ARTE E SOCIEDADE EM LUKÁCS: ESCRITOS ESTÉTICOS. 1932-1967

Lançado em 2009 pela editora da UFRJ, estes escritos seletos de Lukács vem em boa hora. Momento em que a crítica literária e os cursos de artes vivem um impacto considerável de “estudos pós-modernos” e de fraca teoria. A crítica de Lukács é a certeza de exigência cuidadosa com o texto na sua tessitura literária e tem a vantagem de nos colocar diante de uma boa tradição do modernismo ocidental.

A reflexão de Lukács, obviamente, não começa nos anos 30 do século passado. Os primeiros escritos do pensador húngaro se iniciam por volta de 1902 e tem um grande momento com as publicações de “A alma e as formas” (1911) e “A teoria do Romance” (1915). Duas obras ensaísticas da mais alta qualidade. Nesta pequena obra-prima, “A Teoria do Romance”, obra pré-marxista revela um Lukács fazendo a passagem do idealismo subjetivo de Kant para o idealismo histórico-objetivo de Hegel. Obra concebida inicialmente como uma introdução a Dostoievski, termina por se tornar um texto autônomo. Ainda hoje, texto obrigatório em teoria da literatura que mereça este nome.

O trabalho em questão já é de um Lukács maduro e ligado ao método marxista de análise literária. O livro vem dividido em duas partes. Na primeira temos uma espécie de “contribuição à história da estética”, onde percebe-se a clareza com que o autor nos coloca diante da evolução da estética moderna ocidental. São textos sobre Nietzsche, Hegel e um primoroso sobre os escritos estéticos de Marx e Engels (único no gênero). Na segunda parte, intitulada “Para uma teoria marxista dos gêneros literários”, são recolhidos textos nos quais Lukács busca determinar o modo pelo qual diversos gêneros literários expressam, em sua legalidade estética imanente, diferentes modos de figurar constelações histórico-sociais. Aqui esta a essência do método crítico de Lukács: a inseparabilidade de Conteúdo e Forma. Encontramos no livro artigos sobre a sátira (um raro texto sobre o sentido filosófico-literário do satírico), sobre o Romance, sobre a lírica e um sobre a tragédia.

Todos estes textos de Lukács demonstram que seu pensamento estético não trata a obra de arte a partir apenas de uma “abordagem externa” (como dizem erroneamente seus detratores). Ao contrário, eles buscam demonstrar a estrutura imanente da figuração estética, que são diversas nos diferentes gêneros literários, e que só tem sua particularidade adequadamente revelada quando o seu concreto condicionamento histórico-social é apresentado na multiplicidade das suas mediações. Isto posto, podemos afirmar categoricamente: Lukács e a sua critica literária são de importância impar num curso de teoria da literatura ou de crítica literária. De um modo geral, a crítica deste pensador húngaro é de fundamental importância nos estudos sobre qual quer expressão estética.

Romero Venâncio é docente na Universidade Federal de Sergipe.

ARTE E SOCIEDADE. ESCRITOS ESTÉTICOS. 1932-1967. (Trad. José Paulo Netto e Carlos Nelson Coutinho). Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 2009.

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