Breve nota sobre a Intervenção Militar

Trabalho com a hipótese do programa do capital hegemônico de desqualificação geral e mundial das condições de trabalho e de vida da população, por um lado, e de dissolução dos núcleos estatais-burgueses russo e chinês, reduzindo-os à situação semi-colonial, por outro. O  primeiro movimento vem sendo impulsionado em todo o mundo, há décadas, sem exceção para qualquer país, e o segundo ganhou velocidade nos últimos anos, já em confronto praticamente direto com a Rússia e, secundariamente, a China.

A vitória desse programa garantiria ao capital hegemônico, em estágio senil, longas décadas de sursis, no contexto da reorganização semi-barbárica dos trabalhadores e da população, não mais apenas dos países periféricos, como no passado. Atualmente, o Haiti encontra-se, em forma apenas relativa e crescente, também nos USA, na Suécia, na Alemanha, na Bélgica, na Itália, etc. Desnecessário dizer que essa proposta já coloca o mundo à beira de um confronto tático-nuclear, no melhor dos casos.

No Brasil, em 2016, o golpe institucional almejou – e alcançou – realizar salto de qualidade no nível de exploração crescente dos trabalhadores, em geral, e da população, em particular, que o PT – partido burguês com base eleitoral popular – não estava em condições de fazer. Foi seu objetivo, também alcançado, submeter o Estado – já sob o controle superior do imperialismo estadunidense – ao assinalado projeto deste último.

A deposição de Maduro e o fim do chavismo venezuelano teria-se tornado um projeto já não mais no horizonte temporal. Eventualmente, efetivada através de golpe militar interno, apoiado, desde as fronteiras, sobretudo pelo exército brasileiro e colombiano. A viagem de Temer a Roraima e o recente pronunciamento do “secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson”, com a influência de Rússia e China na América Central e do Sul assinalam a possível aceleração desse projeto. A Venezuela é o principal aliado da Rússia e China nas Américas.

Nos últimos anos, o golpismo construiu-se através da formatação conservadora,  em boa parte no contexto da colaboração irresponsável petista, de quatro grandes braços econômico-institucionais: a grande mídia; o parlamento conservador-fisiológico; a Justiça, com destaque para suas instâncias superiores; a alta oficialidade das forças armadas. O quinto braço, essencial para o projeto, foi conquistado com o golpe de 2016, que permitiu a implantação plena das duas instâncias do projeto assinalado.

Destaque-se que o golpismo e dissolução acelerada da hegemonia das classes dominantes burguesas sobre o país, processo político, correspondeu a processo anterior no plano econômico-social, ou seja, o acirramento do caráter neo-colonial do Brasil, nas últimas décadas, através de violento processo: de privatização das empresas pública; desnacionalização da produção; dependência tecnológica; recuo relativo da produção industrial; explosão geral do endividamento público, etc.

A voracidade dos interesses golpistas, em todos os níveis, exigindo tudo, no aqui e no agora, associada à equipe presidencial constituída por assaltantes trapalhões de estrada, ensejaram a planejada degradação imediata das condições de trabalho e existência da população. Tudo sem maior resistência, devido às condições estruturais do mundo do trabalho no Brasil e à ação desmobilizadora de enorme parte da esquerda, não apenas petista, fixada em manter-se como parte da representação política institucional, mesmo viciada. (Eleições)

Entretanto, esse movimento resultou em tamanha degradação social e econômica do país que o golpismo tem dificuldade em administrar as próximas eleições, às quais se seguiriam as modificações institucionais essenciais, para marginalizar a população da própria farsa eleitora, além das grandes privatizações – Petrobrás, CEF, BNDES, etc. O golpismo não tem ainda candidato minimamente viável e o governo Temer mostrou-se um imenso Viagra, capaz de levantar da sepultura dois defuntos em decomposição, Lula da Silva e o PT.

Atualmente, o golpismo compreende que perdeu o time da prisão de Lula da Silva, que não pode deixar de realizar, nem que seja por alguns dias-semanas.  Teme eventual reação popular contra a prisão, que pode ultrapassar de longe as filas do petismo e aliados em reorganização. Teme também explosão popular, ao estilo de 2013, possibilidade reforçada pelas demonstrações anti-governo no Carnaval. Essa situação eventualmente explosiva se fortalece com a defecção, ainda passiva, de enormes facções médias golpistas, fenômeno muito semelhante ao ocorrido após o golpe de 1964, durante o governo liberal Castelo Branco.

A intervenção militar no Estado mais politizado do Brasil se insere harmoniosamente nesse cenário. Desvia a atenção, como se tem proposto, do fracasso do governo na imposição da destruição [reforma] da previdência pública; reconquista, nem que seja transitoriamente, o apoio dos segmentos não apenas médios que abraçam a tese da mídia do fim da violência através da imposição da violência militar. Destaque-se o silêncio e as críticas recuadas de Freixo e mesmo da direção nacional do PSOL sobre a intervenção, temendo não confrontar esses segmentos.

Sobretudo, a intervenção militar coloca, por primeira vez, desde o fim do golpe de 1964, enorme região sob a autoridade militar, dificultando ao mesmo tempo eventuais manifestações no Rio de Janeiro, quando da possivelmente muito próxima prisão de Lula da Silva. Facilita o eventual apoio a golpe na Venezuela. Principalmente, a intervenção cria as condições para uma redefinição dos poderes civis das forças militares na nova ordem pós-2018, que se manterá, em forma crescente, através da repressão direta à esquerda, aos trabalhadores, à população.<

Mário Maestri, 69, é doutor em Ciências Históricas pela UCL, Bélgica, e professor do PPGH da UPF. Tem pesquisado a escravidão colonial brasileira e, atualmente, a história da grande guerra da bacia do rio da Prata [1864-1870]. E-mail: [email protected]

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