A tentação totalitária da Ciência

Algumas verdades parecem inquestionáveis. Elas pairam sobre nós como certezas naturalizadas. Aceitamos como o ar que respiramos. E, quando estas verdades assumem ares de “ciência”, então, nada nos demoverá da sua validade intrínseca.

Faz-se mister refletir sobre as verdades absolutas que, à maneira religiosa, recebem o manto da “ciência”; que, sob os auspícios da razão moderna, se impõem enquanto padrão que reina absoluto e, em geral, desqualifica qualquer saber que não tenha a sua sanção. Desde a aurora da modernidade, e caminhando pari passu com o poder político e econômico ocidental colonialista, legitimando e legitimado por este, a predominância deste padrão significou a negação de qualquer racionalidade a outros saberes fora do “campo científico”. Mesmo a crítica a determinados aspectos da razão moderna ocidental transita em referência ao mesmo padrão. Entre outros efeitos negativos, impôs-se o silêncio ao “outro”, o colonizado.

A ciência substituiu a religião e assumiu para si o status de dogma. É vero que a ciência não consegue descartar a heresia e se alimenta dela. Mas ortodoxia e heterodoxia são partícipes do mesmo padrão e campo, faces da mesma dominação eurocêntrica e colonialista. O poder colonial político e econômico tem neste padrão o seu substrato teológico. A ciência não se restringe a meros conceitos universalmente aceitos como indiscutíveis. É poder.

A ciência tem aspectos positivos, mas também a tendência a impor-se como uma epistemologia incontestável que coloniza nossas mentes. Este saber colonialista têm raízes históricas e espaciais bem definidas e traduz os deslocamentos da hegemonia política e econômica na Europa. O que é particular se universaliza e se transforma em um paradigma que nega outras narrativas. Se impõe como legitimação da supremacia ocidental e desqualifica outras culturas e saberes, desde então tidas como inferiores e exóticas. O conhecimento das civilizações árabe-islâmica, chinesa e ameríndia é secundarizado e submetido à racionalidade ocidental, a qual é vista como expressão da ciência.

Esta opressão epistêmica, sob a capa da cientificidade, é definida por Mignolo como colonialidade. Ele questiona a pretensão totalitária da ciência ocidental e aponta para a construção de outro paradigma numa perspectiva libertadora. Trata-se de superar a face despótica do cânone eurocêntrico, branco, racista e colonialista; e de despir os profetas da modernidade da pretensão à universalidade e domínio epistemológico. Reconhece-se a face positiva da modernidade, mas busca-se fortalecer outras epistemologias que coloquem em cena aqueles historicamente oprimidos pela colonialidade, como as mulheres e os negros.

Não se trata de estabelecer um novo paradigma à maneira totalitária, mas de reconhecer as limitações do paradigma eurocêntrico e a necessidade de outras epistemologias, como a feminista e a racial. Em lugar da uni-versalidade que nega o “outro” em suas particularidades de gênero, étnica, culturas etc., e se considera arrogantemente como o único saber válido, urge instituir a pluri-versalidade. Mignolo proporciona a reflexão nesta direção, sem verdades dogmática e religiosamente aceitas, ainda que sob o verniz cientificista, e com o respeito e valorização de outros saberes historicamente silenciados.


* Reflexões a partir da leitura do texto “Os esplendores e as misérias da “ciência”: colonialidade, geopolítica do conhecimento e pluri-versalidade epistêmica”, de Walter D. Mignolo. In: SANTOS, Boaventura de Sousa (Org.). Conhecimento prudente para uma vida decente: um discurso sobre as ciências revisitado. São Paulo: Cortez, 2004, pp. 667-709.

Professor do Departamento de Ciências Sociais na Universidade Estadual de Maringá (DCS/UEM), editor da Revista Espaço Acadêmico, Revista Urutágua e Acta Scientiarum. Human and Social Sciences e autor de Maurício Tragtenberg: Militância e Pedagogia Libertária (Ijuí: Editora Unijuí, 2008).

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óTimo Texto!

  • Achei um bom texto mas vejo que faltou uma reflexão sobre o que é a colonialidade.
    O Brasil tem muitas pesquisas, claro que a europa tem muito mais, mas não devemos culpar apenas as opressões como dadas no texto.
    Costumo sempre enfatizar que pesquisa nos países amerindios é recente mas vc me diria claro após as colonizações. Sim concordo, antes tinha ciencia, porém sem metodologia cientifica, afinal os mais e incas até hj são respeitados pelas grandes contribuições na agricultura, mas a metodologia científica vem a contribuir para as próximas descobertas, as que desenvolveram tecnologicamente.
    O Brasil construiu (UFRJ) um modelo de transporte MagLev cobra, para o trem bala RJ – SP, com tecnologia nacional e a mais próxima do acerto na licitação é a inglesa, que ainda tem tecnologia antiga.
    Então não é algo intrínseco nos ameríndios, e sim no mercado que visa aplicar o que é confiável, não o novo e com riscos.
    Cabe a nós refletir!! seria um grande passo para mostrar que o brasil alcançou um status de divulgador de ciencia e de alta qualidade assim como ferramentas que a petrobrás usa e que emprestamos à Africa do Sul ( LULA ) para desenvolver a extração de metais preciosos.

    Fico grato pelo post, pois dificilmente discutimos a ciencia, assim como tento fazezr um pouco no meu blog com a educação !!!!

    Abraços Douglas!

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