AS CONTESTAÇÕES NA IGREJA CAUSAM EMBARAÇO AOS BISPOS DA EUROPA

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Por Anne Bénédicte HOFFNER e Raphaèlle de YVOIRE.

Depois da Alemanha, da Áustria e – em menor proporção – na Irlanda e na França, agora é na Bélgica que padres e leigos expõem abertamente pedido de reformas profundas.

Ainda que as questões que eles levantam, nem todas digam respeito aos bispos, elas colocam esses últimos numa posição delicada.

Agora chegou a vez de a Bélgica ser alcançada pela onda de contestação.
Acompanhado por alguns colegas e por alguns leigos, um padre de Courtrai foi, no outono, à iniciativa do manifesto “Crentes tomam a palavra” (“Gelovigen nemen het woord”); este manifesto reuniu mais de 8.200 assinaturas, dos quas cerca de 10% são padres ou responsáveis por paróquias, segundo o semanário cristão flamengo “Tertio”.

Com base num diagnóstico bastante severo sobre a Igreja Católica na região de Flandres, ele pede “reformas indispensáveis”: a comunhão para divorciados recasados, a ordenação de homens e mulheres casados e o acesso dos leigos à pregação ou à administração das paróquias. “Uma comunidade eclesial organizada resulta necessária. Mas, sua forma atual já não corresponde às realidades, porque ela ainda deixa repousar tudo sobre o sacerdócio de seus homens, além de celibatários”, declaram os signatários.

PARA OS BISPOS BELGAS, UM MOVIMENTO “LEGÍTIMO”

Mons. Johan Bonny, bispo de Anvers, declarou que reconhecia como “legítima” a questão dos critérios de ordenação. “Junto com um certo número de bispos, temos dito com freqüência que o fato de que homens casados também possam ser ordenados poderia ser um enriquecimento para a Pastoral. Mas, isto não seria uma solução milagrosa para a falta de padres”, cuidou de precisar.

No começo de fevereiro, uma delegação do Manifesto foi recebida pelo conjunto dos bispos flamengos e por Mons. André Leonard, arcebispo de Bruxelas-Malinas. Estes últimos, querendo estar à escuta, se disseram “também à procura de renovação.

O mesmo cenário parece reproduzir-se progressivamente em diversos países europeus. Em fevereiro de 2011, em pleno escândalo ligado às revelações de atos de pedofilia cometidos por pardres, e enquanto numerosos católicos alemães faziam a escolha de deixar a Igreja, o diário Suddeutsche Zeitung publicou um memorando intitulado “Igreja 2011, uma renovação indispensável”. Assinado por 150 teólogos alemães, suíços e austríacos.

“Após um primeiro movimento de medo, a idéia se impôs a numerosos cristãs e cristãos responsáveis, ordenados ou não, de que reformas de fundo eram necessárias”, escreviam os signatários, seguidos por alguns teólogos brasileiros, americanos ou fioipinos.

Meses depois, em visita à Alemanha, Bento XVI lhes respondeu propondo uma meditação sobre a expressão “Wir sind Kirche” (Nós somos Igreja), dessa associação nascida na Alegmanha, em meados dos ano 1990. favorável a reformas em profunidade. No entanto, prova de que o debate não está morto, perto de 100 mil assinaturas acabam de ser recolhidas pela Comunidade das Mulheres Católicas da Alemanha, para uma petição em favor do acesso à comunhão dos divorciados recasados.

Entretanto, os bispos puseram em prática, a longo prazo, um processo de concertação, e convidaram 300 católicos – leigos e religiosos – para refletirem juntos, durante os próximos quatro anos, sobre a fé e o futuro da Igreja Católica. Uma primeira sessão já ocorreu em julho passado.

300 PADRES E DIÁCONOS EM CONTESTAÇÃO, NA ÁUSTRIA

Mas, é na Áustria que o conflito tem sido mais duro. Coordenados pelo Pe. Helmut Schüller, ex-Vigário Geral do Cardeal Christophe Schönborn, Arcebispo de Viena, e iniciador. já em 2006, de uma “Iniciativa de Padres”. Mais de 300 padres e diáconos assinaram, no último verão, o seu “apelo à desobediência”. O termo “desobediência” suscitou um efeito considerável, a ponto de certa mídia chegar a evocar a hipótese de um “cisma”.

