Café, no singular

Eu pretendo me formar em capitalismo para me tornar um ‘jornalista sem fins lucrativos’, como diria o Millôr, ou sem um fim lucrativo, pensando bem, para poder falar do dinheiro dos outros, desde que o meu esteja lá no banco, mesmo que o banco não seja o meu, mesmo que o meu seja do banco, por decreto oficial e acomodação em praça pública. Desde que o dinheiro acabou, tenho pensado em fazer um café (porque ainda tem café), reclamar do governo (porque ainda tem governo) ou sair para dar uma volta (porque ainda nos é permitido, entre 7 e 20 horas, que é quando todos nós trabalhamos e não temos tempo para dar voltas, reclamar do governo ou tomar café, no singular).

O café, no singular, ainda é um grande produto nacional, assim como as bundas e o narcotráfico. A gente entra com o produto, deixa passar tudo e ganha 10%, bruto. O narcotráfico, no caso, mas com as bundas é parecido. Já os nacionalistas vendem nossa imagem lá fora, liquidam o café, o café vira europeu, a gente traz o café de volta, paga quatro vezes mais pelo café e diz que o café é melhor. É que o que era brasileiro e passou a ser estrangeiro tem um quê de superação de raça, uma coisa bonita de deixar um passado ruim pra trás.

A crise é uma grande oportunidade para crescer, se você for um banqueiro, gerente de multinacional, o presidente da Re-“pública” (sei, sei) ou estiver na família de um dos supra-citados, ad extremum, ipso jure, saúde! Crescem as fortunas, crescem as demandas por mordomos, crescem felizes os filhos do mordomo! Crescem todos!

Em primeiro mão, gostaríamos de anunciar o contemplado desse mês… a conta de luz! O gás chegou perto, terá de esperar. Ontem estive na empresa de telefonia para reescalonar a cobrança. A moça balançou com meu palavreado re-buscado (no dicionário), caiu na minha e sexta vamos sair, juntos, da dívida. Ultimamente tenho sido muito cobrado: a vida imita as contas de telefone ou as contas de telefone imitam a vida? Pedi detalhamento à empresa, mas para mim só resta o café, no singular.

O texto é meu mesmo, em 18 de setembro de 2005, publicado no blog do extinto Jornalistas.com