A Terapia Comunitária Integrativa na promoção da inclusão social

Quando penso na inclusão social, o que vem primeiro à mente, são as ações dos governos — principalmente, mas não exclusivamente– que tem como resultado a inclusão das pessoas na condição de cidadãos e cidadãs, a través da criação de empregos ou mediante ampliação do acesso à educação, saúde, habitação, etc. Isto é uma parte importante do que pretendo desenvolver aqui, mas não é a totalidade, e nem sequer, o aspecto principal do que aqui entendo como inclusão social.

As pessoas podem ter sido incluídas na sociedade a través das políticas sociais governamentais, e, no entanto essas pessoas ainda podem não ter-se incluído a si mesmas na sociedade, por não terem se reconhecido ainda na sua dimensão humana comunitária. As políticas governamentais podem criar as condições para o surgimento da comunidade, mas não podem, de per si, enquanto políticas sociais, criar comunidade. A comunidade pode ser criada e é, de fato, criada, a partir de ações mais micro, como a TCI e muitas outras ações na base da sociedade, inclusive, obviamente, as políticas sociais governamentais, as ações das igrejas, das escolas, etc.

O que vou desenvolver aqui está baseado sobre tudo, no que tenho visto e aprendido em muitos anos de prática da TCI.

Quando penso na TCI como uma ação que promove a inclusão social, estou me referindo a fato de que esta forma de ação social tem como um dos seus principais resultados, a redescoberta do indivíduo como um ser social. Já não vejo a sociedade lá e eu aqui, como duas coisas separadas. Me reconheço como ser social, desde um ponto de vista que me inclui. Isto começa a ocorrer a partir do momento em que percebo que a minha condição de pessoa se assemelha à das outras pessoas com as quais vou me encontrando uma e outra vez, nas rodas da TCI. O meu re-conhecimento como ser social nas rodas da TCI se dá principalmente, a través da minha percepção de que eu tenho algo em comum com as demais pessoas com as quais participo destes encontros: o sofrimento. Então deixo de ver essas pessoas como as via antes, ou seja, como pessoas que tem uma certa cor da pele ou uma determinada condição sócio-econômica ou nível educacional, uma certa religião ou aparência física, e passo a vê-las como vejo a mim mesmo, ou seja: como gente. Como seres humanos, pessoas.

Isto é um processo, é algo que começa a acontecer. Pode acontecer de uma só vez, como tenho visto e ouvido relatar por parte de quem o viu, que a pessoa em uma única participação em uma roda de TCI, simplesmente solta as muletas e começa a andar, por assim dizer. Foi o caso de uma pessoa que andava em cadeira de rodas em uma localidade do Uruguay, e, ao sair da roda da TCI, disse: eu pensava que isto acontecia somente comigo. Quantos de nós não temos tido essa sensação. Isto também acontece comigo! Eu achava que ninguém tinha passado por uma dor como a minha. Isto fazia de mim um pária, um excluído, alguém fora da humanidade, fora da sociedade. A partir do momento em que re-conheço a dor do outro como uma dor na qual também me vejo, o outro passa a ser parte de mim, de certa forma. Já não é tão outro, ou tão outra. Lembro que certa vez estava vendo as pessoas que passavam à minha frente em um aeroporto, e notei algo diferente: não as estava julgando. As estava vendo como gente, como pessoas. Anteriormente, e ainda hoje, também, em certa medida, muitas vezes, continuo vendo-as como alguém com um certo atributo: jovem, velho, mulher, trabalhador, executivo, rico, pobre. Mas naquela oportunidade, naquele aeroporto que agora não lembro qual foi, eu via pessoas, apenas pessoas. Isto me alegrou. Acredito que isto seja um resultado destes anos de convívio na prática da TCI, na rede da TCI. As pessoas aparecem cada vez mais como tais, como pessoas, e não tanto como algum dos seus atributos. Também eu começo a me ver como pessoa, e não como alguma das minhas capacidades ou deficiências.

