Brasil em momento traumático: dilemas, criticidade e ousadia

Notas esparsas, tecidas ao calor das urgências

Ao longo da história, inclusive da sociedade Brasileira, dada a própria condição de inacabamento do ser humano alternam-se momentos luminosos e momentos de obscurantismo, a depender das condições sócio-históricas cultivadas. No momento atual, estamos a amargar uma situação tenebrosa. Em permanente busca de superação dos atuais impasses e dilemas, ouso perguntar-me e compartilhar algo do tipo: sob que riscos mais graves, move-se hoje a sociedade brasileira? O que estará por trás desse desvairado belicismo? Que forças o encarnam e em que(m) se apoiam? Como nos foi possível chegar a este ponto? Onde e como buscar forças que inspirem caminhos de superação, a curto, médio e longo prazos? Que forças sociais se mostram com melhores chances de liderar caminhos alternativos a esta onda de obscurantismo e barbárie que nos tem inundado? Eis alguns dos questionamentos que me ocorre externar, sob o impacto da dramaticidade desta hora.

A história se acha pontilhada de exemplos de alternância entre momentos luminosos e momentos de obscurantismo: como extrair lições de caráter libertário? O Universo como uma mega-oficina de tecelagem, como uma imensa rede de fios cósmicos, que vai sendo tecida pela força da sinergia a mover seus tecelões e tecelãs (os seres cósmicos em sua dinâmica relacionalidade), ora numa, ora noutra direção, ora tendendo para uma direção biófila, ora – e aqui, graças apenas a uma de suas espécies, o “homo sapiens” – numa direção necrófila. O “homo sapiens” irrompe, no Universo, como a expressão de sua consciência, como sua espécie pensante. Condição que, historicamente vocacionada a um destino biófilo, em certas condições, graças à sua liberdade, ou melhor, graças ao seu livre arbítrio, pode também induzi-lo a escolhas necrófilas, dotando parte expressiva do Universo de uma sinergia também necrófila, neste caso, transformando-se de “homo sapiens” em “homo demens”, a depender das escolhas que faça, em seu dia-a-dia.

É curioso, a este propósito, perceber-se como condutas moleculares podem oscilar ora para uma direção, ora para a direção oposta. Escolhas aparentemente ínfimas de significado se acham recheadas de sentido, numa ou noutra direção. Mesmo inocentes iniciativas de apreço à Natureza, se não se fundam em escolhas criteriosas – principalmente da parte de quem está mais aparelhado, pela sua experiência e pelo seu aprendizado existencial – pode estar colaborando OBJETIVAMENTE para o fortalecimento de uma orientação necrófila, mesmo pretensamente imbuída de propósitos biófilos. Inciativas, por exemplo, que têm lugar em projetos de defesa da Natureza, em que se contribui para a “naturalização” de práticas de animais mantidos em cativeiros, por vezes com argumentos bem-intencionados, podem reforçar a má direção. A condição de “homo sapiens” não irrompe como uma fatalidade, como um determinismo, mas como uma possibilidade, como um chamamento histórico do Universo, que só se cumpre efetivamente quando e onde o “homo sapiens” CULTIVA os passos nessa direção. Caso contrário, pode estar indo na direção oposta, e assim se transformando, conscientemente ou não, em “homo demens”. Eis por que é fundamental que estejamos sempre a pensar nossas práticas, com a consciência de que elas se acham necessariamente interligadas. Sendo assim, nosso cotidiano emerge como um cenário no qual cada momento se faz um atestado efetivo de para onde conduzem nossas boas ou más escolhas. Resistir a pensar nossas práticas, fugir deste exercício acabam se transformando em atos suicidas, que a ninguém servem, senão a uma autodestruição pessoal e coletiva. Pensar a prática, pois, é a lição maior a ser recolhida com exercício da reflexão crítica.

O exacerbado recurso à combinação de ódio, mentira e violência não é algo novo, na história das sociedades ocidentais. Alcança raízes remotas. Um dos períodos mais marcantes foi o tempo do ascenso do Nazismo, em especial por meio da figura de Joseph Goebbels (ministro de Hitler).

Atendo-nos especificamente aos atuais desafios da esfera política, importa também refrescar nossa memória histórica, pelo menos a partir do legado de Goebbels, em que assume proporções exacerbadas, o confronto entre a força da razão e a razão da força, mediante o uso e abuso de uma combinação necrófila extraordinária de elementos, tais como a mentira, o ódio, a violência, o medo, aos quais se recorre como estratégia de dominação.

