As crianças de coração de pedra

Por Gustavo Barreto, fevereiro de 2007

O brutal assassinato do menino João Helio na última quarta-feira (7/2) diante de sua família, no bairro de Oswaldo Cruz, periferia do Rio de Janeiro, provocou uma série de reações da sociedade civil em todo o Brasil. A indignação da população se parece um pouco com alguns casos anteriores de violência urbana, como o que ocorrera no dia 31 de março de 2005, quando pelo menos 30 pessoas foram mortas por policiais nas cidades de Queimados e Nova Iguaçu. À época, a atriz Fernanda Montenegro declarou: “Estamos mais covardes que na época da ditadura. Não podemos aceitar uma chacina como coisa natural”.

Diante da brutal perda que sofrera, ainda em estado de choque, a mãe de João Helio declarou à TV Globo no domingo (11/2) que os garotos que cometeram este crime “não tem coração” e que no lugar de um coração havia “uma pedra”. O apresentador do programa de variedades da mesma emissora, popularmente conhecido como Faustão, afirmou no mesmo dia que “o pessoal fica falando do Iraque, mas aqui no Rio já estamos em guerra civil há mais de dez anos”. Com isso, surgem manchetes e opiniões gerais de que estamos em uma situação de “confronto urbano” ou ainda “conflito urbano”.

Existe uma diferença importante entre os conflitos da nossa sociedade e os confrontos que estamos vivendo. Existe, aliás, uma diferença fundamental entre conflito e confronto que é útil para a nossa vida cotidiana, não apenas como pura reflexão filosófica distante da vida.

Conflito, do latim conflictu, grosso modo, é quando dois lados (ou mais) estão em disputa e um tenta se sobrepor ao outro, tenta vencer o outro. É o que ocorreu no jogo entre Botafogo e Flamengo, neste domingo, no Estádio Maracanã, em que todos os presentes exigiram justiça para o Caso João Helio. Confronto, derivação regressiva do verbo confrontar, por sua vez derivado do francês front (parte frontal da cabeça, face), grosso modo, é quando dois lados (ou mais) tentam se anular, eliminar o outro.

O outro anulado
O confronto que existe atualmente em nosso cotidiano, em nossa vida, é a anulação do outro que praticamos diariamente. O outro que lembramos quando sentimos indignação são os políticos, tal como fez o apresentador Faustão neste domingo. Ele afirmou que, “com raras exceções”, os políticos são insensíveis e não se importam com a segurança das pessoas. É possível achar uma centena de opiniões parecidas neste sentido, escolha a sua.

Este outro – o político corrupto, insensível e descomprometido com a sociedade – é aquele que permeia nossa memória coletiva. Ele está em todos os lugares, é o culpado de praticamente todos os males da sociedade e por aí vai. Não é preciso se alongar nesse tema, há farto material disponível na imprensa com esse tipo de opinião.

Em quase nenhum momento o outro é o conjunto de crianças anuladas pela sociedade. O quase da frase anterior é uma ponderação necessária, já que não fiz uma pesquisa aprofundada em relação ao assunto. No entanto, para mim, telespectador comum, em nenhum momento este outro apareceu na imprensa.

Eis o confronto: anulamos crianças por aparentemente não terem coração. No lugar, uma pedra. Não merecem nosso amor, já que – citando a mãe de João – “nenhum amor mudará esta situação”. O amor que João Helio recebeu por essa dedicada e orgulhosa mãe foi negado a um sem número de crianças que, hoje, tentando entrar pela porta dos fundos da sociedade, imploram por oportunidade.

“A população excluída, como não tem o benefício da cidade, cria suas próprias regras. Se o Estado não a protege, a quem protege?”, pergunta a filósofa Viviane Mosé, no programa dominical Fantástico, da TV Globo. A propriedade, talvez. Os bairros nobres também não seria uma resposta ruim. Certamente não as crianças de coração de pedra de Oswaldo Cruz.

A sociedade civil desorganizada e hipoteticamente conectada em rede pela imprensa audiovisual e pela internet naturaliza uma situação de “reação indignada” que nada tem de construtiva. Continua com sintomas de confronto contra aqueles que mais precisam. Amanhã, nos jornais, tudo volta ao normal. Pedirão leis mais rigorosas na área criminal, ao passo que no caderno de economia também exigirão mais rigor, só que fiscal, com cortes de investimentos públicos. Na rua, no caminho do trabalho, continuarão a achar normal que pessoas durmam na rua, com fome, sem acesso à cidadania, sem regras. Natural que seja, até o próximo João e a mesma reação indignada.


Gustavo Barreto é pesquisador da UFRJ e editor Consciência.Net (www.consciencia.net)

Comentários

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Revista diária fundada em 13 de maio de 2000.

Seções: Opinião.

Olá, gostei bastante deste blog. Até mesmo “roubei” uma matéria daqui!!! Claro que com todos os créditos.
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Beijos
Bruna
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