Hoje, a emoção voltou a baixar amplamente, e a Diocese de Viena acaba de lançar seu programa de redução do número de paróquias, mesma iniciativa que havia provocado a tensão. No entanto, uma recente pesquisa de opinião do Instituto Oekonsult, publicada terça-feira passada, indica que 87% dos austríacos acham que a Igreja não deveria forçar as paróquiias a se fundirem.

“Não está prevista qualquer reunião com os signatários”, lamenta uma pessoa próxima do Dossier. Quando da última Assembléia Plenária, os bispos só se comprometeram a discutir de modo mais aprofundado apenas com os padres
Sobre seus problemas cotidianos.”

INICIATIVAS NA FRANÇA E NA IRLANDA

As questões levantadas pelos singnatários – ordenação de homens casados, acesso à Eucaristia, etc. – serão igualmente trabalhadas, neste ano, “no contexto do Ano da Fé”, decretado por Bento XVI, e “à luz do Concílio Vaticano II”, do qual a Igreja comemora este ano o cinqüentenário da abertura. Em 23 de janeiro, os bispos austríacos foram convidados a irem a Roma, para exporem a situação diante de vários membros da Cúria. “Pelo que sei, eles retornaram sem diretrizes: era um encontro informal”, relata ainda esta fonte.

Finalmente, a Irlanda – onde dez por cento dos padres se filiaram à Associação dos Padres Católicos – e a Framã – em que um pequeno grupo de padres da Diocese de Rouen, seguidos por leigos, autores de uma “Carta Aberta aos Cristãos da Diocese criaram, nesse outono, a associação “Apoio ao Apelo dos Padres Austríacos” – foram também tocadas, ainda que em menor proporção, por essa onda de contestação.

“Nesse ´pacote´, nem tudo é da mesma ordem, e é por isso que eles não são escutados”, adianta Arnaur Join-Lambert, professor de Teologia Pastoral e de Liturgia em Louvain-la-Neuve. O Pe. Schüller, coordenador da dissidência, na Áustria, conhece o argumento, mas retruca: “Propostas mais leves já haviam sido feitas, no passado, mas nada se produziu. É preciso ir mais longe, falar mais claramente”, apelando a que a Igreja retome “sua antiga tradição democrática.”

ESPAÇOS DE CONSULTA NA IGREJA

É esta cultura “democrática” da Igreja que aqui é objeto de interrogação.
“Talvez essa contestação seja sinal de uma falta de consulta habitual e de espaços de diálogos, que, entretanto, estão previstos na Igreja”, observa Pe. Dominique Barnérias, padre da Diocese de Versalhes, e autor de uma tese sobre os sínodos diocesanos.

Na França, o problema do acesso à comunhão das pessoas divorciadas e recasadas é quase sistematicamente abordado por ocasião dos sínodos. Para Arnaud Join-Lambert, os conselhos pastorais e presbiterais colocados ao redor do bispo ou até – no nível supradiocesano – o Fórum europeu dos Leigos, reconhecido por Roma, constituem outros lugares possíveis de discussão.

Para o teólogo, “tais movimentos não podem ficar sem serem ouvidos”, pois “não ser ouvido pode provocar uma espécie de frustração”.
“Ainda que não seja fácil, e sentindo-se um pouco bloqueado, o papel do bispo é de segurar as duas extremidades, de manter a comunhão em sua Diocese”. Tanto mais que, como lembraram os bispos belgas, se essas questões são da alçada da Igreja universal, outras – como as liturgias dominicais – dependem dele, pelo menos em parte.
“A Igreja não pode ser uma democracia, mas o Vaticano II, com os sínodos, os conselhos pastorais e prebiterais, criou os instrumentos adotados em nossa cultura democrática”, estima esse teólogo. “Os padres conciliares haviam previsto isto.”

Publicado no Jornal católico francês La Croix, de 13 de maio de 2012, cf. site:

http://www.la-croix.com/Religion/S-informer/Actualite/Les-contestations-dans-l-Eglise-embarrassent-les-eveques-d-Europe-_NG_-2012-02-26-772395

(Trad. Alder Júlio F. Calado)

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