A vida como peregrinação

José Comblin, teólogo e missionário, sociólogo e peregrino, nos brinda algumas pérolas da sua caminhada em busca de si mesmo, do sentido da vida, da libertação interior, da comunhão com o Todo:

“A peregrinação é uma imagem. Poucos tem a oportunidade de viver toda a vida como peregrinos – tal qual o peregrino russo. Poucos tem a oportunidade de ser peregrinos durante anos, ainda que o número historicamente não seja desprezível. Os modernos meios de transporte mudaram radicalmente o sentido atual da peregrinação: muitos vão de trem, de carro, de ônibus ou de avião para chegar ao ponto final da peregrinação. Falta-lhes a própria peregrinação.

Essa imagem da peregrinação ajuda a entender o sentido da vida. Pois, para a maioria, a peregrinação não é feita caminhando nas estradas materiais. A caminhada é interior: a pessoa vai buscar no próprio coração o seu verdadeiro ser. Por meio das experiências da vida vai se aproximando pouco a pouco da sua verdade, de uma realização mais completa de si. Pode-se realizar a mudança, o amadurecimento de si mesmo dentro da vida ordinária. A imagem da peregrinação ilumina essa busca até o próprio coração.

A esperança parece mais abstrata, mas realiza a mesma transformação: como o peregrino, o discípulo vai abandonando seu passado, reconhecendo no presente a porta que abre para o futuro, torna-se aberto à etapa seguinte da vida. No final, ele consegue conhecer-se melhor naquilo que era o objeto da sua esperança ao iniciar a caminhada. A nova Jerusalém se encontrará finalmente dentro do seu próprio coração.”

José Comblin, O caminho, ensaio sobre o seguimento de Jesus (São Paulo: Ed. Paulus, 2004) PP. 68-69.