Ano novo, vida nova

Todas as culturas humanas festejam a passagem do tempo. Antigamente, o ano novo era marcado pelo reinício do ciclo agrícola. Atualmente, a maioria da humanidade segue o calendário ocidental e festeja o ano novo no dia 1o de janeiro. Mesmo os povos do sul onde o solstício do inverno ocorre em junho e não em dezembro, se unem aos irmãos do norte para comemorar juntos a mudança de ano. Também grupos que têm calendários próprios, como judeus, islamitas, chineses e outros também fazem festas no início de janeiro.

A mudança do tempo estimula em nós o desejo de mudança. Em muitas culturas, os ritos de ano novo sugerem que as pessoas renovem suas vidas. Na noite de ano novo, as pessoas vão ao mar ou a rios para iniciar o primeiro minuto do novo ano com um banho de renovação interior. Há povos nos quais o costume é queimar roupas usadas e se revestir de trajes novos indicar que se quer ser pessoas renovadas. Nas mais diversas culturas e religiões, a novidade exerce uma profunda e misteriosa atração. Tudo o que é novo desperta interesse. É uma vocação do ser humano renovar-se permanentemente. No entanto, os ritos podem expressar o desejo, mas não podem por si só realizar mudanças. O que faz o tempo ser fecundo de algo novo é o amor. Precisamos viver a generosidade, a solidariedade e a partilha de vida para que o nosso desejo de que o mundo caminhe para melhor se torne verdadeiramente eficaz. Sozinhos, não podemos mudar estruturas políticas baseadas em leis estruturais. No entanto, podemos contribuir para que se criem as condições necessárias para transformar leis e sistemas e, assim, tornar o mundo mais justo e fraterno.

Os cristãos costumam falar em “ano da graça de 2015”. O que está por trás disso é que o calendário não é somente uma contagem quantitativa do tempo. A passagem dos anos não é neutra. A regra beneditina ensina aos monges que o tempo nos é dado como “um prazo a mais para a nossa conversão”. Podemos acolher o ano novo com esse sentido: um tempo novo para nossa conversão. Paulo escreveu à comunidade cristã de Roma: “a escuridão da noite quase passou e o dia está chegando. Devemos, então, ser como quem desperta na madrugada e organiza sua vida não a partir da experiência da escuridão da noite e sim como quem vive à luz do dia (Rm 13, 13).

Acolher o ano novo como um tempo de mais luz em nossas vidas significa colher as sementes de bondade espalhadas na terra durante o ano passado e garantir que sejam semeados novos brotos de paz e justiça. É importante que esse ano novo seja para todos nós um tempo de profunda renovação de vida. É preciso que isso repercuta também para as pessoas ao nosso redor e para todo o universo. Assim, a luz se espalhará e tudo será mais novo. Para que isso seja possível, refaçamos o compromisso de, a cada dia desse novo ano, consagrar um momento, mesmo que seja breve, de gratuidade e interioridade para renovar um diálogo verdadeiro e profundo, cada um/uma consigo mesmo/a e comprometer-se profundamente em ser sempre mais atento/a ao diálogo com os outros, inclusive com aquelas pessoas que pensam e agem a partir de valores que não são os nossos. O diálogo mais fecundo é justamente com os que pensam e atuam diferentemente de nós. Além disso, procuremos de todos os modos intensificar a comunhão solidária com a terra, a água e todos os seres vivos do planeta. Assim, a bênção deste ano novo se realizará em nós e no mundo inteiro. Então, todos poderemos constatar como se tornarão verdadeiras e fecundas em nossa vida as palavras da antiga bênção irlandesa: “O vento sopre leve em teus ombros. Que o sol brilhe cálido sobre tua face, as chuvas caiam serenas onde moras. E até que, de novo, eu te veja, que Deus te guarde na palma da sua mão”.

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