Binarismos ignorantes

Fundamentalmente dependente da comunicação, a vida social seria inviável sem o uso de estereótipos. “Tipos fixos”, como indica sua etimologia, são absolutamente necessários para que homens e mulheres possam se entender sem ter de, em meio a um simples diálogo, recorrer a enciclopédias, ou melhor, ao Google, para fazer uma profunda avaliação contemplando aspectos históricos e sociais relativos ao objeto do assunto.

Por exemplo, ao se mencionar o termo “nerd”, logo pensamos em alguém de óculos, cheio de espinhas na cara, desengonçado e que não faz nada além de estudar e jogar videogame. Ou quando se fala em Brasil, principalmente no exterior, é quase certo que serão lembradas mulheres de biquíni em Copacabana, futebol (Pelé), carnaval e Pão-de-Açúcar como aquilo que constitui a essência do país. Por isso, por mais generalizada que seja e, portanto, frequentemente imprecisa, a descrição estereotipada possibilita a construção de uma imagem que corresponde à ideia que o interlocutor deseja passar. Isso, em questão de segundos. Daí o mérito do estereótipo.

Essa ferramenta lingüística, no entanto, configura também um artifício perigoso, uma vez que, nas mãos, no lugar e hora errados, podem causar sérias injustiças e desentendimentos. Tipos fixos podem ser usados para incitar o ódio a respeito de certas etnias ou povos, contribuindo, por exemplo, para o acirramento das tensões na relação entre o mundo branco-ocidental e o Oriente Médio. Enquanto muitos da metade à esquerda do mapa mundi imaginam seres primitivos que gostam de maltratar mulheres e se explodir por aí, outros tantos logo à direita do meridiano de Greenwich vislumbram homens e mulheres pecadores, materialistas e que, possivelmente, vivem lindos e loiros devido ao pacto com o diabo que seus bisavós fizeram para enriquecer.      

Ora, nota-se aí um claro exemplo de binarismo ignorante, e não exatamente “burro”, por ser construído a partir do desconhecimento ou conhecimento totalmente parcial e baseado em visões pré-determinadas sobre à cultura alheia. Afinal, para além do fato de que naturalmente não são esses traços que realmente constituem a maioria dos cidadãos de ambos os lados – até porque nenhum ser humano dito normal quer o mal de si mesmo e dos outros, ao contrário do que acontece em clássicas animações e filmes norte-americanos, em que o vilão quer destruir o mundo (sempre me perguntei onde será que o sujeito viveria, se em algum episódio não fosse derrotado pelo mocinho) –, por mais inseridas que as pessoas estejam em suas respectivas culturas, elas jamais deixam de ser dotadas de subjetividade. Sendo assim, cada indivíduo tem suas condicionais, variantes, bifurcações e afins, de modo que qualquer tentativa superficial de descrição e qualificação, comopalestina ocorre por meio dos estereótipos, não passará de um pré-conceito, equivalente a uma simplória rotulação da pessoa ou grupo social em questão.

Embora nada disso seja novidade, persistem em todo o mundo visões estereotipadas que contribuem direta ou indiretamente para conflitos sociais (nacionais ou internacionais), crises diplomáticas e – o mais importante, se quisermos chamar a atenção de economistas, legisladores e autoridades – gastos exorbitantes em função da indústria do medo. Esta é alimentada diariamente pela mídia, cujos preciosos segundos não podem dispor, na maior parte das vezes, de mais do que concepções maniqueístas que elevam binarismos ignorantes e altamente ideológicos ao status de verdade.

Essa lógica, contudo, deposita sobre a imprensa e a publicidade e propaganda toda a culpa sobre algo que é, de certa forma, intrínseco à sistemática que norteia a forma humana de interpretar os signos. Os meios de comunicação, salve McLuhan, são uma extensão de nossos sentidos e por isso mesmo não estão imunes às nossas paixões e limitações, de modo que também farão uso de estereótipos. Somos nós mesmos, portanto, os responsáveis por essa apelativa – porque de fácil e rápida compreensão –, irredutível, imprecisa e sub-reptícia, é bom dizer, maneira de representar o Outro. Cabe, então, a cada uma das pessoas saber em que ocasiões é adequado fazer uso da ferramenta.