Adorno e o trabalho docente

Corri para as estantes da biblioteca em busca do meu exemplar de “Educação e Emancipação”, coletânea de escritos do pensador Theodor W. Adorno (1903-1969), publicada pela Paz e Terra, em 1995.

Demorei a achá-lo em meio ao amontoado caótico de livros que se tornou minha casa nesses anos, sim casa tomada, como em Cortázar.

A folha de rosto marca muito bem com a minha assinatura e a data que estamos distantes daquela primeira leitura de outubro de 1997, quando fazia mestrado em Letras na UFPB e cursava a disciplina de Metodologia do Ensino Superior com o grande professor Luizito.

Pois bem, no livro, Adorno se esforça para refletir sobre o sentido de se falar em educação, principalmente depois da barbárie que foi Auschwitz e o nazismo como um todo.

O idealizador do conceito de indústria cultural também se preocupa com a relação entre filosofia e educação, televisão e formação, educação e emancipação etc.

Mas eu procurava especificamente um trecho que me impressionou naquela primeira leitura dos escritos de teoria crítica sobre educação.

Deixe-me folheá-lo, sim está ali em “Tabus acerca do magistério”, no qual Adorno nos mostra uma histórica ambivalência da figura do professor, que ora aparece como lacaio, preceptor, escravo, escriba, escrivão, monge etc.

Daí, ele conclui que “a influência de antigas referências de professores como escravos” (p.10 2) é contraposta a uma “adoração mágica dispensada a os professores em alguns países, nos quais o magistério é vinculado à autoridade religiosa.

Confesso que tais preocupações sobre o trabalho docente e sobre as significações sociais e históricas do magistério me acometeram fortemente neste quase final de ano por conta de um silencioso mas turbulento processo que vem ocorrendo na Universidade Estadual da Paraíba (UEPB).

Ele tira o sono da grande maioria de professores universitários estaduais. Cerca de dois anos atrás, desde a aprovação pelo então governador Cássio Cunha Lima da autonomia financeira da instituição de ensino superior e da votação pela Assembléia Legislativa do chamado Plano de Cargos e Salários, ficou acertado que a progressão docente na carreira do magistério superior só se dará mediante a avaliação de desempenho do docente e que tal avaliação deve ser feita a partir de resolução própria, aprovada nos próprios fóruns da UEPB.

O que ocorre é que, passados quase dois anos do Plano, a administração central da Universidade não encaminhou nenhuma proposta consistente de avaliação docente para a discussão em seus fóruns e agora chega com uma proposta de minuta para “ampla discussão e debate” faltando apenas dois meses para o fim do ano e para progressão dos professores por mérito de desempenho acadêmico.

É um pacote natalino que na verdade vai dificultar a progressão de grande parte do quadro docente da UEPB.

O que no mínimo os professores da instituição se sentem é traídos por um grupo que se encastelou nas estruturas sindicais e burocráticas da instituição e agora chega com uma proposta que parece com o que os docentes mais reclamam de seus alunos: uma cópia apressada e distorcida das resoluções de universidades como a UFCG, UFMG entre outras.

E o pior, em muitos casos, ser diretor de centro, sindicalista, coordenador ou mesmo reitor favorece e muito o professor na hora da avaliação.

Há uma clara penalização do ensino, do professor que dá aula, daquele que está todo dia ali, como o repetitivo como o bico da ave a comer as entranhas de Prometeu acorrentado.

O ensino de graduação e a orientação de monografias de conclusão de curso na tabela de pontos a serem somados ao longo desses dois anos para se merecer a mudança de nível são vergonhosam ente sub-valorizados.

Discutir tais questões não significa vincular a carreira docente ou os destinos da universidade às eleições futuras ou mesquinhas disputas políticas partidárias ou sindicais.

Trata-se de defender os direitos dos professores, essas figuras ambíguas que transitam entre o estigma da antiga escravidão e a liberdade de ensino em sala de aula.

Discutir tais questões também não significa ser contra a avaliação do trabalho docente, pelo contrário, temos de avaliar sim, mas justamente.

Não sou contra as avaliações, mas acredito que elas devem ser encaradas não como vingança política, vendeta ou instrumento punitivo para os sujeitos rebeldes ou críticos.

Reduzir a intelectualidade ao valor de troca como diz Adorno em “Educação e emancipação” faz com que o professor seja encarado de forma mercantil ou mecânica.

É o que ocorre hoje, em plena era dos técnicos cabeça de planilha, no qual os professores são “avaliados” apenas por métodos quase que exclusivamente quantitativos, num esdrúxulo sistema de trabalho misto de taylorismo e fordismo, em plena época pós-toyotista, na qual os diretos e garantias dos indivíduos e dos grupos são brutalmente submetidos na tirania do mercado em crise.

Retoma-se assim a condição primeira do professor como soldado cativo de guerra. Guerra esta entre trabalho e capital, entre esforço para se construir intelectualmente e o de confortavelmente exercer quase em toda a “carreira” em postos de poder na burocracia estatal universitária ou sindical.

Neste sentido, vale refletir, discutir e questionar tal tentativa apressada de avaliação docente…decentemente!

Carlos Azevedo é professor-doutor do Curso de Comunicação Social da UEPB.