Agustin Lao-Montes: “Capitalismo racial subjuga negros”

Debates da III Conferência Bienal da Associação para o Estudo da Diáspora Africana no Mundo (ASWAD). Por Gustavo Barreto, do Rio de Janeiro, 5/10/2005

Durante um dos debates do primeiro dia – “Conceituando a Diáspora I – Descolonialidade”, Agustin Lao-Montes, professor da Universidade de Massachusetts, em Amherst (EUA), falou sobre a afro-latinidade, colonialidade do poder e a nova onda de movimentos antisistêmicos. Ele elogiou o congresso, destacando ser este o “primeiro grande evento em escala mundial organizado por afro-descendentes”. Agustin destacou também a importância de se aprender com o Sul e “repensar a modernidade”, como a vemos, contra a corrente eurocêntrica. Por um lado, Agustin acredita que este seja um projeto subjetivo, uma frente de luta de debates. Por outro, um projeto prático, ético-político e transformador.

Durante o evento, por diversas vezes foi reforçado o esforço no sentido de “descolonizar nossa subjetividade”, num processo de reconstrução do negro no processo histórico. Agustin aponta que, na modernidade capitalista, novas formas de escravidão são bases de sustentação do império moderno. “Não sei se é possível entender o capitalismo se não entendermos o capitalismo racial, que subjuga os negros”. Em uma perspectiva mais ampla da História, argumentou que, antes do século XVI, não existiam as noções de “índios”, “negros”, “continente” ou “ocidente”, cita. “São invenções, estratégias para a dominação. O racismo é um dos ritos fundamentais da modernidade”. É o que Agustin chamou de “a cara obscura da modernidade”, juntamente com os processos políticos, econômicos e culturais de exploração.

Agustin fez questão de separar os conceitos de “colonialismo” e “colonialidade”. Para ele, enquanto o primeiro dizia respeito à administração colonial no sentido formal, político, o segundo diz respeito a uma hierarquia social, de classe, racial e de gênero. “Este é o atual projeto de colonização. Para combatê-lo, precisamos de um projeto profundo de descolonização da memória, da subjetividade, da identidade, da economia e da política”, sustentou.

Ele reiterou a importância das ações coletivas, citando como exemplo a revolução do Haiti e os movimentos negros nos EUA e na África do Sul. Agustin acredita que os movimentos negros atuantes devem se “retroalimentar” constantemente, pois há, em sua avaliação, um momento favorável para a de-colonização dos afro-latinos. “Esta luta faz parte de um evento maior”.

Respondendo a um questionamento sobre o papel dos intelectuais neste contexto de transformação, Agustin ressalta que estes precisam “mirar na realidade” e “viver o cotidiano” – “face the reality”, como definiu em inglês – de maneira constante, abrindo outros espaços de produção de conhecimento. “São estes espaços de pensamento coletivo, não apenas de indivíduos”.

Mais informações sobre o evento: www.aswadconference.rg3.net

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