Apressados e invisíveis

Hoje andei pelo centro histórico do Rio de Janeiro. Andei olhando, observando as pessoas, as coisas, os prédios, os cortiços.

As pessoas, de um modo geral, passam apressadas, agitadas. Passam rápido, como numa corrida de cavalo. Uma oportunidade de passar à frente de outra pessoa é bem-vinda, se estiverem com pressa. A irritação com quem está com pressa é uma hipótese para aqueles que andam devagar, a divagar.

Os objetos estão à vista, em geral à venda. Alguns chamam atenção mesmo dos mais apressados. Outros apenas dos que olham com mais interesse. Outros estão esquecidos.

Os apressados destacam-se. Pisam forte. São verdadeiros foguetes a caminho… de onde? Talvez nem eles, os apressados, saibam. Têm prazos, mas o prazo de suas vidas é ainda mais veloz.

Os objetos parecem disputar, numa visão romântica, a atenção pública. Fantasias de carnaval sem ser carnaval, músicas fora de moda, alimentos fora da validade, brinquedos programados para quebrar. Tudo se oferece, exceto, talvez, o essencial. O essencial já não se acha mais.

Como disse antes, as pessoas, de um modo geral, passam apressadas. Mas e as demais pessoas, onde estão? No mesmo lugar.

Uma criança jogada em frente à biblioteca estadual, parecendo desacordada. Um senhor sujo, aparentando estar sem sua dignidade. Uma mulher negra, e pobre, e ainda mais pobre por ser negra, e ainda mais negra por ser pobre, tenta alimentar seus filhos, em vão. Um outro menino chora, sem que ninguém notasse, sentado nas escadas de uma igreja.

Essas pessoas estavam aparentemente no meu caminho, hoje mais cedo. Aparentemente, pois soavam invisíveis. O registro de seus sofrimentos, de suas vidas degastadas, parecia intangível.

Há três formas de romper esse sofrimento indescritível: parar à força aqueles apressados; levar, sem a devida autorização, aqueles objetos; e ameaçar a integridade daqueles prédios.

Se o fizerem, terão ao seu lado — finalmente! — a lei. Surge o povo, inconformado com tamanha violação de um direito humano tão central, a nossa segurança individual. Surge o agente repressor, zeloso que é da ordem pública. Surge o analista, a pedir a dureza da lei para todos aqueles que conhecem a dureza da vida.

Aquele menino que eu vi hoje ao lado da biblioteca estadual pode estar morto, pensei eu. Já estaria morto quando eu passei? Não sei. Ninguém sabe. Afinal, ele estava deitado, sentenciado pela lei que a ele cabe enquanto jovem, negro e pobre: a da extrema insensatez que nos corrompeu.

Foram pagos morigerados funcionários apenas para mantê-lo invisível, até que, um dia, finalmente, tão odiosa visão — uma criança — suma apressadamente da nossa vista.