Vida poética

Às vezes coisas simples dizem por nós e para os que nos lêm, para o mundo à nossa volta, para a vida de que somos parte, mais do que todos os raciocínios do mundo. Hoje de manhã, ao acordar, pensei no amor, no que da sentido à existência. Uma sensação de paz veio a mim e ainda estou nela.

Enseguida, pensei nos mundos em que deverão ter vivido Fernando Pessoa, Gustavo Adolfo Bécquer, Jorge Luis Borges, Julio Cortázar, aqueles que deixaram para nós mundos sem tempo, lugares de paz, de amor, de luz, nos quais podemos nos refugiar e de fato o fazemos. Os poetas, essa criaturas capazes de registrar, como nesta hora em que escrevo o que estás lendo, o canto rítmico de um grilo.

Muitas vezes, nem leio, e leio, as Rimas de Bécquer, Arte Poética de Borges, “O guardador de Rebanhos”, poemas de Alberto Caiero, Ficções do interlúdio, de Fernando Pessoa. O que sinto quando leio esses poemas ou estou nessas páginas, indo para esses lugares sem tempo, sem morte, de vida sempiterna e de harmonia e infinitude, está além da minha capacidade expressiva.

Julio Cortázar escreveu em 1977, “Después hay que llegar”, seu mais longo poema em prosa. Nunca li coisa tão bela escrita a respeito de algo tão atroz, os desaparecidos, a morte, a ditadura militar argentina.

Cortázar já não está entre nós, não ao menos do modo como costumava estar antes de partir, antes de voltar a esses mundos de Cronopios e de Famas que ainda nos encantam e que, com certeza, continuarão a encantar durante anos e anos, esses seres tenros e sensíveis criados pela imaginação do escritor que viveu em Paris e andou pelo mundo durante a sua vida.

Penso em Jorge Luis Borges, Arte Poética, as conferências que ministrou nos Estados Unidos durante seis meses, segundo ele mesmo declara em Credo de Poeta, um dos capítulos, portanto conferências, do livro.

Mergulhar em “Credo de Poeta”, mergulhar na Arte Poética de Borges, é entrar num mundo irreal, se pensarmos no lado de cá: mortes, tiros, gripe suína, escândalos no senado, guerra na Colômbia ou bases militares estadounidenses a ameaçar a Venezuela de Hugo Chávez, ou ainda a Argentina que sobreviveu ao genocídio que Cortázar tão belamente retrata no seu longo poema em prosa, “Después hay que llegar”.

Talvez sim, Julio, como gostavas de ser chamado. Talvez sim, continuemos a seguir esses caminhos que trilhaste em vida, caminhos de sonho, de beleza, de amor, se solidariedade, de fraternidade latinoamericana, de imaginação e de criatividade por onde andaste, e possamos partilhar de um café contigo num café da Paris celestial, a terra onde o sol nunca se põe, uma Buenos Aires, uma Lisboa, uma Mendoza, uma João Pessoa, uma cidade eterna.

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