A responsabilidade da palavra

Neste 2º domingo do Advento, as comunidades escutam como evangelho a apresentação de João Batista segundo Lucas (Lc 3, 1- 6). 

A missão do Batista no evangelho de Lucas é apresentada como precursor do reino de Deus, mas do que da vinda de Jesus, já que se fala de João quando Jesus já é adulto. Lucas conta que Jesus é batizado e começa a sua missão quando João é preso e vai ser morto. Assim, o Batista em sua missão e sua palavra precede sempre a vinda do reino de Deus. Essa é a sua atualidade. O evangelho situa esse acontecimento de João no contexto histórico e social da época. No 15º ano do império de Tibério Cesar… O anúncio do reino se dá em meio à realidade social e política. Não se pode separar o evangelho da realidade em todos os seus aspectos. É na realidade de um mundo tomado pelo poder opressor que o evangelho diz: a palavra é feita (se faz – dizia o velho latim) em João no deserto. É interessante porque a profecia se dá no deserto… Não é no centro do império nem em meio à agitação urbana. É no deserto que na Bíblia significa a clandestinidade do caminho para a liberdade da terra, mas significa mais do que tudo a caminhada de luta e de intimidade com Deus – o tempo do namoro da comunidade com o Senhor. É aí que se encarna a Palavra de Deus. O evangelho de João diz que a Palavra se faz carne em Jesus. Aqui ela se faz palavra viva e profética em João. 

Assim, o caminho do evangelho será sempre testemunho dessa Palavra. Uma palavra grávida do reino de Deus. O que significa isso hoje?

Penso que significa a responsabilidade da Palavra. A palavra responsável é a palavra que cria comunicação verdadeira, que serve para unir, para libertar e ajuda as pessoas a caminhar. 

Em um mundo como o nosso no qual os meios de comunicação e as redes sociais ampliam tanto a comunidade – os grupos sociais, a responsabilidade da Palavra é imensa…

Nessa segunda-feira, celebramos os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, publicada pela ONU no 10 de dezembro de 1948. Hoje, além de que nenhum dos direitos propostos como “direitos básicos” de todo ser humano, nenhum deles é respeitado pela maioria dos governos e das sociedades como um todo, pela primeira vez, eles são mesmo desacreditados. Antes, no tempo em que o arcebispo dom Helder Camara lutava pelos direitos humanos, em uma conferência feita no final dos anos 60 ele diz: “Todo mundo se diz a favor dos direitos humanos. Por que então, eles não são cumpridos? O problema é que hoje, muitos simplesmente negam os direitos dos outros, dos diferentes, dos pobres, dos índios e das minorias sociais e sexuais. Quando muito, aceitam “direitos humanos para humanos direitos”, ou que eles consideram “direitos”. 

Nesse aniversário dos 70 anos dos Direitos Humanos, além de defender os direitos individuais, defendemos também os direitos coletivos de todos os grupos tradicionais. Defendemos direitos que não estão na carta de 1948. As mulheres têm direito à igualdade de gênero e reconhecimento de sua igual dignidade e protagonismo em todos os campos da vida. Todas as pessoas têm direito à sua identidade na diversidade de situações humanas, sexuais e sociais. As pessoas têm direito ao lazer, têm direito a serem escutadas e acolhidas, têm direito à alegria, à festa, ao prazer… Tem direito a ter direitos…

Essa é a humanidade nova que sinaliza que o reino de Deus chegou ao mundo. Não podemos separar as duas coisas. O evangelho de hoje termina dizendo “toda carne, isso é, toda criatura, toda pessoa humana e mesmo todo ser vivo verá a salvação”.  

Devo confessar com tristeza e dor que as Igrejas cristãs não foram pioneiras no que diz respeito aos direitos humanos. Até hoje, o Vaticano não aceita como estado assinar mais da metade dos acordos que a ONU faz no que diz respeito aos direitos humanos. Até hoje, por sua lei interna, os funcionários do Vaticano não podem se organizar em sindicato, não têm direito à greve e assim por diante… Atualmente, temos um papa que luta contra isso e tenta sozinho e quase sem nenhum apoio no aparelho eclesiástico mudar isso. Vamos ver se consegue. Mas, João Batista era a voz que grita no deserto e como voz assim isolada e no deserto pôde ser testemunha e precursor do reino. 

A boa nova é que, independentemente de tudo, dos desertos do mundo e das vozes proféticas dos sem voz chega para todos a salvação da humanização e do amor.