ASSUNTO DE POLÍCIA

Fiz vestibular em 2004. Lembro que havia uma questão de história que quase sempre caía nos simulados e cuja resposta correta era “Pobre no Brasil é assunto de polícia”.

Não me recordo da pergunta; imagino que fosse algo referente ao período da República Velha. A resposta, no entanto, nunca saiu da minha cabeça, não só porque era de uma franqueza sinistra, meio que politicamente incorreta, mas porque, desde então, não consigo deixar de notar como sua atualidade permanece.

Estamos em 2014 e vemos que, depois dos programas de bolsa-auxílio (família, escola, etc.) e o “Minha Casa, Minha vida”, do governo federal – cuja legitimidade e funcionalidade são discutíveis –, a política de governo mais badalada do momento são as Unidades de Polícia Pacificadora, no estado do Rio.

Que o projeto representa um avanço em relação ao que (não) era feito antes, isso é inquestionável. Afinal, antes um braço (ainda que armado) do Estado presente nas favelas que apenas traficantes fortemente armados.

Mas, no fim das contas, persiste a velha relação do Estado brasileiro com as camadas mais pobres da população via seu aparelho repressor, a saber a polícia militar, que, como está expresso em sua própria nomenclatura, consiste em um corpo militarizado treinado para enfrentar inimigos (não é por acaso que o batalhão de operações especiais da PM, o Bope, tem uma caveira como símbolo).

É claro que o que está acontecendo hoje no Rio de Janeiro – revoltas de moradores contra abusos e até assassinatos cometidos por policiais das UPPs – seria uma questão de tempo caso o Estado não entrasse nas comunidades com os serviços básicos que tem a obrigação de oferecer a todos os cidadãos, sejam ou não favelados.

De outra maneira, não há processo de inserção social possível; as condições de vida dessas pessoas não melhoram e, para piorar, elas ficam sob controle de uma instituição militar que, mesmo que não protagonizasse casos de má-conduta e corrupção, ainda assim não seria o órgão estatal adequado para governar a vida dos moradores.

Ontem, 22 de abril, data que marca o 514º ano do descobrimento do Brasil, ocorreu mais uma revolta, desta vez no complexo do Pavão-Pavãozinho, contra policiais da UPP instalada na comunidade. Eles são acusados de matar um rapaz que teria ido à comunidade visitar seu filho e que, para “desespero” das autoridades, é dançarino do programa Esquenta, da Rede Globo.

A manifestação logo ganhou os holofotes da mídia, já que a favela está em Copacabana, um dos pontos turísticos mais importantes da cidade e que abriga um dos principais complexos hoteleiros que atenderão à demanda de turistas que virão para a Copa do Mundo.

Assim como fez em protestos anteriores em outras favelas, a Grande Mídia – que, desde a criação das UPPs, faz na prática uma “assessoria de imprensa de luxo” do programa – deu a entender que a manifestação no Pavão-Pavãozinho teria sido organizada por traficantes em retaliação “aos prejuízos causados ao tráfico pelas UPPs”.

Essa vem sendo a desculpa usada para tudo que dá de errado em favelas ocupadas por UPPs, como se o programa não tivesse falhas e como se os moradores dessas áreas estivessem totalmente satisfeitos com tudo o que está acontecendo.

Mas basta conversar com alguém que mora nessas comunidades (não vale depoimentos de moradores deslumbrados a repórteres da Globo em dia de inauguração de UPP, com políticos tirando fotos e bandeirinha do Brasil fincada ao fundo) para constatar que não é bem assim.

Os problemas relatados vão desde abusos de autoridade à intensificação da especulação imobiliária, que tem “expulsado” moradores de morros com UPPs por conta da valorização dos preços de aluguéis (o caso da favela da Telerj talvez esteja diretamente relacionado a isso).

Essa estratégia da Grande Mídia, de deslegitimizar tais protestos, é muito semelhante ao que fez no caso das manifestações de rua que tomaram as ruas do país em 2013, principalmente no período final do movimento, quando a massa já não aderia em peso às passeatas – muito em função de um medo propagado pelos veículos de comunicação (“Black blocs assassinos”, vândalos etc.).

Na época, reportagens procuravam apontar ligações entre partidos políticos de oposição às manifestações, como se professores e outros servidores públicos não tivessem motivo algum para reclamar (afinal, todos são muito bem pagos neste país, como se sabe…). Foi nesse momento, inclusive, que O Globo publicou uma série de reportagens evidentemente tendenciosas ligando o deputado Marcelo Freixo, do PSOL, aos Black blocs.

A questão é que será cada vez mais difícil para a mídia e autoridades taparem o sol com a peneira. Muito diferentemente do que se passava no início do século 20, e mesmo na década de 90, hoje até os mais pobres têm algum acesso a tecnologias de comunicação; muitos já têm escolaridade e interagem com pessoas de classe média e alta.

Eles sabem, portanto, quais são seus direitos e possuem ferramentas para chamar atenção da sociedade para as atrocidades que ainda são cometidas pelo Estado nas favelas.

A política do jeitinho, “para inglês ver”, que tenta manter os excluídos quietinhos durante os grandes eventos internacionais, não será mais suficiente, mesmo apelando para a repressão extrema (que é o que acredito que acontecerá durante a Copa).

Não tem mais jeito: “infelizmente” o governo terá de começar a cumprir suas obrigações para com os pobres, superando o obsoleto e irresponsável modelo de relação militarizada com essa camada social, para não ficar mal na fita diante dos olhares internacionais.

 

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