A subversão eucarística de Dom Helder Camara

Nessa data, 27 de setembro, em todo o mundo, a Igreja Católica celebra a memória de São Vicente de Paulo, pioneiro da opção prioritária e fundamental pelos pobres como modo de viver a fé e profeta da missão como inserção amorosa no mundo dos empobrecidos.

Hoje, faço memória de São Vicente, homenageando-o nas pessoas de dois queridos irmãos que continuam com muita fidelidade a missão vicentina: o padre João Pubben, homem de coração planetário e que aprendeu a ser um São Vicente de Paula redivivo e a irmã Vanda, profetiza de Deus em um meio religioso nem sempre aberto à profecia. O padre João me escreve que, amanhã, se completarão cem anos (28 de setembro de 1918) da data na qual o nosso querido Dom Helder Camara fazia em Fortaleza a sua primeira comunhão eucarística. E mais tarde, 60 anos, (1958), quando Dom Helder, bispo, pela primeira vez ordenou padres (missionários vicentinos), em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

No modelo de Igreja vigente há cem anos e até hoje na maioria de nossas paróquias e comunidades, a primeira comunhão se caracteriza por uma cerimônia de iniciação das crianças em uma nova fase da vida (antigamente o Catecismo a chamava “idade da razão”) e era importante na catequese. No entanto, de fato, em um sistema de Igreja Cristandade, que considerava a fé como algo natural e não como opção pessoal, para muitos, a primeira comunhão era a primeira e a última ou uma das últimas. E da cerimônia restava apenas uma fotografia guardada como lembrança. Graças a Deus, no caso de Dom Helder, isso não foi assim. E quem o conheceu sabe que, desde aquela primeira vez em que ele recebeu a comunhão, a eucaristia marcou profundamente a sua vida.

Quando ainda muito jovem, ele entrou no seminário para ser padre, esse amor à eucaristia já era nele fonte de espiritualidade. Em uma circular escrita na vigília da 5ª feira santa do ano de 1967, ele escrevia: “Quando eu era seminarista, chegava a pensar que, ao invés de comemorar, no mesmo dia, o Sacerdócio, a Santa Missa e a Eucaristia (presença real), seria preferível dedicar a cada uma dessas instituições estonteantes, sua própria solenidade. Hoje, me parece evidente que as três são inseparáveis: Missa e Eucaristia, Missa e Sacerdócio. Como gosto de concelebrar! Como a concelebração deixa viva a ideia de que o Sacerdócio é um só, como um só é o Sacrifício…” (212ª circular – Após Concílio Recife, 22/ 23. 3. 67 – Circulares, vol III, tomo III, p. 116. 

Nas circulares que durante anos e anos, ele escreveu a um grupo de amigos/as e colaboradores/as, muitas vezes, ele se referia à alegria de celebrar a eucaristia e principalmente a graça que era comungar. Essas circulares se estendem de 1962 ao menos por vinte anos (atualmente está publicado até 1970). Elas eram escritas depois de uma oração de vigília que ele fazia a cada madrugada. Quem, hoje, lê essas circulares, percebe logo que o Dom sempre partia dos textos da missa do dia e sua oração era centrada na eucaristia que naquela manhã iria celebrar.

Lembro-me de que em 1969, quando, no mosteiro de Olinda ele ordenava dois monges (dos quais um era eu), depois da celebração, ao me cumprimentar, ele podia afirmar: “Deus me deu a graça de que cada vez que celebro a eucaristia é cada dia como se fosse a minha primeira missa”. Ele se referia aí à primeira missa que ele celebrou como padre, mas sem dúvida, ele poderia afirmar isso da primeira missa na qual comungou quando ainda criança (com nove anos).

Mesmo se o Dom mantinha nas circulares uma linguagem que, hoje, poderia ser revista, por trás das palavras, fica claro que é o amor à eucaristia que fez de Dom Helder uma pessoa totalmente doada aos irmãos.

Da sua mística eucarística que se poderia dizer: vinha desde sua primeira comunhão, ele foi cada vez mais aprofundando na vida o jeito de ser solidário e entregue aos mais pobres. Sua angústia em ver o mundo dividido em norte e sul, em ver os ricos cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Era um mundo anti-eucarístico. Um mundo avesso à comunhão a qual a ceia de Jesus nos convoca. Aprendi com Dom Helder essa íntima relação entre a profecia da ceia – celebrada em cada missa – e a indispensável luta para que as pessoas percebam a desumanidade terrível da desigualdade social, o horror provocado pelo colonialismo. Dom Helder denunciava que infelizmente eram os países considerados cristãos que mais oprimiam os países pobres. E assim se o padre Theillard de Chardin fez sua Missa sobre o Universo(belíssimo poema místico), Dom Helder fez de toda a sua vida profecia de uma economia baseada na comunhão e não na exploração e uma ação de graças permanente pelas minorias abrâmicas que continuam o seu amor à eucaristia na luta contra as injustiças do mundo. E teve a coragem de ir além de todas as fronteiras da época para transformar esse mundo e apoiar a luta dos pobres por sua libertação.

O amor eucarístico de Dom Helder o levou a fazer a Cruzada São Sebastião no Rio de Janeiro, a Operação Esperança em Pernambuco, a Ação Justiça e Paz que queria ver espalhada pelo Brasil e pelo mundo. Para mim, a imagem do que era a missa para Dom Helder é vê-lo ainda hoje, nas fotografias, como ele acompanhava, descalço e por horas no sol calejante, a cada 6ª feira santa, o caminho da Cruz, pelas ruas da paróquia de Ponte dos Carvalhos, com o padre Geraldo Leite, na alegria de estar no meio dos pobres de Deus. Que São Vicente de Paulo seja nosso padrinho para continuarmos essa profecia de Dom Helder e consigamos sensibilizar os padres e comunidades de hoje a unir mais eucaristia e compromisso social transformador, a ceia de Jesus e a luta por um mundo de comunhão.