Afro-brasileiros no novo antigo milênio


Nestor Carrena nasceu em Lagos, na Nigéria, em 6 de setembro de 1913. Seus avôs maternos seriam originários de Porto Alegre, sua mãe de Lagos e seu pai de Daomé (atual Benin). Registros históricos atestam, no entanto, que o sobrenome Carrena veio de um italiano, originário de Gênova e estabelecido em Lagos no século XIX.

Ainda muito jovem, Nestor aprendeu com a mãe a arte da música e os mistérios do português. Aos 11 anos cantou sua primeira modinha nessa língua. Três quartos de século depois, ainda recorda letra e acordes que dedilha no piano da sala. Nestor teve atuação importante na sociedade dos retornados, tendo presidido em mais de uma ocasião a União dos Descendentes Brasileiros de Lagos.

Assim como Nestor, ao longo do século XIX e até inícios do XX, milhares de brasileiros de origem africana, escravos libertos ou forros (nascidos livres) migraram para a África, o chamado “retorno” – ainda que, para muitos “retornados”, a África nunca tivera sido terra natal. Deixavam o Brasil, em sua maioria, em busca das origens e de um futuro melhor, ou simplesmente fugindo da perseguição e da falta de oportunidades de um país que engatinhava no processo de emancipação de seus escravos, etapa indispensável de um projeto de nação no qual os negros ainda não tinham lugar.

Instalados em cidades como Lagos (na atual Nigéria), Uidá, Porto-Novo e Ágüe (Benin), Lomé (Togo) ou Acra (Gana), esses retornados constituíram uma verdadeira comunidade, homogênea nos traços deixados pela herança brasileira, em especial a educação – rigorosa e majoritariamente católica, muito diferente daquela dispensada pelas famílias locais a seus filhos e netos.

No dia 5 de outubro, a Revista Consciência.Net visitou a mostra Cartas d’África: Uma história de retornos, que procura resgatar a trajetória de alguns desses brasileiros e de seus descendentes. A exposição esteve no Sofitel, em Copacabana, Rio de Janeiro, durante a III Conferência Bienal da Associação para o Estudo da Diáspora Africana no Mundo (ASWAD), de 5 a 7 de outubro.

Além da simpática figura de Nestor, o projeto Cartas d’África resgata um passado que a maior parte de nosso pensamento eurocêntrico, ainda atual e vivo, prefere esquecer: a importância dos negros para a construção de uma identidade nacional. Para os que não pretendem pactuar com o ideal histórico de “embranquecimento” da população brasileira e entender um pouco mais sobre nossas verdadeiras origens, conhecer o projeto é essencial.

“Feliz Novo Milênio”

Em 1978, Nestor esteve no Brasil em companhia de Angélica da Rocha. Juntos, assistiram o carnaval do Rio de Janeiro, de Salvador e Brasília. Uma revista semanal registrou na época a descoberta da terra ancestral. Nestor mandou um recado por meio do projeto Cartas d’África, onde diz: “Eu, Nestor Carrena de Lagos, Nigéria, envio minhas saudações fraternas a todos os membros da Família Carrena no Brasil. É por isso que estou cantando e tocando piano, o que aprendi com minha falecida mãe. Feliz novo milênio”.

Outros depoimentos e mais sobre o projeto: www.cartasdafrica.com

Revista diária fundada em 13 de maio de 2000.

Seções: Opinião.

QUE LIXO SEM CONTEUDO SAI DA INTERNET!!!!!!!!!!!

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