A Terapia Comunitária como prática libertadora

Entendemos a Terapia Comunitária como uma prática emancipadora, porque ela tende a libertar as pessoas da culpa e do preconceito, e também as empodera, fortalecendo a auto-confiança –como antídoto do medo eu conduz à violência—e a auto-estima.

Todos estes elementos da pessoa e do seu agir social, promovem um tipo de comportamento na família, nas relações inter-pessoais em sentido mais amplo, em que prevalece a inclusão, a aceitação do diferente, a colaboração, e a conotação positiva.

Neste contexto, criam-se horizontes de existência pessoal e coletiva esperançadores, uma vez que as pessoas e as comunidades podem projetar seu futuro traçando metas, ao invés de meramente existirem de maneira apática, anômica, desestimulada, alienada e alienante.

Estas enunciações são convalidadas pela prática, pela expansão das noções de si e do poder que cada um de nós é, e que começam a emergir quando você começa a se integrar nesta roda que é a Terapia Comunitária.

O que antigamente aprecia exclusivo de pequenos círculos, agora está à disposição de pessoas de todas as condições sociais, com uma efetividade que não deixa lugar a dúvidas. As pessoas rompem a auto-imagem de vítima, re-valorizando os recursos pessoais e culturais, redescobrindo perspectivas vitais animadoras, em substituição da passividade e da acomodação.

Uma das coisas que ocorrem a partir da inserção da pessoa na atividade da terapia Comunitária, é um progressivo retorno dela a si mesma. Um progressivo e crescente vir a ser ela mesma quem ela é. Isto significa que de ser um ser para outro, ela passa a ser um ser para si, um ser em si. Ou seja, se antes definia a sua vida pelo cumprimento de expectativas alheias internalizadas, pelo cumprimento de deveres e obrigações, agora passa a definir seu ser e o seu agir, o sentido da sua vida e do seu tempo, do que faz ou deixa de fazer, em função de determinações e escolhas internas

E a principal destas escolhas é a de ser ela mesma, plena e feliz, independentemente de se isto for aceito ou aprovado por outras pessoas. Isto libera a pessoa da dependência, da expectativa da aceitação alheia como pré-requisito para ser feliz. Não significa que ela passará a viver sem parâmetros ou referências, sem limites, mas sim, que esta existência que ela passa a ter, agora é auto-determinada, determinada por ela mesma, por suas escolhas livres e responsáveis, e não por imposições alheias internalizadas no que Paulo Freire chama de “o opressor interno”.

No decorrer deste processo, que começa na formação como terapeuta comunitário ou na integração da pessoa a um grupo de Terapia Comunitária, começa a retornar a identidade coletiva, o pertencimento a um grupo, a referência coletiva, o apoio dos demais. Este é um passo crucial na recuperação da identidade, na contramão da sociabilidade imposta pela sociedade capitalista, que opõe os semelhantes entre si, tornando-os inimigos e não co-operadores.

Nesta caminhada de recuperação da noção de si, de ser um ser para si e não um ser para outro ou um ser para outros, a pessoa vai resgatando a sua auto-estima, por vezes depois de muitos anos de esquecimento e auto-depreciação. Ela aprende (recorda) o valor que ela tem, por ter superado as provas e lutas da vida, valorizando a sua inserção num coletivo de que faz parte, orientado e sustentado por valores culturais positivos, por contraposição à pseudo-cultura das classes dominantes, que se espalha pelo conjunto da sociedade como força desagregdora (negativismo, culpabilização, discriminação, preconceito, desânimo, agressão, violência)

As idéias dominantes numa época são as idéias das classes dominantes, isto sabemos a partir de Karl Marx. E quando se fala em idéias, há que se entender modelos, formas de agir impostas ou sugeridas como boas e desejáveis para todos, embora não o sejam, embora possam ser, como são, germe de dissolução e de destruição do ser humano.

A recuperação da sociabilidade natural e positiva, genuinamente humana, pressupõe a des-alienação, a recuperação do ser em si para si. Isto se da no convívio com outras pessoas que apreendes a conhecer e a tratar como cooperadores e não inimigos. Neles te reconheces como um semelhante-diferente, como alguém que embora tenha todas as diferenças possíveis e de fato constatáveis entre dois seres humanos, é ao mesmo tempo, alguém tão semelhante, tão parecido, tão essencialmente igual no sentido de ter passado e estar passando por circunstâncias tão essencialmente iguais embora diferentes na aparência ou nos detalhes.

Este processo de resgate da identidade na sua semelhança-dessemelhante, recria a identidade grupal ou coletiva, comunitária, sobre novas bases ou, como costumo dizer, sobre bases olvidadas reencontradas.

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