Quando em vejo como alguma das minhas deficiências, não estou me vendo como gente, como pessoa. Estou me vendo como uma parte que não está. Estou vendo o que falta. O copo meio vazio. Mas quando me vejo como alguém que tem algumas competências que adquiriu sobre tudo no enfrentamento das dores e das dificuldades que tive que enfrentar como todo mundo, estou começando a me ver como pessoa, como gente, como ser humano. Isto é um alívio. Não sou perfeito. Não aspiro à perfeição, embora em alguma parte da minha programação, ainda existam resquícios deste tipo de loucura, que consiste em pensar que eu poderia ser um ser tão especial que seria mais que humano. Isto é o que me leva muitas vezes a me sobre-exigir, embora esta fronteira seja sempre bastante difusa. Uma coisa é a sobre-exigência, que pode ter a ver com essa espécie de percepção distorcida de mi mim mesmo, como alguém acima da normalidade, acima da humanidade, mas pode também ser uma característica do meu modo de ser.

Somente eu mesmo é que poderei saber, em cada momento, o que é o que. E aqui aparece um dos aspectos cruciais da TCI na construção da autonomia das pessoas. A autoridade sobre o julgamento da ação está na própria pessoa e não fora dela, em alguma autoridade externa. Mas voltemos ao tema principal destas reflexões. A TCI na promoção da inclusão social. Uma coisa é a inclusão na sociedade, e outra coisa é a construção de comunidade. Posso estar incluído na sociedade mas estar fora da comunidade. Posso ter emprego e renda, casa para morar, acesso á saúde e à educação, mas, no entanto, posso ainda não me sentir parte do tecido social como um ser com pleno direito a existir com a minha própria singularidade irrepetível. Posso ainda estar pensando que devo me parecer com alguém para ser aceito ou aceita. Na TCI, temos a possibilidade de ganhar permissão para ser do jeito que cada um de nós é. Eu na preciso estar tentando agradar os outros o tempo todo, me deixando de lado. Uma espécie de burro de carga ou tarefeiro.

Posso servir aos demais, sem dúvida, mas sem por isto me tornar uma espécie de carregador do mundo (Dona Atlas). A descoberta da co-responsabilidade me tira do papel de “salvador da pátria”. Estou na TCI não por ser bonzinho, mas porque aqui resgato um sentido maior da minha vida. Aqui resgato a minha própria história. Aqui vou me lembrando mais e mais de quem eu sou. Mas e mais lembro de mim mesmo. E neste lembrar de mim mesmo, vou me incorporando em uma percepção da humanidade como algo que me inclui. Então posso me dar conta de algo que eu via quando me aproximava dos grupos de formandos nos cursos de TCI. Havia nessas reuniões de pessoas, uma sensação ímpar. Algo fora do comum. Muito bom. Agora eu sei. Essas pessoas estavam em contato com elas mesmas. Não há nada mais sagrado que a pessoa estar de volta nela mesma, ser ela mesma a pessoa que é. Nisto encontro que a TCI tem um papel muito importante na recuperação da noção de si mesmo, na recuperação da identidade das pessoas.

Nenhum de nós se reduz a um papel social. Lembro de um curso de formação em TCI em Sousa, no interior da Paraíba. Uma mulher expressava, com alegria, que ela tinha percebido que não precisava ser apenas esposa e mãe. Também podia ser ela mesma. Nunca esqueci disto. Eu também posso ser eu mesmo. Aliás, só posso ser eu mesmo. Cada um de nos apenas pode ser a pessoa que é. Mas é necessário que este conhecimento seja um conhecimento experiencial, e não apenas intelectual, conceitual. Não sou apenas esposo, filho, irmão, vizinho, etc. Sou gente, acima de tudo, gente. Ser humano. Isto é preciso recordar. Isto acredito que seja o que mais vale a pena saber. E quando começamos a ter noção do ser que somos, já não queremos nem podemos mais nos limitar aos papéis sociais, por mais importantes que eles sejam, e por mais que não possamos existir sem executar esses papéis sociais. Temos um vislumbre do nosso ser maior, e uma alegria diferente vem a se tornar uma companheira freqüente no nosso dia a dia. É a alegria de ser. Que poderá não ser uma espécie de êxtase permanente, uma vez que tudo na vida vai e vem, mas será, sem dúvida, um alívio para a angústia de um existir que antigamente víamos como desgarrado, dissociado, fragmentado. A unidade da uma sensação de plenitude.

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