paradas extras durante o percurso de 242 quilômetros entre Mossoró e Quixadá, para acenar às multidões que tomam a estrada na tentativa de ver “o homem”. Uma delas foi Ibicuitinga. Era tanta gente que foi impossível chegar ao coreto da praça. Lula acenou e falou aos moradores sem sair do ônibus. O carteiro Cosmo de Lima Nogueira ouviu e comentou: “Lula toda vida ganhou aqui, mesmo com o prefeito não apoiando. Agora o prefeito (Franzé Carneiro, do PDT) está do lado dele, agora que ganha mais bonito ainda”.

A chegada a Quixadá incluiu uma visita ao campus do Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE). O instituto foi concebido em 2008, incluindo um conjunto de novos campi construídos durante os governos petistas e incorporando outros antigos colégios federais. São 32 unidades espalhadas pelo estado, subordinadas a uma nova lógica como meio de fazer com que os jovens do interior não precisassem mais se deslocar para a capital em busca de qualificação tecnológica e melhores empregos.

A caravana foi recebida por estudantes locais e também da Unilab, a Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira, fundada em 2010, com sede em Redenção (CE). Lula também ali poupou a voz, já que ainda na noite desta terça-feira teria ato com movimentos sociais no centro de Quixadá.

A estudante de enfermagem Francianne Ribeiro Alves, de Itapipoca, interior do estado, trabalhou com muitos desses estudantes. Desde 2012 atua em Quixadá, com algumas das principais políticas públicas dos governos de Lula e Dilma voltadas para a agricultura familiar, como Água para Beber, Cisternas de Primeira Água e de Segunda Água.

“Esta é uma cidade acolhedora e histórica. Aqui tivemos o primeiro açude da região, feito por escravos. Hoje é uma cidade universalizada com a água, temos universidades, federal e estadual”, conta. “Esse campus foi muito bem-vindo aqui. É uma oportunidade para os jovens que tinham de se deslocar para a capital ou Sobral. E com o Lula vindo aqui, então, melhor ainda.”

Nas décadas de 1960 e 70, o município esteve na lista das 100 cidades mais populosas do Brasil – e passou e conviver com um forte processo de êxodo diante da falta de políticas de enfrentamento da seca. Francianne atua no Centro de Estudo e Assessoria do Trabalhador (Cetra), ONG que presta assessoria jurídica e técnico-agrícola. E considera que os investimentos no conhecimento, como nas escolas e nas entidades de apoio à população local, e em projetos de infraestrutura, como o Cisternas, representaram uma virada nesse paradigma de que é preciso migrar para viver.

“A cidade estaria bem devastada, com certeza haveria um êxodo muito grande. Se eu não tenho água pra beber, se eu não tenho uma forma de sobreviver, eu vou procurar outro lugar”, explica. “Então não teríamos a quantidade de ovos que temos, não estaríamos sustentando a agricultura familiar, que é a agricultura que sustenta o país e coloca o alimento no Brasil, porque não é o agronegócio que faz isso. Então, isso é uma forma de dizer que a pessoa não precisa sair do lugar onde ela convive e gosta. Se não fosse a cisterna, esse programa social, a gente não teria como viver aqui. Então aqui estaria praticamente um deserto, porque é muito seco.”

Quixadá é maior cidade do Sertão de Quixeramobim, com 85 mil habitantes. Além do enfrentamento da seca, contribui para a permanência das pessoas o fato de ter se tornado cidade universitária do sertão central, hoje com seis instituições de ensino superior, públicas e privadas. Depois do ato desta noite, a caravana passa a noite no município e segue nesta quarta-feira (30) para Juazeiro do Norte, a partir de onde Lula cumprirá visitas em municípios da região conhecida como Cariri.

Braseiro e fornalha

À noite a praça central de Quixadá lotou para recepcionar o ex-presidente. Ele ouviu clássicos do cancioneiro nordestino cantados e tocados por crianças sanfoneiras, recebeu representantes de movimentos de mulheres, agricultura familiar, indígenas, atingidos por barragens, de estudantes e professores e outros. Todos misturando gratidão ao que já foi feito com compromisso com o que está por vir.

Em seu discurso – curto – Lula chegou a desculpar-se por estar sem voz. O ex-presidente, que fará 72 anos em outubro e já percorreu de ônibus três quartos dos 4 mil quilômetros a que se lançou há menos de duas semanas, lembrou o que já foi feito em direitos básicos e infraestrutura, como acesso a renda, energia e água, e o que está sendo desfeito rapidamente.

“Se eu não puder ser candidato, a gente vai arrumar alguém pra ser. Mas eles têm que saber que, se eu for candidato, vocês vão ganhar a eleição outra vez e nós vamos voltar. Se eles não sabem consertar esse país que eles mesmos quebraram, eu quero dizer que um metalúrgico sem diploma universitário é capaz de fazer esse país voltar a crescer.”

(29-08-2017)

Fonte: Rede Brasil Atual
http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2017/08/a-caminho-de-quixada-a-seca-endureceu-o-chao-mas-nao-os-coracoes-sertanejos

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