Especialmente, em situações graves, costuma prosperar de parte a parte a mentira, razão por que se costuma dizer que, em situações de guerra –especialmente guerra ideológica – a verdade se torna a primeira das vítimas. Caso típico do ascenso do Nazismo na Alemanha (onde prosperava o famoso dito “Deutschland über alles” – “Alemanha acima de tudo”…), durante o qual foi confiado a Joseph Goebbels o encargo de chefiar o serviço de propaganda nazista. A ele se atribuem pensamentos do tipo: “A mentira repetida mil vezes torna-se verdade” (Eine Tausendmal Wiederholte Lüge Wierdzur Wahrheit) ou “Se você contar uma grande mentira e repeti-la com bastante frequência, as pessoas acabarão acreditando. A mentira pode ser mantida enquanto o Estado conseguir proteger as pessoas das consequências políticas, econômicas e militares da mentira. Portanto, é vital que o Estado use todo o seu poder para suprimir a dissensão. A verdade é o inimigo mortal das mentiras e, portanto, a verdade é o maior inimigo do Estado.”

Desta receita nazista não faz parte apenas a mentira. A ela se acrescentam, de modo interconectado o ódio, a violência e o medo, cada um utilizado, ao seu modo. Para esta lógica perversa, a mentira tem que vir associada à violência mais estúpida, substituindo a força da razão pela razão da força (recentes declarações assacadas a membros e à instituição suprema do judiciário não são mera coincidência). Igualmente funcional e eficaz a esta mesma lógica, apresenta-se o ódio como estratégia política. Em sua lógica, é fundamental incrementar o ódio aos inimigos (de classe, a misoginia, o racismo, a xenofobia, a homofobia…), ainda que atenuado com palavras adocicadas, para confundir os incautos. Tal elemento favorece potencialmente o medo, a ser infundido, em larga escala, sob alegação de que o mal só pode ser combatido com a violência e com a eliminação dos que se insurgem contra sua “ordem”…

A tal combinação explosiva associa-se o componente religioso, que confere uma força toda especial à estratégia em jogo, uma vez que se tenta convencer os incautos pela força do sagrado, ainda que em sua dimensão reelaborada e distanciada das fontes em que se diz inspirar. Trata-se do fundamentalismo religioso…

Ao extremo calor dos embates, em que o momento nos mergulha, sentimo-nos tentados a esquecer que, qualquer que seja o desfecho eleitoral, nem o caos apocalítico nem a salvação vamos ter como consequência, por mais impregnada de um ou de outro desses horizontes esteja nossa sociedade. Isto nos serve, por um lado, de alento, e por outro, nos enche de responsabilidade histórica. É compreensível que, no horizonte imediato, nossas energias se voltem quase exclusivamente para evitar o risco pior – a face mais reconhecida da barbárie, não tanto estampada num indivíduo, mas notadamente traduzida em parcelas significativas de nossa sociedade: este é o verdadeiro escândalo!

Uma leitura imediatista do que se passa entre nós, no Brasil e no mundo, comporta elevados e perigosos riscos de reducionismo. À medida, porém, que nos esforçamos por tomar alguma distância crítica do imediatismo, criamos condições favoráveis para uma compreensão mais objetiva ou menos insegura de uma interpretação reducionista da realidade social. Com efeito, uma revisitação a situações históricas recentes e menos recentes, nos permite refrescar a memória, no sentido de contermos nossas paixões imediatistas, ajudando-nos a exercitar nossa criticidade e a fortalecer nossos passos em busca de superação dos impasses atuais. Isto nos ajuda, sobremaneira, a temperamos nossas energias criativas, em direção a um horizonte alternativo à barbárie que nos ronda, afinal esta situação obscurantista não surge do nada…

Se é verdade que a sociedade brasileira vive momentos cruciais, de profundos impasses, como poucas vezes, em nossa história, também é verdade, no âmbito do imediato, que o grande e grave desafio instantâneo é o de tentar evitar o pior dos desfechos eleitorais – a vitória da insanidade extremada, caminho mais propício à naturalização do clima de barbárie, que se respira. Em qualquer, porém, dos casos, a tarefa central das forças que se querem historicamente comprometidas com a construção de uma alternativa a esta barbárie anunciada, é ousar passos, a curto, médio e longo prazos, em busca de novo rumo, novos caminhos e novas posturas, alternativas ao obscurantismo que nos ronda.

Somente a quem não quer ver, se dá a cegueira suicida que ameaça significativas conquistas democráticas, ainda que misturadas com entulhos acumulados ao longo das décadas mais recentes, inclusive por parte de quem se esperava a tarefa de remoção desses entulhos. Mesmo assim, resulta incomparável assumir como alternativa a isto a opção por um caminho muitas vezes pior do que o criticado.

João Pessoa, 24 de outubro de 2018.

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