Argentina, um sonho

Daqui a alguns dias, Argentina comemora seus 200 anos de existência. Para muitos, entre os que me conto, a data chama lembranças dos primeiros anos de vida. O sol de maio, o grito de liberdade, os mitos e fatos que marcam a vida das crianças num país que insiste em tentar caminhos, a pesar das muitas dificuldades internas que enfrenta para tentar se levar a sério. 200 anos depois, Argentina não tem ainda um claro projeto como nação.

Diferentemente de outros países do continente, entre os quais se contam o Brasil de Lula e a Bolívia de Evo Morales, o país do Prata parece ainda dormir o que parece ser seu pior pesadelo: o sonho peronista. E é um pecado um argentino dizer isto, pois irá atrair sobre si as iras da chamada “esquerda peronista”, hoje aparentemente no poder a través do matrimônio presidencial Kirchner, bem como da vasta gama de setores diversos, da ultradireita “nacionalista” aos setores que ainda sonham com ver chegar à Casa Rosada um outro salvador ou salvadora da pátria.

A história ensina o quanto os salvadores da pátria tem feito dano ao meu país, e continuam a fazê-lo, desde essa trincheira aparentemente intocável que se chama peronismo, e que acoberta  setores dos mais opostos da vida nacional, desde estudantes de base e operários sinceramente convencidos da ainda vigência da doutrina peronista, até o que parece ter-se entronizado no poder com perspectivas vitalícias e sem oposições: o matrimônio Kirchner.

Creio que já é tempo de que a Argentina comece a olhar para o futuro. Deixar de crer em mitos que hoje a adormecem e a cegam para os graves erros que poderão mais uma vez precipitá-la em abismos de difícil saída. Refiro-me à soma do poder público que o casal presidencial parece empenhado em acumular, restingindo os espaços da oposição no congresso, cerceando a autonomia do judiciário, anestesiando a massa com futebol de graça, ameaçando a imprensa que se atreve a criticar ao casal Kirchner por abusos do tipo que for: abusos de poder, distorsão dos índices inflacionários do Indec, etc.

Não pretendo com estas linhas, a poucos dias do dia em que se celebra na Argentina a revolução de maio de 1810, fazer outra coisa do que um desabafo. Estou cansado da improvisação desde o poder e da falta de perspectiva dos setores que dizem se interessar pela sorte da maioria do povo, aqueles que, na política e na educação, na imprensa e na cultura, continuam esperando que a solução venha de algum outro lugar que nós mesmos cada um e cada uma , a soma de nós feita redes de mobilização social, isso que no Brasil vem dando tanto certo, e que vejo despertar, de outro modo, na Bolívia de Evo Morales.

Mobilizações sociais de diversos tons e perspectivas, convergindo num sonho comum, de gente se redescobrindo gente e não mais massa de manobra. Gente mobilizada desde a base social, costurando caminhos de reconstrução das identidades, da memória, da justiça, dos valores humanos seriamente golpeados pela ética neoliberal e pelo capitalismo selvagem, pela direita retrógrada que insiste no terrorismo e no medo, tentando ainda se subtrair ao que é inevitável, o juízo e a punição aos genocidas.

Somente essa mobilização horizontal poderá quebrar os vícios autoritários na cultura argentina, abrindo espaço para novas formas de ação social e política, novas formas de ser, mais fraternas, mais tolerantes com as diferenças, mais confiantes num futuro melhor que se faz a cada dia, a cada hora, a cada minuto, nessa invisível soma de esforços que configura a vida humana que se renova e se redireciona para metas mais altas, sempre mais elevadas.

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